Mostrando postagens com marcador valores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador valores. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de julho de 2016

Sobre valores e prioridades


Tenho me aproximado bastante ultimamente de uma abordagem de psicoterapia chamada de Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy - ACT). Basicamente, essa abordagem comportamental usa conceitos de aceitação e atenção plena (mindfulness) para engajar um indivíduo em ações e comportamentos que sejam compatíveis com seu conjunto de valores de vida. Ou seja: muito da motivação interna para agirmos vem do quanto aquela ação é de fato relevante dentro do nosso conjunto de valores de vida. E cada um de nós valoriza coisas diferentes: trabalho, família, sucesso, saúde, etc.
O objetivo desse post não é exatamente entrar em detalhes sobre essa terapia, até porque não sou nenhuma expert. Mas essa semana pude perceber na pele que nossas ações mais motivadas estão intimamente relacionadas aos nossos valores mais íntimos e àquilo que consideramos como sendo mais importante em nossas vidas.
Na terça feira minha mãe foi internada com uma pneumonia atípica que atingiu os dois pulmões. Eu fiquei muito apreensiva e preocupada. Minha cabeça começou a ruminar coisas negativas e, nesse momento, a prática de atenção plena foi bem importante: pude perceber meu fluxo mental e não “ir embora” com meus pensamentos. Uma prática que gosto bastante é a do “oi pensamento, obrigada pensamento, tchau pensamento”. Ou seja, quando se perceber pensando “demais” ou quando o conteúdo do pensamento for desagradável, reconheça, agradeça e deixe ele ir.
Além disso, percebi o quanto meu comportamento mudou nessa semana. Muitas das coisas importantes que eu tinha a fazer foram deixadas em segundo plano, pois minha prioridade mudou. Como família é um valor muito importante para mim, tudo aquilo que não era urgente e essencial foi deixado para depois, já que o mais importante era estar no hospital e cuidar/fazer companhia à minha mãe. Não fui à academia, remarquei um ou outro paciente, não estudei... Ou seja: agi de acordo com o valor que era essencial para mim na situação que se apresentava. Quando é muito importante, a tendência é que façamos o que precisa ser feito.
Hora do suplemento para não desnutrir ;)
Muitas pessoas se perguntam: “bom, mas se eu quero tanto perder peso, por que não consigo comer menos e melhor e fazer exercício?”. Uma das razões é que perder peso não é um valor de vida. O que está por trás do seu desejo de perder peso? Melhorar a saúde? Se sentir mais confiante? Ter mais disposição para cuidar de seus filhos? Descobrindo aquilo que realmente  você busca e valoriza, questione-se: o que você pode fazer hoje – independentemente da perda de peso – para conquistar aquilo que almeja? Quais os ganhos que você tem em não mudar? Porque se você age de determinado modo que não é compatível com o valor que você tanto busca, provavelmente você tem algum ganho secundário com isso.
Reflita sobre o que é prioridade pra você. Pois quando é prioridade, encontramos tempo. E tudo dá certo no final J

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Aquilo que deixamos para trás


"Comece a se enxergar como uma alma com um corpo, e não como um corpo com uma alma"
 
São Paulo, 16/12/2015. Natal chegando, ano acabando e, como tal, não poderia deixar de refletir sobre as metas que criei para mim mesma esse ano, e sobre as quais vou colocar para o ano que vem.
Tenho uma prática pessoal que sempre indico a amigos e pacientes: pegar um papelzinho, escrever as metas que hoje desejo para o ano seguinte (devem ser relevantes, mensuráveis e passíveis de serem alcançadas; veja mais como sobre criar metas aqui) e colocar nos dias finais da agenda, para ler só quando o próximo ano estiver acabando. Ontem li as metas que em 2014 coloquei para esse ano, e fiquei satisfeita por ver que muitas delas haviam sido alcançadas; algumas foram aperfeiçoadas para 2016; e outras, ainda, foram descartadas, pois percebi que mesmo que não tenham sido alcançadas, não têm mais importância. Engraçado, pois parece muitas vezes que temos plena certeza daquilo que queremos, mas quando esperamos um pouco e deixamos a vida seguir seu curso natural, percebemos que as “certezas” já não carregam o mesmo significado e importância...
Noto que muitas pessoas hoje em dia criam metas a respeito do corpo: “ano que vem, perderei x quilos”; “ano que vem, alcançarei y% de gordura corporal”; “ano que vem, terei ganhado mais massa muscular”. Os tais “Projeto Verão” que surgem nessa época estão aí para reforçar essa ideia.
A grande questão é que não controlamos nosso corpo. Podemos ter controle e responsabilidade sobre quantas vezes na semana vamos à academia ou quantas vezes comemos fritura, mas a realidade é que não temos autonomia sobre as mudanças que podem – ou não – ocorrer em nosso corpo se controlarmos essas variáveis. Muitas vezes, enxergamos nosso corpo como uma “massinha de modelar”, que pode sempre ser alterada e modificada, contanto que empreguemos algum “esforço” (“força, fé e foco”, dizem os adeptos do fitness). Mas esquecemos que as respostas do nosso corpo dependem não só de estímulos, mas também de genética, da liberação de hormônios, do tipo de estrutura óssea que temos, e de muitos outros fatores sobre os quais não temos domínio e acesso.  
Vivemos hoje uma verdadeira “corpolatria”; damos importância excessiva à aparência do corpo, tornando-a um determinante do nosso grau de bem-estar e qualidade de vida. Tenho estudado a filosofia budista e descobri que a palavra que eles usam para designar corpo é “lü”, que significa “algo que você deixa para trás”, como bagagem. Um monge budista chamado Thich Nhat Hanh disse também que “o corpo pertence à terra”. E é a mais pura verdade! Acho surreal darmos mais valor à forma do corpo, que é algo por definição mutável e impermanente, do que a aspectos mais essenciais de nossos ser, como valores, trabalho, família, espiritualidade...
Sugiro então, nesse final de ano, que reflitamos um pouco mais sobre as metas que colocaremos para 2016. Que seja um ano de mais crescimento interno e realizações pessoais verdadeiramente significativas.
Boas festas a todos!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Meça em amor

No musical da Broadway “Rent” (um dos meus favoritos e que tem até filme), existe uma música linda chamada “Seasons of love” (“Estações do amor”). Nela, os cantores se perguntam como medir um ano: em minutos, em segundos, em bons momentos... (veja o clipe aqui e veja a tradução da letra aqui).

Infelizmente, muitas pessoas estão hoje medindo o valor e o significado de suas vidas em números, mais especificamente aqueles vistos na balança. O foco no peso – ou em sua perda – tornou-se complicado devido ao significado que ele assumiu na vida das pessoas. E isso eu vejo diariamente em minha prática:

1. Pessoas cujo principal “motivador” para adotar comportamentos saudáveis é o emagrecimento. Infelizmente, emagrecer não é um bom motivador a longo prazo e não depende exclusivamente da “responsabilidade pessoal” de cada um. Ganhar ou perder peso vai muito além daquela diferença entre o que comemos e o que gastamos. Existem diversos outros fatores envolvidos nesses processos, como: liberação de hormônios; acesso a alimentos e espaços seguros para a prática de atividade física; interação entre nutrientes no corpo; exposição a poluentes (da atmosfera e aqueles usados nas lavouras); grau de estresse; genética; presença de bactérias intestinais “saudáveis”, dentre outros.

2. Pessoas que buscam perder peso a fim de melhorarem sua autoestima. Para isso, buscam dietas, que levam ao “efeito sanfona” e ao descontrole alimentar, que por sua vez contribuem com uma redução ainda maior da autoestima e do senso de valor do indivíduo.

A vida é muito curta para que gastemos tanta energia e esforço em busca de algo que não é garantia inerente de felicidade, de melhor aceitação e interação social, de sucesso, nem de nada. Quando pacientes me procuram e estão muito obcecados com a perda de peso, e isso invariavelmente está atrapalhando em sua relação com a comida, eu peço para eles imaginarem duas situações:

1. Se o mundo acabasse hoje, quanto tempo você gastaria pensando em seu peso? O quanto ele importaria?

2. Feche os olhos e lembre-se de um momento especial em sua vida: o nascimento de um filho, o casamento, a notícia de uma promoção no trabalho, uma tarde brincando com seu animal de estimação... Tente reviver os detalhes e as sensações vividas naquele momento. Depois pergunte-se: o quanto de fato o peso influenciou naquilo que você estava sentindo? Se você fosse mais gordo/mais magro, o momento teria sido mais/menos especial e importante?

Então, como medir a nossa vida? Faça como diz o refrão da música: meça em amor.