Mostrando postagens com marcador emagrecimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador emagrecimento. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Aquilo que você pode mudar


Logo no primeiro capítulo do livro “Beyond addiction: how science and kindness help people change”, deparei-me com a frase acima, que é conhecida como oração da serenidade e inspirou o post de hoje.

É extremamente comum a ideia de que, se fizermos tudo “certo” – comermos bem, nos exercitarmos mais, enfim, vivermos melhor –, nosso corpo vai responder da maneira como queremos: vai ficar mais magro, mais forte, mais bonito. Assumimos uma postura de que o corpo “ideal” está ao alcance de todos, basta querer e ter “foco, força e fé”. Acreditamos que nossa forma física está sob nosso controle.

E é aí que nos enganamos.
A grande verdade é que não podemos controlar 100% as respostas de nosso corpo diante dos estímulos que damos. Em se tratando de peso corporal, por exemplo, diversos fatores além de calorias consumidas e calorias gastas influenciam, e alguns claramente não estão sob nosso domínio: genética, exposição a poluentes (entenda melhor aqui), falta de espaços públicos gratuitos (e seguros!) para a prática de atividade física, set point (peso em que o seu corpo se mantém em equilíbrio, veja mais aqui)...
Ou seja: nosso corpo não é uma massinha de modelar. Podemos controlar alguns fatores que influenciam nosso peso, mas não todos. E é por isso que algumas pessoas que têm uma alimentação saudável e praticam exercício regularmente não emagrecem, assim como existem outras que comem mal e são sedentárias e não engordam.
Peso não é comportamento. Peso não determina saúde.
Que tal, então, focarmos naquilo que de fato podemos controlar e deixar o corpo responder naturalmente? Fica o desafio J
Coisas que podemos controlar/mudar (e que podem influenciar nosso peso corporal):
Percepção dos sinais de fome e saciedade

Bem-estar emocional
Alimentos que compramos em casa

Hábito de cozinhar
Manejo de estresse

O quanto nos exercitamos e levamos uma vida ativa
Como e quantas horas dormimos (qualidade do sono)

O quanto somos compassivos e gentis conosco mesmo
Prazeres que temos na vida (para que a comida não se torne o único)

Boa semana a todos!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Quando a motivação é o emagrecimento... Que mal há?



“Bom dia, Fulano, me conte um pouco sobre você e sobre como posso te ajudar”. Essa é sempre uma das primeiras perguntas que faço a meus pacientes novos, e confesso que fico com um pé atrás quando a resposta é uma variante de “eu quero perder peso”, mesmo quando o indivíduo de fato poderia ser classificado como sobrepeso ou obeso.

Não é porque eu não queira entender e validar o desejo de emagrecer daquela pessoa; concordo que, em nossa sociedade bastante gordofóbica, é difícil ser obeso. É difícil se sentir confiante e ter crítica a todo momento do padrão de imagens manipuladas e glamourizadas de corpos que nos é imposta. É difícil lidar com algumas limitações de um corpo gordo (por exemplo, encontrar roupas confortáveis e que não pareçam “sacos de vestir”, como uma paciente minha descreveu).
A razão principal para eu ficar ressabiada quando o indivíduo diz que veio me procurar porque quer perder peso é simples: percebo que o desejo de emagrecer não é um bom motivador para mudanças de comportamento duradouras.
Explico melhor: sou muito fã dos chamados baby steps, ou seja, das mudanças pequenas mas que vamos fazendo consistentemente e que ao longo do tempo nos alavancam a mudanças maiores e mais impactantes. Um paciente que quase nunca come salada e frutas, por exemplo, provavelmente não vai perder peso tão já; é preciso criar uma meta pequena, como inserir uma fruta no meio da tarde, para depois de um tempo – quando essa fruta virar hábito – inserir um legume da preferência do paciente no almoço, e também no jantar, e mais uma fruta... Até que chegamos a um padrão adequado e saudável de alimentação. Acho que a maioria dos nutricionistas há de concordar que pequenas mudanças graduais são mais vantajosas a longo prazo que grandes mudanças radicais e abruptas.
Mas aí entra a ironia da história: quando a motivação do paciente para mudar comportamentos é emagrecer, ele muitas vezes não tem a paciência e a disposição para seguir esse processo orgânico. Porque começar comendo uma fruta, e depois aumentar para duas, e depois colocar a salada não necessariamente faz com que o indivíduo perca peso de forma rápida. Apesar dos benefícios à saúde que esses comportamentos estão trazendo, a tão esperada mudança corporal não vem na mesma velocidade. Então, o indivíduo desanima. Vem o pensamento: se não consigo fazer “perfeito”, do que adianta? Aí, o modo “dane-se” é ativado e a pessoa volta a se comportar como antes. Algo parecido acontece com a prática de atividade física: ou o indivíduo já começa a academia de segunda a sexta, uma hora ao dia, ou então “do que adianta” fazer duas vezes por semana por 40 minutos? Todo mundo sabe que isso não resolve nada! Nesse momento, o imediatismo toma conta e parece que qualquer coisa vale, contanto que o número na balança caia progressivamente.
Por isso que acho contraproducente enfatizar a medida do resultado do tratamento nutricional em número de quilos perdidos. Prefiro medir com base nos comportamentos que foram modificados e no bem-estar/saúde que essas mudanças trouxeram, independentemente da perda de peso. Como diz a nutricionista americana Mary Ryan, autora do blog BeyondBroccoli: progress, not perfection (progresso, e não perfeição).

terça-feira, 8 de março de 2016

Saúde mental apresenta deterioração após cirurgia bariátrica

Não é novidade que o número de cirurgias bariátricas no Brasil – e no mundo – tem crescido, e cada vez mais pessoas buscam o procedimento com a promessa de emagrecimento sustentado a longo prazo e melhor qualidade de vida. Entretanto, alguns estudos já mostram que o reganho de peso, muitas vezes excessivo, é inevitável (veja aqui e aqui), e alguns pacientes, inclusive, acabam por refazer as cirurgias devido a falhas em perder peso/manter o peso perdido (veja aqui).

Em relação ao bem estar psíquico, indicadores de saúde mental costumam melhorar nos dois primeiros anos pós-cirúrgicos, porém, após o terceiro ano esses efeitos tendem a não ser mais observados, e alguns pesquisadores chegam a afirmar que a taxa de suicídio entre pacientes bariátricos é significantemente maior que na população geral (veja aqui e aqui).

Um estudo israelense recente avaliou durante dez anos um grupo de indivíduos que passaram pela cirurgia, bem como um grupo de pessoas que passaram por programa de emagrecimento não cirúrgico. Os achados mostram que, ao final do período, indicadores de saúde mental apresentaram deterioração significante em comparação com os dados pré-operatórios, mesmo obtendo e mantendo uma perda de peso de sucesso para a técnica cirúrgica. O grupo que não passou pelo procedimento permaneceu psicologicamente estável em todos os pontos de análise do estudo.

Algumas explicações sugeridas pelos autores para essa piora na saúde mental é que os indivíduos que passam pela cirurgia muitas vezes têm expectativas muito altas sobre os ganhos que terão com ela, isto é, depositam todas as esperanças de felicidade e bem estar no emagrecimento promovido pela cirurgia. Eu mesma já vi muitos pacientes se desiludirem, pois emagreceram e a vida continuou com os mesmos problemas e conflitos; e muitas vezes, os problemas estão até piores, pois antes a pessoa usava a comida como recurso para lidar – ou melhor, não lidar – com algumas questões de sua vida, e após a cirurgia isso se torna mais difícil...

Muitos acham que a cirurgia é uma “solução mais fácil” para a questão da obesidade grau 3, a também chamada “obesidade mórbida”. Mas essa e outras pesquisas mostram que é justamente o contrário. A cirurgia deve ser o último recurso e os pacientes devem ser muito bem avaliados, já que é um procedimento drástico e que promove muitas mudanças fisiológicas e psicológicas. Daí a importância de uma boa indicação cirúrgica e de um bom acompanhamento multiprofissional.

Boa semana todos!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lutando contra a obesidade ou contra o obeso?


 
Muitos que conhecem meu trabalho e/ou acompanham os posts aqui do blog sabem que eu tenho lutado – assim como outras colegas de profissão, diga-se de passagem – contra a visão do nutricionista como “emagrecedor”, pois é com essa expectativa que muitos pacientes vêm até nós ou são encaminhados por outros profissionais de saúde.

Já existem diversos trabalhos apontando a existência de obesos metabolicamente saudáveis, isto é, pessoas obesas que apresentam perfil metabólico adequado/saudável (veja aqui um estudo brasileiro revisando essa questão); já existem estudos que mostram que pessoas obesas apresentam menor mortalidade em casos específicos (por exemplo no diabetes tipo 2, como eu escrevi neste post); e há também pesquisadores que afirmam que uma perda de 5 a 10% do peso corporal – menos estética, porém mais fácil de ser alcançada e mantida – já é suficiente para reduções clinicamente significativas em marcadores de risco de doenças. Ainda assim, percebo um aumento cada vez maior e mais agressivo na tal “luta contra a obesidade”.

Quem trabalha na área e acompanha os achados científicos sabe que a obesidade é uma condição influenciada por diversos fatores – sedentarismo, ambiente atual que favorece um consumo maior de alimentos processados, genética, emoções e recursos de enfrentamento de situações estressantes, hormônios, bactérias intestinais, poluição... –, e nem todos passíveis de serem controlados em nível individual. Alguns pesquisadores apontam que indivíduos obesos, especialmente aqueles que já o são há algum tempo, possuem ainda adaptações biológicas que tornam a perda de peso bastante difícil: proliferação de preadipócitos, redução no gasto energético basal e aumento do craving por comida devido à prática de restrições calóricas (dietas!). Tratamentos medicamentosos e cirúrgicos parecem ter uma resposta mais rápida na perda de peso, mas não vêm sem efeitos colaterais adversos e muitas vezes não garantem que o peso perdido se sustente, já que as adaptações biológicas podem persistir mesmo quando o indivíduo atinge um IMC “saudável” (leia sobre isto no jornal científico The Lancet).

Não estou defendendo que todo obeso seja saudável, assim como não podemos afirmar que todos os magros o são; não proponho que sejamos lenientes quanto aos fatores ambientais que podem ser abordados para prevenir que mais pessoas se tornem obesas. Mas acredito que devemos ajudar o indivíduo a promover mudanças de comportamento que gerem saúde, independentemente da perda de peso. Acredito que devemos lutar não contra a obesidade, mas sim contra o estigma que a acompanha e que inclusive gera prejuízos à saúde psíquica de pessoas obesas. 


Charge que demonstra estigma da obesidade na área da saúde: "Doutor, fui empalado!" "Bem, talvez você se sinta melhor se perder peso."

Vamos refletir sobre isto?

Boa semana a todos!

sábado, 11 de outubro de 2014

A vida agridoce



Recentemente estava discutindo com uma paciente obesa um conto do Irvin Yalom, psiquiatra e psicoterapeuta americano que gosto muito. No texto em questão, “A mulher gorda” (está no livro “O carrasco do amor”), o terapeuta conta a ocasião em que atendeu uma paciente obesa que acreditava que uma série de coisas davam errado em sua vida graças à sua gordura. Conforme ela vai emagrecendo, porém, percebe que o buraco é bem mais embaixo...

Gosto de indicar esse texto para alguns pacientes pois mostra o processo do emagrecimento, que por vezes é bem doloroso e expõe questões profundas da vida do indivíduo (que estavam ocultas pela gordura e pela idealização da perda de peso). Entretanto, sempre alerto os pacientes que no início do texto o autor demonstra seu preconceito contra obesos:

“Sempre me senti repelido por mulheres gordas. Eu as acho repulsivas: o absurdo andar bamboleante, a ausência de contornos corporais – seios, colo, nádegas, ombros, maxilar, ossos do rosto –, tudo, tudo aquilo que gosto de ver numa mulher oculto por uma avalanche de carne. Como elas ousam impor seus corpos a todos nós?”

Após lermos juntas esse texto, minha paciente começou a chorar e verbalizou o seguinte: “Sabe, Carol... Eu concordo com ele. Por isso não aguento mais viver no meu próprio corpo.”

Na minha prática, percebo que os próprios pacientes obesos podem ser extremamente preconceituosos e rígidos consigo mesmo. Muitos têm medo de abandonar a “gordofobia” e aceitar um pouco mais seus corpos, pelo receio de que isso signifique, então, abandonar o desejo de ser magro.

Pegando emprestado o título de um famoso livro, digo a esses pacientes que a vida tem “80 tons de cinza”, isto é, a vida não se resume ao preto e branco. A dicotomia, ou seja, o pensamento “8 ou 80”, provavelmente contribuiu com seu ganho de peso e uma relação complicada com a comida. Não é porque me considero feminista, por exemplo, que não sei apreciar quando um homem abre a porta do carro pra mim ou paga um jantar. Feminismo não exclui gentileza. (Aliás, para quem quiser ler um ótimo livro sobre o feminismo moderno, indico “Como ser mulher”, da britânica Caitlin Moran; veja aqui)

Aceitação corporal não significa necessariamente amar 100% do seu corpo e se ver livre do desejo por mudanças. Significa respeitá-lo um pouco mais para que mudanças duradouras possam acontecer. Significa ter compaixão e aceitar que somos seres imperfeitos. E que tudo bem ser assim.

Você não precisa desistir do seu desejo de emagrecer se assim o desejar. Só não coloque sua vida em stand by até que isso aconteça.

Bom final de semana a todos!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Melhorando a relação com a comida... Mas só depois de emagrecer.


Não é mistério algum que uma das grandes motivações para se buscar um nutricionista atualmente seja o desejo de emagrecer. Eu sempre explico aos meus pacientes que meu papel não é “emagrecê-los”, e sim ajudá-los a melhorar sua relação com a comida e com o corpo; e que existem muitos outros benefícios quando se tem uma alimentação saudável, benefícios estes desvinculados da perda de peso e exemplificados pelo amigo Cezar Vicente Júnior neste outro post.

Vejam, eu não sou contra o emagrecimento por si só e não sou uma “apologista à obesidade”; só acredito que comer e viver melhor no corpo que temos hoje é o caminho ideal para melhorar nossa qualidade de vida e nossa saúde. Mesmo esse corpo sendo obeso.

Muitas vezes, quando se tira o foco inicial do peso e de fato o indivíduo consegue mudar sua relação com a comida (e consigo mesmo), o emagrecimento é possível. Mas muitas vezes isso também não ocorre. Pelo menos não de imediato. Não posso mentir. E digo isso aos meus pacientes também.

Daí vem a grande pergunta que alguns deles me fazem: então será que eu não posso tentar emagrecer antes (por exemplo, fazendo outra dieta), para me sentir bem, e depois trabalhar minha relação com a comida?

Bom, pela minha experiência, pelos meus estudos e por aquilo que eu acredito, minha resposta é: Não. Não acredito que isso vá funcionar.

Primeiro porque a maioria das pessoas que me procura já fez dietas antes e sabe que todas elas falham. Quando se faz dieta, a relação com a comida torna-se ainda pior. Novamente vai existir a categorização dos alimentos (“bons” e “ruins”) e as regras externas sobre o que e quanto se deve ou não comer. Toda dieta funciona com base na restrição alimentar, e melhorar a relação com a comida implica em permissão alimentar. São conceitos contrários. Quando (e se) a pessoa emagrece fazendo dieta, dificilmente ela vai sentir-se segura para abandonar a restrição voluntariamente e se permitir comer, já que o medo de “botar tudo a perder” e ganhar peso novamente virá com força total.

Além disso, existe o fato de que nada garante que a pessoa vai emagrecer e então ficar satisfeita e feliz, por mais “bizarro” que isso possa soar. Por vezes, a busca pelo emagrecimento camufla outras buscas e anseios em outros domínios da vida do indivíduo. Por isso a terapia se torna por vezes tão essencial: é uma oportunidade de se trabalhar outros aspectos que compõem a autoestima do indivíduo. Como profissionais de saúde, devemos questionar a influência indevida e exagera do peso e forma corporais no nosso senso de valor como indivíduos. Penso que só assim poderemos verdadeiramente ajudar os pacientes que nos procuram.

Claro que alguns pacientes não aceitam bem essa minha resposta e não se convencem de que o caminho que eu proponho possa ser uma alternativa. E eu respeito isso. Não sou a dona da verdade. Mas me mantenho fiel àquilo que acredito. E tenho certeza de que muitos se beneficiam dessa abordagem.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Meça em amor

No musical da Broadway “Rent” (um dos meus favoritos e que tem até filme), existe uma música linda chamada “Seasons of love” (“Estações do amor”). Nela, os cantores se perguntam como medir um ano: em minutos, em segundos, em bons momentos... (veja o clipe aqui e veja a tradução da letra aqui).

Infelizmente, muitas pessoas estão hoje medindo o valor e o significado de suas vidas em números, mais especificamente aqueles vistos na balança. O foco no peso – ou em sua perda – tornou-se complicado devido ao significado que ele assumiu na vida das pessoas. E isso eu vejo diariamente em minha prática:

1. Pessoas cujo principal “motivador” para adotar comportamentos saudáveis é o emagrecimento. Infelizmente, emagrecer não é um bom motivador a longo prazo e não depende exclusivamente da “responsabilidade pessoal” de cada um. Ganhar ou perder peso vai muito além daquela diferença entre o que comemos e o que gastamos. Existem diversos outros fatores envolvidos nesses processos, como: liberação de hormônios; acesso a alimentos e espaços seguros para a prática de atividade física; interação entre nutrientes no corpo; exposição a poluentes (da atmosfera e aqueles usados nas lavouras); grau de estresse; genética; presença de bactérias intestinais “saudáveis”, dentre outros.

2. Pessoas que buscam perder peso a fim de melhorarem sua autoestima. Para isso, buscam dietas, que levam ao “efeito sanfona” e ao descontrole alimentar, que por sua vez contribuem com uma redução ainda maior da autoestima e do senso de valor do indivíduo.

A vida é muito curta para que gastemos tanta energia e esforço em busca de algo que não é garantia inerente de felicidade, de melhor aceitação e interação social, de sucesso, nem de nada. Quando pacientes me procuram e estão muito obcecados com a perda de peso, e isso invariavelmente está atrapalhando em sua relação com a comida, eu peço para eles imaginarem duas situações:

1. Se o mundo acabasse hoje, quanto tempo você gastaria pensando em seu peso? O quanto ele importaria?

2. Feche os olhos e lembre-se de um momento especial em sua vida: o nascimento de um filho, o casamento, a notícia de uma promoção no trabalho, uma tarde brincando com seu animal de estimação... Tente reviver os detalhes e as sensações vividas naquele momento. Depois pergunte-se: o quanto de fato o peso influenciou naquilo que você estava sentindo? Se você fosse mais gordo/mais magro, o momento teria sido mais/menos especial e importante?

Então, como medir a nossa vida? Faça como diz o refrão da música: meça em amor.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Querer emagrecer


Muitos psicanalistas afirmam que um dos mais importantes recursos terapêuticos é confiar em nosso próprio feeling, isto é, confiar na nossa impressão inicial sobre o paciente, naquilo que sentimos ou percebemos antes de pensar.* Na minha opinião, isso é especialmente importante quando lido com pacientes com transtornos alimentares ou que apresentem uma relação complicada com a comida e com o corpo, mas que se escondem por trás do famoso “quero emagrecer”.

Não há nada fundamentalmente errado em querer emagrecer, mas quando o paciente me diz que essa é a motivação que o levou a me procurar, eu sempre procuro questionar o porquê (detalhe: não importa se o paciente é magro ou gordo). Não para julgar ou decidir se a justificativa dada é válida ou não, mas sim para de fato tentar entender quais as expectativas – por vezes irreais – por trás do desejo de perder peso. Eu não costumo assumir que é “normal” estar insatisfeito com o corpo e tentar mudá-lo porque essa é a tônica dominante nos dias de hoje. Eu não acho que seja simplesmente válido emagrecer “só dois quilinhos” porque afinal “todo mundo o quer”. Já faz algum tempo que aprendi a separar o “comum” do “normal”.

Voltando à questão de seguir o feeling, acredito que isso seja um pouco complicado numa sociedade em que comportamentos e atitudes patológicos foram progressivamente “normalizados”. Um colega da área da saúde veio me perguntar outro dia se eu não achava “ok” a pessoa vomitar de vez em quando, num dia de festa, por exemplo, quando tivesse comido demais, a fim de “se sentir melhor”. Ou mesmo “usar um laxantezinho” para dar “aquela limpada”... Ou seja, como orientar pacientes se aquilo em que acreditamos está distorcido e adoentado?!

Respondendo ao questionamento feito por este colega: não, provocar o vômito e usar laxante com finalidade de compensar a ingestão alimentar não é ok, não é normal, é patológico! Inclusive, um estudo recente do International Journal of Eating Disorders (veja aqui) verificou que mulheres com o que foi chamado de “transtorno alimentar compensatório” (definido por: uso de exercício excessivo e/ou períodos de jejum para compensar a ingestão alimentar e/ou controlar o peso; ocorrendo pelo menos duas vezes por semana nos últimos três meses; e na ausência de episódios objetivos de compulsão alimentar) apresentaram maiores distúrbios de imagem corporal, presença de alimentação transtornada, ansiedade e perfeccionismo que indivíduos controles.

Como disse o personagem Carlo Antonini, do escritor Contardo Calligaris, “algumas pessoas chegam aparentando a maior serenidade, mas estão à beira de uma crise que, de alguma forma, elas pressentem: pedem uma terapia, mas o que elas de fato procuram é um lugar onde lhe seja possível atravessar a loucura com um mínimo de amparo”.

* Dois livros muito interessantes que falam sobre o relacionamento terapêutico são: “Desafios da terapia” (Irvin Yalom, Ediouro) e “A mulher de vermelho e branco” (Contardo Calligaris, Companhia das Letras).

sábado, 18 de janeiro de 2014

Engorda ou emagrece?


Se numa roda de amigos você jogar no ar a seguinte pergunta: “Fast food engorda?”, a principal resposta que irá ouvir é um sonoro SIM. Mas o que dizer, então, da experiência do professor americano John Cisna? Por três meses, ele se alimentou somente de refeições fornecidas pela cadeia de fast food Mc Donald’s. Teve o cuidado, porém, de não ultrapassar o limite diário de 2000kcal (o que seria o consumo médio indicado para adultos) e de se atentar aos valores de carboidratos, gorduras, proteínas e colesterol recomendados ao dia. Além disso, ele passou a caminhar 45 minutos diariamente, sendo que antes era sedentário. Ao final do período, ele perdeu 16kg e seu colesterol foi de 249mg/dL para 170mg/dL, valor considerado adequado (veja matéria completa aqui).

Não estou aqui fazendo apologia ao fast food ou a qualquer outro alimento, nem tampouco estou afirmando que comer Mc Donald’s por um mês seria uma escolha que eu indicaria: afinal, a dieta é monótona e não conta com diferentes grupos alimentares e nutrientes. Entretanto, o ponto em que quero chegar – e que defendo abertamente – é o seguinte: nenhum alimento ou comida, isoladamente, tem o “poder” de nos engordar ou emagrecer. Tais processos são complexos e dependem da interação de diversos fatores: alimentares, hormonais, genéticos, ambientais... Alimentos simplesmente não engordam ou emagrecem pois tudo depende do contexto em que são consumidos, da frequência, da quantidade e, acima de tudo, de como a pessoa se relaciona com a comida.

Por isso, fico profundamente incomodada com manchetes e apelos de mídia como “chá verde emagrece”, “açúcar é um vilão”, “chia para afinar a cintura”. Tais constatações são reducionistas e simplificam ao extremo o papel dos alimentos na nossa saúde e na nossa vida.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"Do que eu mais sinto falta de quando eu era gorda"


Bom dia pessoal!

Essa semana resolvi postar uma tradução livre feita por mim de um texto publicado na Marie Claire americana em julho de 2012, escrito pela jornalista Sarah Elizabeth Richards. Ele conta do que ela sentiu falta em seu corpo - e em sua vida - depois que emagreceu quase 20kg. Afinal, emagrecer não é tão simples assim e não necessariamente traz só coisas boas no processo...

Aproveitem!

"Do que eu mais sinto falta de quando era gorda..."

"Eu estava em pé no bar, segurando minha margarita de manga, enquanto minhas duas amigas estavam conversando com dois caras. Senti que estava 'sobrando' e tentei fazer contato visual com um cara muito fofo perto da porta. Ele me ignorou.

'Fique mais um pouco', disse a mim mesma. 'Você só está aqui há uma hora'.

Não foi assim que eu imaginei meu gran debut. Tinha acabado de terminar um relacionamento de longos anos, e minhas amigas insistiram que eu deveria passar a noite com elas num bar cheio de homens desejáveis.

Recentemente eu havia perdido 18 quilos (aumentando meu consumo de vegetais e grãos integrais e reduzindo a ingestão de açúcar, massas e pães). Segui o conselho de minhas amigas de usar roupas que mostrassem mais o meu corpo e lá estava eu no bar, sentindo-me inadequada.

O ar condicionado estava no máximo, e eu senti o ar gelado em cada pedacinho na minha pele exposta – meus braços, minhas pernas, meu decote. Mas ao invés de me sentir sexy, eu me senti pelada.

'Estou realmente cansada', disse a minhas amigas. 'Estou indo'.

Ao chegar em casa, abri meu guarda roupa e achei minhas antigas roupas de quando era gorda. Enterrei meu rosto no que costumava ser minha camiseta preferida e senti o cheiro de um antigo perfume. Eu a vesti, minha ansiedade me dominando. Me senti eu mesma novamente.

De vez em quando, eu sentia falta de ser gorda.

As pessoas vivem falando sobre os benefícios da perda de peso, mas não se fala muito sobre o choque que é emagrecer. Quando você decide emagrecer, você só pensa nas coisas boas: novo corpo, saúde melhorada (e, se você se engaja em pensamentos milagrosos, uma nova vida). Ninguém te alerta sobre o outro lado.

Fisicamente, eu sentia frio o tempo todo, bem como uma dorzinha palpitante do lado esquerdo das minhas costelas – a sensação que sinto sempre que estou vulnerável. Emocionalmente, eu não me sentia preparada para lidar com todas as mudanças, e não podia mais usar a comida para me acolher.

E então veio o desapontamento. Nas minhas fantasias, eu parecia mais confiante e mais bem vestida. Eu tinha mais amigos e namorados. Eu me tornava uma melhor profissional. Quando eu era gorda, essas fantasias ficavam armazenadas em segurança, na ideia de que “um dia” isso se tornaria realidade. Na minha cabeça, eu não cogitava ter que descobrir o limite dos meus talentos, encarar meus medos de intimidade, ou mesmo confrontar o quão esquisita me sinto ao conhecer novas pessoas.

Quando eu perdi peso, eu tomei um banho de realidade. Eu continuava sendo eu mesma, com os mesmos problemas. Eu só estava menor.

E a minha versão menor não necessariamente se tornou uma versão melhor – pelo menos não no início. Eu adorei ver as novas curvas de meu corpo, mas nunca me imaginei nua em frente ao espelho, pegando nas mãos a pele solta debaixo dos meus braços e na parte interna das minhas coxas. Ou que eu veria meus seios ficarem mais flácidos, e meu bumbum ficar ainda mais caído. Eu me sentia uma estranha em meu próprio corpo.

Havia também as questões do dia a dia. Os experts em dieta não te contam o quão desconfortável você se sente no início por não poder mais comer o quanto você comia antes. Ou como quase todas as interações sociais incluem referências sobre seu novo corpo. No começo é legal ouvir “uau, como você está linda!”, mas depois isso se torna angustiante, pressionador. Tinha momentos em que eu simplesmente não queria toda a atenção voltada para mim. Eu só queria o conforto do grupo.

Não estou dizendo que quero de volta minha gordura. Eu trabalhei duro para perder todo o peso extra que ganhei na faculdade porque me afundei em lasanha e comida delivery para conseguir lidar com toda minha carga de trabalho. Hoje, peso 63kg, um peso que tenho mantido há quatro anos. Levei quase sete anos para atingi-lo. Para mim, essa foi a velocidade ideal, pois me permitiu lidar aos poucos com as novas questões que foram surgindo. Além disso, deu tempo para que minha pele (inicialmente flácida) se acomodasse novamente (com ajuda da ioga e do kickboxing, dois exercícios que adoro). Perder os últimos sete quilos levou quase três anos. Parecia que eu não estava mais levando tão a sério meu status de 'quase magra'.

Eu gostaria de dizer que eu aprendi a me sentir melhor com meu corpo naturalmente, por meio de um processo orgânico de celebrar meus pontos fortes e aceitar minhas falhas. Ao invés disso, eu me forcei a me sentir bem, como se estivesse entrando aos poucos em uma piscina gelada.

Eu ainda luto com a sensação de parecer nua às vezes, mas isso não mais me deixa ansiosa. Nas raras ocasiões em que parece que não vou aguentar, eu me enrolo num grande robe de cetim até passar (sim, eu me livrei das minhas roupas de quando era gorda).

Então, eu ponho minhas novas calças de ioga, que abraçam minhas novas curvas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Querido, você está ótimo assim...”


“Mas quando perder peso ficará melhor ainda.”

Isso foi o que ouvi da esposa de um paciente que estava em acompanhamento para cirurgia bariátrica. Apesar de desrespeitoso e absurdo, esse tipo de “encorajamento” para que o parceiro/a emagreça e faça dieta é muito comum. Os comentários podem até ser bem-intencionados, mas como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio.

Digo isso porque uma pesquisa recente da Universidade de Minnesota com 1300 jovens em relacionamentos amorosos (20 a 31 anos) encontrou que 40% deles havia se engajado em comportamentos extremos de dieta no último ano, e a presença de compulsão alimentar dentre as mulheres que foram encorajadas a fazer dieta era duas vezes maior que nas demais mulheres. Em relação aos homens, a presença de compulsão naqueles incentivados a fazerem dieta foi três vezes maior. E o pior: metade dos homens e mulheres apresentavam peso normal ou baixo peso, e ainda assim metade relatou que seu parceiro/a incentivava a prática de dietas.

Por que a presença de compulsão é maior naqueles incentivados a fazerem dieta? Uma das razões é bastante simples: comentários negativos sobre peso vindos de uma pessoa importante e amada tendem a aumentar a ansiedade com o corpo e a comida, contribuindo para uma pior imagem corporal e autoestima, além de incentivas atitudes alimentares inadequadas.

Quer ajudar seu parceiro/a? Então, incentive os cuidados com a saúde, sem focar no peso. Convide-o/a para fazer uma caminhada com você. Melhore seu hábito alimentar. Talvez ele ou ela siga seu exemplo.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

“Se eu sei o que preciso fazer para emagrecer, por que não faço?”



Muitos pacientes me trazem esse questionamento depois de algumas consultas, quando parece que o tratamento “empaca” e mudanças comportamentais não conseguem ser feitas. A resposta nem sempre é fácil, mas percebo que muitas vezes a inércia de mudar tem a ver com algo simples: não se sentir merecedor. Vou tentar explicar melhor.

A maioria das pessoas já sabe que para melhorar a alimentação e tornar a vida mais saudável é preciso tomar café da manhã, comer frutas e legumes todos os dias, beber mais água, fazer algum exercício físico regularmente... E isso parece simples, não? Mas tais atitudes fazem parte do nosso autocuidado. E muita gente confunde autocuidado com autoindulgência ou mesmo “perda de tempo”. Percebo que muitos dos meus pacientes não tendem a encarar o autocuidado como prioridade, e não só em relação à alimentação, mas em relação também a outros comportamentos que promovem bem-estar: ler um livro, cultivar a espiritualidade e as amizades, ter um momento de lazer/distração no dia, vestir roupas que te deixem mais bonito/a...

São comuns pensamentos do tipo: “por que vou começar a fazer exercício? Por que deixar de comer fritura todos os dias? Já estou gordo mesmo”... Mas já foi dito aqui algumas vezes: se você não se respeita e aprecia as coisas positivas do seu corpo, se você não se gosta minimamente, realmente vai ser difícil cuidar melhor de si. E isso envolve comer de forma mais saudável e até mesmo emagrecer, por mais paradoxal que isso possa soar.

Sugiro a leitura desse belo texto sobre o mesmo tema, escrito pela amiga e colega de profissão Iamara Medeiros.

Bom feriado a todos!

sábado, 22 de setembro de 2012

Efeito nocebo: o que é isso?


Muita gente está familiarizada com o conceito de “efeito placebo”, isto é, um tipo de tratamento/intervenção que não possui validade científica alguma mas que acaba funcionando para algumas pessoas que acreditam nele.

Na área médica, o efeito placebo é uma evidência da forte conexão que existe entre a mente (aquilo que pensamos, acreditamos, sentimos) e os efeitos factuais sobre a saúde. Ou seja: se eu acredito fortemente que beber água com açúcar é um “calmante natural”, é provável que quando eu estiver nervosa e tomar essa combinação eu de fato me acalme (mesmo não havendo nenhum argumento científico que justifique isso!)

Por outro lado, pouco se conhece e se fala sobre o “efeito nocebo”, que seria justamente o contrário do placebo. Ou seja, o poder que nossas crenças, pensamentos e sentimentos têm de afetar negativamente a nossa saúde, mesmo que baseados em algo que não é um consenso científico.

Muitas vezes, apesar de bem intencionados, nós profissionais de saúde reforçamos algumas crenças em nossos pacientes que podem gerar um efeito nocebo. Por exemplo: quando dizemos aos pacientes que eles necessariamente precisam emagrecer para melhorarem sua saúde; quando reforçamos a ideia de que emagrecer de fato é uma coisa desejada e positiva, necessária para sentir-se bem consigo mesmo (talvez porque nós, como pessoas, ainda acreditemos nisso, e dessa forma acabando transferindo nossas crenças pessoais aos pacientes).

Será que não precisaríamos tentar entender o que está por trás de tudo isso, especialmente quando o paciente nos diz que precisa ou quer muito emagrecer? Será que não seria importante compreender o porquê da auto-estima de uma determinada pessoa depender tanto do peso, exclusivamente, a ponto de ela de fato acreditar que não pode se sentir bem consigo mesma a não ser que perca peso?

Quando trago à tona esse tipo de discussão, muitos dizem que sou a favor da obesidade. Não é isso. Eu não acredito que todo gordo é saudável. Mas acredito sim que todos podem buscar uma melhor saúde e levar uma vida saudável independentemente do peso que possuam. E nesse processo (que envolve mudar comportamentos, fazer as pazes com a comida, se auto-conhecer) pode-se ou não perder peso.

Essa é a diferença daquilo que de fato eu acredito.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"O noivo é a nova noiva"


O título refere-se a uma colocação feita pela americana Penny Glazier ao jornal "The New York Times", referindo-se ao fato de que agora os noivos também estão sofrendo em busca de um ideal esbelto para entrar na passarela - opa, desculpem-me, no altar.

As técnicas danosas (tanto física quanto psiquicamente) às quais as noivas se submetem antes do casamento para emagrecerem e estarem "perfeitas" no grande dia já foram abordadas neste post. O alvo da vez agora é o noivo. A reportagem do jornal americano mostra que os futuros esposos estão se engajando mais ativamente em dietas extremas e procedimentos cirúrgicos e estéticos para "saírem bem nas fotos". Alguns salões de beleza nos EUA já oferecem inclusive o "dia do noivo", que pelo visto não demora a chegar no Brasil.

Mais preocupante ainda é o dado da reportagem de que alguns casais já estão inclusive "competindo" sobre quem conquista os "melhores resultados", ou seja, quem emagrece mais, quem está se cuidando mais, criando um foco adicional de tensão (desnecessário, na minha opinião) antes da cerimônia.

Pode ser um questionamento filosófico da minha parte, mas é impressão minha ou o casamento está se tornando mais um "show", um momento voltado para os outros e não para o próprio casal? Para mim, o casamento deveria representar a aproximação íntima de duas pessoas que se gostam do jeito que são, e não o afastamento mútuo e a busca por aquilo que o outro não é...

sábado, 21 de julho de 2012

Agência americana aprova nova droga para perda de peso

A FDA (agência americana que equivale à Anvisa aqui no Brasil) aprovou esta semana uma nova droga para emagrecimento, chamada "Qsymia".

O medicamento, que ainda não chegou ao Brasil (e nem há previsão, até onde eu sei), é uma combinação de dois princípios ativos: topiramato - um anticonvulsivante, bastante usado na psiquiatria em casos de bulimia nervosa, por exemplo - e fentermina - um estimulante da classe das anfetaminas, que inibe a fome.

Apesar de resultados promissores nos estudos, a droga (como qualquer outra) apresenta efeitos colaterais consideráveis. Em 2010, a FDA rejeitou-a por conta do risco de problemas cardiovasculares sérios e alterações cognitivas (perda de memória, dificuldade de concentração).

Outro risco, inerente também a qualquer medicação para perda de peso, é o reganho de peso após a interrupção do uso do medicamento. Sem mudança de hábitos, não há remédio no mundo que resolva.

Vamos tomar cuidado para essa droga não ser divulgada e promovida como mais um "milagre" para perda de peso. É preciso avaliar muito bem quem de fato terá indicações para usar esse medicamento, pesando riscos e benefícios.

domingo, 9 de outubro de 2011

Pacientes que sofreram derrame precisam mesmo emagrecer?

Nas diretrizes da American Stroke Association (Associação Americana de Derrame), existe uma recomendação que diz que pacientes com sobrepeso ou obesidade que sofreram um derrame devem perder peso e alcançar um IMC entre 18,50kg/m² e 25,00kg/m²(o que caracterizaria um "peso normal"). Esta recomendação apresenta grau de evidência C, o que significa que não foi baseada em estudos científicos, mas sim na opinião de experts. Mas será que isto procede?
Um estudo de coorte de 2003 que acompanhou 2955 pacientes pós-derrame por seis meses verificou que aqueles que estavam abaixo do peso (IMC < 20,00kg/m²) tiveram mais complicações e uma pior taxa de sobrevivência do que aqueles com peso normal, sobrepeso e obesidade. Em um outro estudo de 2008 com 21884 pacientes, acompanhados por cinco anos, os resultados foram bastante semelhantes. Querem mais? Um estudo agora de 2011 publicado no periódico “Stroke: Journal of the American Heart Association” revisa vários outros trabalhos que concluem a mesma coisa: não se deve recomendar a pacientes que sofreram derrame que percam peso, por mais paradoxal que isto possa soar. De novo, para não restar dúvida: pacientes que sofreram derrame não devem ser orientados a perderem peso!!!
O mesmo vale para pacientes com insuficiência cardíaca, conforme eu escrevi num post em abril (http://ocorpoemeu.blogspot.com/2011/05/um-estudo-recente-com-344-pacientes-com.html), e para pacientes com doença renal crônica, doença pulmonar obstrutiva crônica e artrite reumatóide (as referências destes trabalhos específicos estão no estudo de 2011 previamente citado, aliás quem quiser eu o envio por email!)

domingo, 4 de setembro de 2011

Nova droga antidiabética é usada para emagrecimento

Chegou em agosto no Brasil a liraglutida (nome comercial: Victoza), droga antidiabética que imita o GLP-1, um dos hormônios associados à liberação de insulina pelo pâncreas e à sensação de saciedade. Devido a esta última associação, o medicamento já está sendo prescrito por alguns médicos a pacientes com sobrepeso e obesidade, a fim de auxiliar no processo de emagrecimento. Os especialistas dizem que os únicos efeitos colaterais relatados até então são náuseas e dores de cabeça nas duas primeiras semanas, e que pacientes que apresentam níveis normais de glicose no sangue não terão a estimulação do pâncreas pela droga para liberação de insulina. Entretanto, é importante ressaltar que, por enquanto, o fabricante e as agências de saúde só indicam a droga para o tratamento do diabetes tipo 2. Os ensaios clínicos que avaliam o uso do medicamento com a finalidade de emagrecimento ainda não foram completados e submetidos às autoridades sanitárias.
Por enquanto, melhor agir com cautela e investir no estilo de vida. Em breve, notícias da Anvisa sobre a proibição dos anorexígenos (anfetaminas) e da sibutramina.