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terça-feira, 8 de março de 2016

Saúde mental apresenta deterioração após cirurgia bariátrica

Não é novidade que o número de cirurgias bariátricas no Brasil – e no mundo – tem crescido, e cada vez mais pessoas buscam o procedimento com a promessa de emagrecimento sustentado a longo prazo e melhor qualidade de vida. Entretanto, alguns estudos já mostram que o reganho de peso, muitas vezes excessivo, é inevitável (veja aqui e aqui), e alguns pacientes, inclusive, acabam por refazer as cirurgias devido a falhas em perder peso/manter o peso perdido (veja aqui).

Em relação ao bem estar psíquico, indicadores de saúde mental costumam melhorar nos dois primeiros anos pós-cirúrgicos, porém, após o terceiro ano esses efeitos tendem a não ser mais observados, e alguns pesquisadores chegam a afirmar que a taxa de suicídio entre pacientes bariátricos é significantemente maior que na população geral (veja aqui e aqui).

Um estudo israelense recente avaliou durante dez anos um grupo de indivíduos que passaram pela cirurgia, bem como um grupo de pessoas que passaram por programa de emagrecimento não cirúrgico. Os achados mostram que, ao final do período, indicadores de saúde mental apresentaram deterioração significante em comparação com os dados pré-operatórios, mesmo obtendo e mantendo uma perda de peso de sucesso para a técnica cirúrgica. O grupo que não passou pelo procedimento permaneceu psicologicamente estável em todos os pontos de análise do estudo.

Algumas explicações sugeridas pelos autores para essa piora na saúde mental é que os indivíduos que passam pela cirurgia muitas vezes têm expectativas muito altas sobre os ganhos que terão com ela, isto é, depositam todas as esperanças de felicidade e bem estar no emagrecimento promovido pela cirurgia. Eu mesma já vi muitos pacientes se desiludirem, pois emagreceram e a vida continuou com os mesmos problemas e conflitos; e muitas vezes, os problemas estão até piores, pois antes a pessoa usava a comida como recurso para lidar – ou melhor, não lidar – com algumas questões de sua vida, e após a cirurgia isso se torna mais difícil...

Muitos acham que a cirurgia é uma “solução mais fácil” para a questão da obesidade grau 3, a também chamada “obesidade mórbida”. Mas essa e outras pesquisas mostram que é justamente o contrário. A cirurgia deve ser o último recurso e os pacientes devem ser muito bem avaliados, já que é um procedimento drástico e que promove muitas mudanças fisiológicas e psicológicas. Daí a importância de uma boa indicação cirúrgica e de um bom acompanhamento multiprofissional.

Boa semana todos!

sábado, 4 de julho de 2015

Transtorno alimentar é “estilo de vida”?

Recentemente, me mandaram a seguinte postagem de Facebook: “Cada portador de TA (transtorno alimentar) tem o direito de decidir se sofre de uma condição psicológica ou se apenas aderiu a um estilo de vida, e há muitas vertentes que consideram o segundo caso como correto”.

É de certa forma comum pacientes com transtorno alimentar – que, vamos deixar bem claro aqui, é SIM uma doença psiquiátrica – em algum momento não internalizarem/aceitarem que de fato estão doentes. Primeiro porque às vezes a doença é tão grave que a pessoa já se identificou com ela, ou seja, o transtorno alimentar já faz parte de sua identidade. Segundo porque o tratamento de um transtorno alimentar é longo, complexo e normalmente caro, já que exige a atuação de vários profissionais especializados (pelo menos nutricionista, psiquiatra e psicólogo). Como se trata, então, de um tratamento difícil e que requer ampla participação e enfrentamento por parte do paciente, muitas vezes pode haver uma resistência em se tratar e uma negação do processo da doença. Nessa linha, um estudo recente publicado no Australian and New Zeland Journal of Psychiatry (veja aqui) demonstrou que crenças positivas em relação à anorexia nervosa estavam associadas a uma maior sintomatologia de transtornos alimentares, tanto em homens quanto em mulheres. Para identificar as tais crenças positivas, os pesquisadores apresentaram aos participantes (universitários) um relato de um homem e uma mulher com sintomas de anorexia nervosa, mas sem explicitar abertamente o diagnóstico aos participantes. Consideraram-se crenças positivas uma admiração dos voluntários em relação ao controle alimentar exercido pelos personagens fictícios, bem como um desejo de ser parecido com eles.  Ou seja: quem acha "bacana" ter transtorno alimentar provavelmente o tem também...

Sendo assim, confesso que foi um pouco chocante ler esta publicação numa rede social, a opinião de um indivíduo que não entende sobre isso amplamente disponível para que qualquer pessoa leia e interprete à sua maneira. Transtorno alimentar  NÃO pode ser estilo de vida na medida em que o indivíduo acometido se torna obsessivo, inflexível e apresenta prejuízos no convívio social e na qualidade de vida. NÃO pode ser estilo de vida quando as pessoas claramente estão sofrendo com isso.