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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Culpa



Dezembro. Grandes festas se aproximam. E com elas, as preocupações usuais com a comida – ou o excesso dela. É o momento em que muitas pessoas questionam como comer sem culpa.
Antes de mais nada, acho importante explorar a origem dessa culpa. Há 30 anos, era incomum escutarmos relatos frequentes sobre pessoas que sentiam culpa ao comer. Meus avós, por exemplo, não sabiam o que era isso. Afinal, eles não seguiam regras rígidas a respeito de como se alimentar, e a comida não tinha nenhum significado moral para eles. Se nenhum alimento é proibido, não há porque sentir culpa. Se encaramos toda refeição como uma oportunidade única de se nutrir e sentir prazer, não há espaço para remorso. Ele não pertence a esse conjunto. Ou seja, ao construirmos uma relação mais saudável e pacífica com a comida, a culpa ao comer certamente perde o sentido e deixa de fazer parte da nossa vida. E isto é muito libertador!

Porém, como alguns de vocês talvez ainda estejam nessa árdua jornada de autoconhecimento e de fazer as pazes com a comida, suponho que comer com culpa ainda seja uma realidade. Então, como lidar com essa emoção, especialmente nas celebrações de final de ano?

1. Enquanto estiver comendo, diga à culpa: “agora não!”. Comemos aquilo que gostamos para sentir prazer mas, ironicamente, muitas vezes nem o sentimos, já que a culpa ao comer aparece logo nas primeiras mordidas. Se esse for o caso, enquanto estiver comendo tente focar nos aspectos sensoriais do alimento: sua aparência, seu aroma, seu sabor. Quando a cabeça se engajar em pensamentos de arrependimento e remorso, respire fundo e metalize “agora não”. Volte então a prestar atenção no momento presente, ou seja, naquilo que está comendo. Tente sentir o prazer que inicialmente você foi buscar.
 
2. Ao terminar de comer, aceite seus sentimentos ao invés de lutar contra eles. Suponha que, ao terminar a ceia de Natal, você se sinta chateado por ter comido dois pratos de sobremesa. Provavelmente, você passará o resto da noite brigando internamente consigo mesmo por ter comido a mais. Isso só o deixará ainda mais chateado. Que tal aceitar suas emoções sem julgamento? Você tem o direito de sentir-se chateado. Como essa chateação se manifesta no seu corpo e na sua mente? Pensamentos de crítica e derrota vêm à tona? Use sua compaixão e trate-se de forma gentil neste momento. Pense o que você pode fazer de melhor por si mesmo a fim de aliviar seu sofrimento momentâneo. Lembre-se que amanhã é outro dia, e que você poderá dar outro passo para melhorar sua relação com a comida.

Espero que essas reflexões os ajudem. Boas festas a todos e até ano que vem!

terça-feira, 24 de maio de 2016

Feijoada também é #comidadeverdade

Busque o prazer em comer!

Dia desses, chegou uma paciente dizendo que gostaria de aprender a comer sem culpa e que, para isso, esperava que eu lhe passasse um cardápio somente com opções/receitas gostosas porém “saudáveis”, de forma que não “gerassem culpa”. Ou seja, na concepção inicial dela, provavelmente não seria possível comer brigadeiro ou lasanha sem sentir-se mal, já que esses alimentos não são vistos pela maior parte da sociedade como saudáveis...

O fato é que comida e culpa não deveriam andar juntas. A nutricionista americana Evelyn Tribole, que escreveu o livro Intuitive Eating (Comer Intuitivo), contou uma vez em um workshop que, quando sua paciente referiu que sentiu culpa comendo, ela questionou: “culpa por quê? Você havia roubado a comida?!”.  Ela ironizou com o fato de que o que está errado não é a comida, e sim a culpa. Não importa o que e quanto você tenha comido. E sabe por quê?

1. Se você observar pessoas que têm uma boa relação com a comida (seus pais e avós podem ser boas opções) e questionar se elas sentem culpa quando comem, provavelmente a resposta será um belo e grande NÃO;
2. Sentir culpa não muda comportamento alimentar e não faz você comer menos/melhor. Quanto pior você se sente, menor a probabilidade de conseguir mudar sua relação com a comida. Um estudo de 2015, por exemplo (veja aqui) encontrou que indivíduos que associaram um alimento - bolo de chocolate - com culpa apresentaram uma pior relação com a comida, hábitos alimentares menos saudáveis e menores níveis de controle alimentar quando em situações de estresse;
3. Comer com prazer é um componente importante na geração de sinais de saciedade. Geralmente, quando se come com prazer, se come menos. Isso só não tende a acontecer quando estamos muito distraídos – assistindo Netflix, conversando sem parar com os familiares na mesa do almoço de domingo – ou quando uma das únicas fontes de prazer/conforto na vida do indivíduo é a comida. Mas o “problema” nesses casos não é o prazer, e sim a falta de atenção plena ao se alimentar e o comer emocional (vejam este estudo interessantíssimo sobre prazer e comer saudável). 
Muitos blogueiros fit usam a hashtag “#comidadeverdade”, mas se esquecem que comida de verdade não leva suplemento como whey protein na receita e que feijoada também é comida de verdade!
Quer manter uma relação saudável e descomplicada com a comida e seu corpo? Não é necessário aderir a modismos alimentares. Busque  um nutricionista especializado que possa te ajudar a lidar com sua autocrítica excessiva e com a culpa ao comer. E trabalhe a permissão alimentar.
Boa semana a todos!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Como fazer as crianças comerem melhor?

Um dia desses estava andando no shopping e vi na vitrine de uma loja infantil a seguinte camiseta:


Confesso que me veio uma sensação de estranhamento... Por que colocar como estampa de uma camiseta pra crianças um macaquinho dizendo “dá um potássio aí” ao invés de simplesmente “dá uma banana aí”? Qual a relevância prática de uma criança saber que a banana tem potássio?
Isso é reflexo do que chamo de “nutricionismo na infância”: a crença de que vamos ensinar/convencer as crianças a comerem melhor pura e simplesmente por meio da educação nutricional: dizer a elas quais alimentos são saudáveis e quais não são, quais são os nutrientes que existem em cada fruta, verdura, legume... Ok, a informação de que tem potássio na banana é verdadeira, mas saber disso não necessariamente faz com que uma criança – ou mesmo um adulto! – coma mais a fruta. Isso seria muito reducionista. Comemos banana porque é gostosa, porque é prática, porque tem sempre em casa, porque me sinto saciada quando como...
O que, então, faz com que as crianças comam melhor e desenvolvam uma relação mais saudável com a comida? De forma bem simples: fazer com que elas se aproximem dos alimentos de forma neutra, lúdica e não julgadora, valorizando sempre as refeições em família e o prazer alimentar – quer ele venha de uma deliciosa cenoura laranjinha e docinha ou de um brigadeiro molinho e saboroso da festa de aniversário.
Tenho uma amiga nutricionista, a Maria Luiza Petty, que trabalhou bastante tempo dando aulas de culinária em escolas infantis, onde os alunos entravam em contato com alimentos in natura (e não já embalados em pacotes de supermercado!) e podiam eles mesmos preparar receitas deliciosas. Aprendizado por meio da curiosidade, do prazer e da culinária! Ela inclusive escreveu um livro chamado “Lugar de criança é na cozinha”, que pode ser comprado aqui.
A nutricionista americana Ellyn Satter propõe ainda uma divisão de responsabilidades entre as crianças e aqueles responsáveis pela sua alimentação (como os pais, por exemplo): os adultos devem se encarregar pelo que será servido, quando (que horários) e onde, enquanto que a responsabilidade das crianças é escolher o que e quanto/se vão comer.  Ou seja, não é papel das crianças decidirem que hoje no jantar vai ter hambúrguer se a mãe já havia decidido preparar arroz, feijão, bife e salada; assim como não é papel dos pais insistirem para que os filhos comam mais sendo que eles disseram que já estão satisfeitos. Para saber mais, vejam aqui.
Então, chame seu filho/irmão/primo para assistir “Ratatouille” e em seguida se aventurarem na cozinha preparando juntos o prato tema do filme. Se tiver bolo de cenoura com calda de chocolate de sobremesa melhor ainda :)
"Qualquer um pode cozinhar"

segunda-feira, 31 de agosto de 2015


Hoje é dia do nutricionista, um dia que para mim é de celebrar, mas também de refletir; refletir sobre os rumos da Nutrição e, especialmente, sobre o meu próprio, sobre meu papel e minha atuação como nutricionista.
Tenho me dado conta de que vivemos na época da “terceirização” do cuidado: me parece que muitas pessoas não querem se cuidar, mas sim serem cuidadas; querem ser monitoradas, vigiadas e controladas.
Vejo e ouço algumas coisas que me geram conflito interno: academias-conceito, com mensalidades de cerca de R$ 1000,00, onde o diferencial é que o personal trainer fica “ligado 24 horas por dia no aluno por mensagem: controla a alimentação, os treinos e a frequência” (matéria da revista 29 Horas, agosto de 2015); pacientes meus que se desesperam quando peço para que escolham o que gostariam de comer de café da manhã, e praticamente me imploram: “Carol, me diz o que eu posso e não posso comer, me faz uma lista, juro que vou seguir!”; clínicas de dieta famosas, que englobam o indivíduo de tal forma que ele deve frequentá-la algumas vezes por semana: passar por consultas ali, praticar exercício ali, assistir palestras ali e, se possível, comer ali (algo que não tenha sido escolhido por ele mesmo, claro).
De certa forma, esse movimento pode ser compreensível: num mundo de informações conflitantes, especialmente no que diz respeito a comida/corpo/peso/atividade física, parece que as pessoas perderam sua autonomia e liberdade de escolha. Pois para isso é preciso reflexão crítica e autoconhecimento, e muita gente não quer ou “não tem tempo” para isso.
E é nesse ponto que meu trabalho se torna um pouco mais difícil, já que eu não passo dietas e proponho que o indivíduo entenda e mude sua relação com a comida nos níveis mais profundos. Entendendo não só o que, mas como e por que ele come, poderá fazer escolhas de fato mais conscientes e se responsabilizar por seu autocuidado. Muitos pacientes descordam da minha abordagem e saem frustrados da consulta. Defender um novo paradigma pode ser bastante cansativo.
Mas é também bastante recompensador. Recebo feedbacks maravilhosos de meus pacientes e de vários leitores aqui do blog, que tomam a iniciativa de criar espaço para as coisas que fazem sentido para si. Vejo com frequência esse tipo de trabalho mudar vidas. E não foi porque o indivíduo perdeu peso, acreditem...
Tenho orgulho e satisfação em ser nutricionista. Parabéns a mim mesma e a todos os colegas da área!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Treinamento em compaixão: como me enriqueceu como nutricionista e como pode enriquecer a sua vida


Nestes últimos cinco dias, participei na Associação Palas Athena (associação sem fins lucrativos cuja missão é “aprimorar a convivência humana desenvolvendo ações educativas por meio da aproximação das culturas e articulação dos saberes”, saiba mais aqui) de um treinamento em compaixão com dois monges budistas. Um deles, inclusive, criou o que se chama de Treinamento em Compaixão na Abordagem Cognitiva (Cognitive Based Compassion Training ou CBCT), um programa que busca melhorar a qualidade de vida de diversas populações e que vem sendo avaliado por meio de estudos científicos (veja uma explicação mais detalhada sobre o método e sobre as pesquisas realizadas aqui).

O treinamento foi intenso e cansativo. Afinal, falar e praticar compaixão pode ser um tanto quanto difícil! Inclusive, o momento em que mais precisamos praticar compaixão é justamente quando ela é mais difícil... Mas fiquei muito feliz em ter participado, pois acredito que me tornou uma nutricionista melhor. Explico.

Um dos pontos que foi muito reforçado no curso, inclusive por meio da exposição de estudo científico que comprovou o fato, é que treinar compaixão – por meio de meditações e do cultivo da empatia, por exemplo – aumenta a reatividade de uma área de nosso cérebro chamada amígdala, importante na autopreservação da espécie já que é o centro identificador de situações de “perigo” e está envolvida na produção de uma resposta a emoções como medo e ansiedade. Ou seja, o estudo mostrou que, ao serem expostos a imagens negativas, os indivíduos que passaram por treinamento de compaixão se tornaram mais sensíveis a estas imagens, mas apresentaram menores escores de depressão do que os indivíduos não treinados. Isso significa que, apesar de terem sido expostos a imagens de sofrimento alheio, conseguiram expressar maior empatia mas mantendo um “distanciamento” saudável, sem “mergulhar” na situação negativa do outro.

Ora, empatia e compaixão são qualidades primordiais para qualquer bom terapeuta nutricional! De outra forma, não conseguiríamos ajudar de forma consistente nossos pacientes com suas dificuldades. Nos sentiríamos sobrecarregados demais e poderíamos nos contaminar com uma sensação de desesperança.

Outra questão é que, no treinamento de compaixão, um dos primeiros passos é desenvolver e aprimorar a nossa autocompaixão. Não podemos verdadeiramente sentir compaixão pelo outro se não sentimos por nós mesmos. E como eu já coloquei em alguns outros posts, autocompaixão implica em deixar de lado a culpa e aceitar nossas falhas, nosso caráter imperfeito, nossos desejos íntimos... Enfim, quem nós somos de fato. Implica em autoconhecimento.



A grande questão é que aceitação não significa passividade. Porém, enquanto estivermos imersos em culpa e julgamento, não poderemos enxergar a situação que tanto nos incomoda por uma perspectiva mais ampla, para podermos então encontrar um novo caminho. E eu vejo isso direto com as pessoas que buscam minha ajuda para mudar sua relação com a comida, mas que têm muita dificuldade nesse processo por se julgarem ou se criticarem demais.

Então, sou muita grata por esse curso pois contribuiu na minha evolução como nutricionista. Na minha evolução como pessoa. E espero que o exercício da compaixão possa ajudá-lo também. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dia do lixo


Não se enganem pelo título do post. Esse não é mais um desses dias comemorativos dos quais ninguém nunca ouviu falar. Pelo contrário: ele vem sendo cada vez mais discutido, tanto em textos que explicam sobre sua “importância” e também naqueles que ensinam “como fazer”.

O “dia do lixo” é o que algumas pessoas – dentre elas, para meu grande pesar, alguns nutricionistas – definem como sendo o dia em que se pode comer qualquer coisa. Normalmente, ele se refere àquela situação em que uma pessoa que está fazendo dieta inevitavelmente vai comer os alimentos “proibidos”, provavelmente de forma exagerada e com sensação de culpa.

A primeira coisa que me assusta quando ouço esse termo é que comida não é lixo. Comer é essencial à nossa sobrevivência e faz parte do processo de formação da nossa identidade, daquilo que somos. Uma das coisas que nos difere de algumas espécies e nos torna especiais é a nossa relação com a comida, isto é, o fato de sermos onívoros. Onívoros são aqueles que conseguem os nutrientes essenciais à vida por meio de diversos alimentos. Pensem no urso panda, por exemplo. Ele só vive de bambu. Por um lado parece fácil, ele não precisa lidar com os dilemas e responsabilidades de um mundo cheio de estímulos alimentares e comidas diferentes; mas, quando o bambu acaba, ele não consegue se nutrir. Não é a toa que ele está em extinção...


A segunda coisa que me intriga é: por que usar esse termo? Não consigo pensar num bom motivo. Será que as pessoas pensam que classificar determinadas comidas como “lixo” vai fazer com sejam menos consumidas? Isso não funciona. E não difere muito da boa e velha categorização dos alimentos em “saudáveis” e “não saudáveis”, “proibidos e “permitidos”. Já resumi os malefícios gerados por essa dicotomização da comida aqui e aqui.

O que eu quero dizer é: mesmo que de fato a pessoa acredite que aquela comida é “lixo” e não tenha nada que “preste”, isso não vai impedi-la de comer. Já se sabe que o que determina a escolha e ingestão alimentar NÃO é somente o conhecimento nutricional; aliás, ele nem é um dos principais fatores... Um dos principais é o sabor. E digo mais: quanto mais o indivíduo se proíbe ou acredita ser errado comer determinado alimento, mais ele parece atrativo e prazeroso, ou seja, a probabilidade da pessoa comer mais quando exposta a um alimento que considera “lixo” é imensa. E com certeza ela não vai se sentir bem por isso, pois a palavra “lixo” tem conotações negativas muito fortes.

Acho que está na hora de revermos e questionarmos nosso discurso e nossas crenças.

sábado, 6 de setembro de 2014

Estigma da obesidade faz obesos comerem mais


Já escrevi algumas vezes aqui no blog (veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui) sobre o estigma do peso (ou weight bias), que é a discriminação ou estereotipação de pessoas com base em seu peso corporal. Atualmente, as mensagens da mídia e da sociedade em relação ao corpo são tão conflitantes e inadequadas que existe o que podemos chamar de “insatisfação normativa”, ou seja, parece que atualmente todas as pessoas – gordas ou magras – estão insatisfeitas com seus corpos. Mas nós sabemos que quem mais sofre com esse estigma são os obesos.

Já existem estudos mostrando como o estigma da obesidade prejudica a saúde e a qualidade de vida dos indivíduos, inclusive dificultando a busca por cuidados de saúde. E isso me parece bastante óbvio: se sou magra e tenho dor nos joelhos, provavelmente serei examinada, vão me solicitar exames específicos, vão sugerir exercícios de reabilitação e se for o caso me darão uma medicação para aliviar as dores e tentar amenizar o problema. Agora, se sou gorda e tenho a mesma dor, porque vou me sentar em frente a um profissional que provavelmente vai me mandar emagrecer e mais nada? Não vou nem perder meu tempo...

O quero demonstrar aqui é o relato de muitos pacientes, confirmados por meio de estudos científicos: pessoas obesas não têm o mesmo tratamento de saúde que pessoas magras, mesmo apresentando queixas/patologias semelhantes.

Um estudo qualitativo muito interessante, realizado aqui no Brasil (veja aqui), buscou avaliar a interferência da sociedade no consumo de alimentos por pessoas obesas. Os resultados confirmam algo que na prática já se nota: a sensação de inadequação por ser obeso, reforçada pelas mensagens preconceituosas da sociedade, e o sentimento de culpa por comer alimentos tidos como “proibidos”, faz com que os obesos comam mais. E não menos.

Por isso, acho importante repensarmos nossa conduta como profissionais de saúde diante de pacientes obesos. Vamos mesmo reforçar a ideia de que perder peso é ESSENCIAL para se melhorar a saúde ou vamos estimular MUDANÇAS DE COMPORTAMENTO que tragam benefícios independentemente da perda de peso? Vamos tentar entender com empatia a relação que o indivíduo tem com a comida ou vamos passar mais uma dieta?

Boa semana a todos!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Minhas reflexões sobre o dia do nutricionista

Dia 31 de agosto é comemorado o dia do nutricionista. Todo ano, quando essa data se aproxima, procuro refletir sobre os rumos da minha atuação, meus desafios e minhas recompensas.

Lembro-me até hoje do dia em que, ainda como estudante, me foi plantada a sementinha do que hoje vem a ser o fundamento principal da minha prática: fazer dietas não só não resolve o problema (qualquer que seja ele!) como também é algo nocivo. Isso foi durante meu aprimoramento em transtornos alimentares no Ambulim, onde até hoje tenho o prazer de atuar. Foi nesse curso, inclusive, que tive certeza de que eu queria ser nutricionista e queria ajudar as pessoas a melhorarem sua relação com a comida.

A partir de então (e até hoje), foram incansáveis leituras, cursos e estudo pessoal para de fato construir uma atuação diferente dentro da Nutrição, uma atuação que me fizesse acordar todos os dias satisfeita por estar indo trabalhar. Claro que não foi tão fácil: é cansativo nadar contra a corrente. É delicado atender pessoas que dão tanto valor ao número na balança a ponto de acreditarem que isso determina quem elas são e como devem viver. É difícil, por vezes, lidar com a frustração de que por mais que você se empenhe por um paciente, a chave para a mudança está somente nas mãos dele. Para ser um bom nutricionista, é preciso ainda, na minha opinião, desenvolver e treinar algumas habilidades bastante específicas: escuta ativa, compaixão, paciência, carisma, flexibilidade e empatia. É necessário também saber confiar no próprio feeling, saber captar as mensagens que muitas vezes o paciente não verbaliza – até mesmo por não se dar conta. É preciso manter um certo distanciamento terapêutico, a fim de que as questões dos pacientes não te afetem demais.

Tudo isso dá bastante trabalho...

Mas, para mim, existem muitas recompensas. A gratificação de acordar todos os dias e encontrar sentido em meu trabalho. As devolutivas positivas de cada paciente (que antes me procuravam para “fazer dieta”, e que agora me procuram justamente para nunca mais fazerem uma) e de cada leitor desse blog. Os estudantes e “jovens nutricionistas” que vêm a mim pedindo orientações e ajuda relacionadas à sua atuação. A oportunidade de conhecer pessoas e colegas de profissão maravilhosos, que compartilham da minha visão e com quem muito aprendi (me refiro aqui especialmente aos colegas do Genta).

Tenho orgulho de ser nutricionista porque por meio da minha profissão tenho me tornado uma pessoa melhor, mais humana. Tenho prazer em carregar esse título por ter a certeza de que, por meio dele, é possível ajudar as pessoas a se relacionarem melhor com a comida, e com isso se tornarem mais felizes e saudáveis.

Ao refletir esse ano sobre o dia do nutricionista, percebo que, para mim, o saldo da balança é positivo. E com essa balança eu me importo profundamente.

Feliz dia do nutricionista!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Melhorando a relação com a comida... Mas só depois de emagrecer.


Não é mistério algum que uma das grandes motivações para se buscar um nutricionista atualmente seja o desejo de emagrecer. Eu sempre explico aos meus pacientes que meu papel não é “emagrecê-los”, e sim ajudá-los a melhorar sua relação com a comida e com o corpo; e que existem muitos outros benefícios quando se tem uma alimentação saudável, benefícios estes desvinculados da perda de peso e exemplificados pelo amigo Cezar Vicente Júnior neste outro post.

Vejam, eu não sou contra o emagrecimento por si só e não sou uma “apologista à obesidade”; só acredito que comer e viver melhor no corpo que temos hoje é o caminho ideal para melhorar nossa qualidade de vida e nossa saúde. Mesmo esse corpo sendo obeso.

Muitas vezes, quando se tira o foco inicial do peso e de fato o indivíduo consegue mudar sua relação com a comida (e consigo mesmo), o emagrecimento é possível. Mas muitas vezes isso também não ocorre. Pelo menos não de imediato. Não posso mentir. E digo isso aos meus pacientes também.

Daí vem a grande pergunta que alguns deles me fazem: então será que eu não posso tentar emagrecer antes (por exemplo, fazendo outra dieta), para me sentir bem, e depois trabalhar minha relação com a comida?

Bom, pela minha experiência, pelos meus estudos e por aquilo que eu acredito, minha resposta é: Não. Não acredito que isso vá funcionar.

Primeiro porque a maioria das pessoas que me procura já fez dietas antes e sabe que todas elas falham. Quando se faz dieta, a relação com a comida torna-se ainda pior. Novamente vai existir a categorização dos alimentos (“bons” e “ruins”) e as regras externas sobre o que e quanto se deve ou não comer. Toda dieta funciona com base na restrição alimentar, e melhorar a relação com a comida implica em permissão alimentar. São conceitos contrários. Quando (e se) a pessoa emagrece fazendo dieta, dificilmente ela vai sentir-se segura para abandonar a restrição voluntariamente e se permitir comer, já que o medo de “botar tudo a perder” e ganhar peso novamente virá com força total.

Além disso, existe o fato de que nada garante que a pessoa vai emagrecer e então ficar satisfeita e feliz, por mais “bizarro” que isso possa soar. Por vezes, a busca pelo emagrecimento camufla outras buscas e anseios em outros domínios da vida do indivíduo. Por isso a terapia se torna por vezes tão essencial: é uma oportunidade de se trabalhar outros aspectos que compõem a autoestima do indivíduo. Como profissionais de saúde, devemos questionar a influência indevida e exagera do peso e forma corporais no nosso senso de valor como indivíduos. Penso que só assim poderemos verdadeiramente ajudar os pacientes que nos procuram.

Claro que alguns pacientes não aceitam bem essa minha resposta e não se convencem de que o caminho que eu proponho possa ser uma alternativa. E eu respeito isso. Não sou a dona da verdade. Mas me mantenho fiel àquilo que acredito. E tenho certeza de que muitos se beneficiam dessa abordagem.

domingo, 13 de julho de 2014

Sobre "gordices"


Nessa época de Copa do Mundo, não foram poucas as vezes em que ouvi pacientes, amigos e familiares comentando e postando fotos em redes sociais sobres as “gordices” consumidas. “Gordices” é um termo que refere-se, de modo geral, a tudo aquilo que as pessoas comem acreditando que não deveriam estar comendo. Outros termos similares são “gulodices”, “porcarias”, “besteiras”.

Eu particularmente não gosto e procuro não utilizar nenhum desses termos, pois todos implicam em um julgamento moral daquilo que comemos. Mas me incomoda de forma especial a palavra “gordice”.

“Gordice” perpetua o estigma da obesidade, já que passa a ideia errônea e inadequada de que só gordos comem determinados tipos de alimentos. Será mesmo que só gordos comem chocolate/brigadeiro/pão francês/coxinha? E se esses alimentos são “gordices”, alface, por exemplo, é o que? “Magrice”? E só magros comem alface??

Além disso, quando alguém diz que comeu uma “gordice”, ele está querendo dizer que cometeu uma “indulgência”, que comeu algo “proibido”; e quando algo é proibido, se torna mais desejável, se torna uma transgressão... E quem é que não gosta de uma transgressão?!

Ou seja: se você se refere a um alimento como “gordice”, pode ter certeza de que a chance de você ter mais vontade de comê-lo aumenta. Assim como a culpa que vem ao comer, e que impede que você de fato sinta prazer comendo.

Proponho um exercício: tente se monitorar e perceber quantas vezes você pensa e utiliza a palavra “gordice” em sua rotina. Tente deixá-la de lado, tente aceitar que o que você está comendo é apenas um chocolate (uma torta, uma batata frita, um pastel...).Esse é um dos passos para que você consiga de fato melhorar sua relação com a comida.

Boa semana a todos!