Estudando e lendo sobre autocompaixão, tenho me maravilhado cada
vez mais com seu efeito transformador sobre nossas vidas. Autocompaixão é a
habilidade de estar sensível ao seu próprio sofrimento e comprometer-se a agir
da melhor maneira possível para tentar aliviá-lo. Parece simples e até mesmo
óbvio, não?
O que acontece, porém, é que em muitas circunstâncias somos
capazes de potencializar nosso próprio sofrimento. Quando algo ruim acontece ou
ao sentirmos que falhamos, ao invés de reconhecermos nossa vulnerabilidade – afinal,
errar é humano! – e nos tratarmos com gentileza, nos criticamos e nos julgamos,
aumentando ainda mais a sensação de impotência e inadequação. Em última
instância, não encaramos o nosso sofrimento com a atenção e o cuidado que ele
merece. Resultado? Muitas pessoas, frente a uma situação emocionalmente
desafiadora, acabam comendo como forma de aliviar ou de não precisar entrar em
contato com o que está acontecendo.
Existe um ditado budista que diz: cuide da sua dor como se
estivesse cuidando de um amigo que está machucado. Essa fala é muito sábia, pois
de fato não é possível aliviar sofrimento por meio da autocrítica e do
autojulgamento! Então, da próxima vez que sentir que errou, tente estar
presente para si mesmo. Acolha sua dor, sua culpa, e tente não se julgar ou se
criticar demasiadamente nesse momento tão delicado. Se abrace e esteja consigo mesmo.
Pergunte-se o que de melhor você pode fazer para se aliviar e se cuidar.
Explore maneiras alternativas à comida para obter aquilo que de fato você
precisa.
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terça-feira, 8 de novembro de 2016
terça-feira, 24 de maio de 2016
Feijoada também é #comidadeverdade
Busque o prazer em comer!
Dia desses, chegou uma paciente dizendo que gostaria de aprender a comer sem culpa e que, para isso, esperava que eu lhe passasse um cardápio somente com opções/receitas gostosas porém “saudáveis”, de forma que não “gerassem culpa”. Ou seja, na concepção inicial dela, provavelmente não seria possível comer brigadeiro ou lasanha sem sentir-se mal, já que esses alimentos não são vistos pela maior parte da sociedade como saudáveis...
O fato é que comida e culpa não deveriam andar juntas. A nutricionista americana Evelyn Tribole, que escreveu o livro Intuitive Eating (Comer Intuitivo), contou uma vez em um workshop que, quando sua paciente referiu que sentiu culpa comendo, ela questionou: “culpa por quê? Você havia roubado a comida?!”. Ela ironizou com o fato de que o que está errado não é a comida, e sim a culpa. Não importa o que e quanto você tenha comido. E sabe por quê?
1. Se você observar pessoas
que têm uma boa relação com a comida (seus pais e avós podem ser boas
opções) e questionar se elas sentem culpa quando comem, provavelmente a
resposta será um belo e grande NÃO;
2. Sentir culpa não muda
comportamento alimentar e não faz você comer menos/melhor. Quanto pior
você se sente, menor a probabilidade de conseguir mudar sua relação com a
comida. Um estudo de 2015, por exemplo (veja aqui) encontrou que indivíduos que associaram um alimento - bolo de chocolate - com
culpa apresentaram uma pior relação com a comida, hábitos alimentares
menos saudáveis e menores níveis de controle alimentar quando em situações
de estresse;
3. Comer com prazer é um
componente importante na geração de sinais de saciedade. Geralmente, quando
se come com prazer, se come menos. Isso só não tende a acontecer quando
estamos muito distraídos – assistindo Netflix, conversando sem parar com
os familiares na mesa do almoço de domingo – ou quando uma das únicas
fontes de prazer/conforto na vida do indivíduo é a comida. Mas o “problema”
nesses casos não é o prazer, e sim a falta de atenção plena ao se alimentar
e o comer emocional (vejam este estudo interessantíssimo sobre prazer e comer
saudável).
Muitos blogueiros fit usam a hashtag “#comidadeverdade”,
mas se esquecem que comida de verdade não leva suplemento como whey protein na receita e que feijoada
também é comida de verdade!
Quer manter uma relação saudável
e descomplicada com a comida e seu corpo? Não é necessário aderir a modismos
alimentares. Busque um nutricionista
especializado que possa te ajudar a lidar com sua autocrítica excessiva e com a
culpa ao comer. E trabalhe a permissão alimentar.
Boa semana a todos!
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Os tipos de restrição alimentar
Todos os nutricionistas que trabalham com transtornos
alimentares – e também aqueles que usam a abordagem defendida pela NutriçãoComportamental – têm como fato a premissa de que dietas levam à compulsão
alimentar, comer emocional e/ou comer na ausência de fome. Por “dieta” me
refiro aqui a qualquer tipo de restrição
alimentar com a finalidade de perda de peso, que não siga os sinais internos do
corpo como fome, apetite e saciedade para determinar o que e quanto comer.
Dietas forçam o indivíduo a seguir regras externas para determinar sua
escolha alimentar, que inevitavelmente levam à transgressão e à culpa em
comer. Dietas não fazem bem e não são inofensivas: dietas fazem mal.
A restrição alimentar mais óbvia é a restrição quantitativa, ou seja, a pessoa diminui a quantidade de comida que come a fim de reduzir a ingestão calórica, o que teoricamente levaria ao emagrecimento. Porém, muitos pacientes que têm uma relação ruim com a comida me dizem em algum ponto do tratamento: “Carol, eu não estou mais fazendo restrição, estou comendo todas as refeições e em quantidades adequadas... Então por que ainda estou tendo compulsão?”
“Porque você está fazendo outros tipos de restrição”, é a
minha resposta.
O segundo tipo de restrição é a qualitativa, isto
é, o indivíduo come em quantidades razoáveis mas nunca (ou quase nunca) se permite
comer os alimentos que gosta, somente aqueles que considera “corretos”. Isso
ainda faz parte da mentalidade de dieta, que dicotomiza os alimentos entre “permitidos”
e “proibidos”. Se a pessoa ainda faz dieta, ela ainda tem compulsão.
O terceiro e último tipo, que por ser mais sutil pode correr
o risco de passar batido, é o que eu chamo de restrição cognitiva. É
quando a pessoa até come o delicioso brigadeiro que tanto queria... Mas com a
sensação de que não deveria. A certeza de estar quebrando uma regra leva
automaticamente à culpa e ao pensamento de “8 ou 80”: “já que comi um
brigadeiro, já que já meti o pé na jaca, melhor comer logo 10...”
Daí a importância suprema da permissão incondicional em
comer, defendida pelo modelo do Intuitive Eating, que está explicado em
detalhes em nosso livro Nutrição Comportamental (pode ser comprado aqui). Claro, quando toco nesse assunto, os pacientes logo demonstram o medo de passar
a comer somente comidas muito gostosas e calóricas caso se permitam; e, de
fato, isso pode acontecer no início. Mas se o indivíduo resistir e não adotar a
mentalidade de dieta novamente, essa fase passa. Experimente comer sua comida predileta
todos os dias por um mês, e veja se ao final deste você ainda tem desejo de
continuar comendo a delícia escolhida com a mesma frequência e intensidade...
E então, já se permitiu hoje?
sábado, 15 de fevereiro de 2014
A culpa nossa de cada dia. Só que não.
Já escrevi alguns posts sobre os grandes benefícios da permissão alimentar e de comer sem culpa. A culpa vem da crença inicial de que determinado alimento é “proibido” e deveria ser excluído/evitado, e quando de fato acreditamos nisto estamos propensos a comer mais quando expostos a este mesmo alimento. Ativamos em nossa mente o famoso “já que”: “já que comi isso, então melhor enfiar o pé na jaca de uma vez!”. Ou seja: saber que você vai se sentir culpado ao comer aquele chocolate não reduz a chance de você comê-lo mesmo assim. E o que é ainda pior: quando você come com culpa, a vontade não passa.
Deixar de sentir culpa ao comer é um processo, não ocorre de uma hora para a outra. É necessário um esforço ativo para que isso aconteça, já que 99% das pessoas já se arrependeu de ter comido algo pelo menos uma vez na vida. Mas comer sem culpa é libertador. E é por isso que decidi escrever esse post com algumas sugestões de como neutralizar essa sensação:
1. Lute dia a dia contra a noção absurda de que existem alimentos proibidos.
Simples assim: se você acredita que não pode, terá mais vontade e obviamente sentirá culpa ao comer. Um único alimento não tem o poder mágico de te engordar (leia mais aqui).
2. Diga NÃO à moralização da comida.
Você não é uma pessoa:
pior
sem força de vontade
politicamente incorreta
malandra
indulgente
pecadora
gulosa
suja
sem-vergonha
safada porque comeu duas coxinhas com catupiry. Mesmo que sua consciência, seus amigos, sua família e o universo tentem te convencer do contrário.
3. Respeite os sinais físicos de seu corpo.
Tente se convencer de que é absolutamente normal e esperado comer quando se sente fome. Não parece justo sentir culpa por estar respeitando e cuidando das necessidades do seu corpo.
4. Não rejeite suas vontades.
Por mais que você deseje acordar amanhã odiando chocolate, isso provavelmente não vai acontecer. Então, conforme-se com o fato de que você está vivo e tem desejos! Isso não significa que você vai sair por aí comendo tudo a qualquer momento. A vontade real é bem específica, está relacionada com alguma memória alimentar positiva e não é urgente. Ou seja, “vontade de comer um doce” não basta: você precisa saber qual é o doce e pode programar o momento ideal para comê-lo (e não vale ser semana que vem se a vontade é hoje!). Coma devagar, apreciando. Valorize o momento.
5. Situe-se no contexto.
Se você topou ir à lanchonete com seus amigos, coma um lanche! Se todos estão fazendo, por que só você não pode? Não é todos os dias que você come isso, certo? Não peça a salada, a não ser que você de verdade a queira – o que é pouco provável nessa situação!
6. Analise a situação.
OK, você não acha que comer brigadeiro é proibido e você tem se esforçado para respeitar sua fome e suas vontades. Mas comer 30 brigadeiros sozinha em casa, na calada da noite, sem nem mesmo se dar conta do sabor que eles tinham... Aí já é demais! Mesmo assim, respire fundo. Tente entender qual foi a situação que te levou a isso. O que aconteceu no seu dia? Que sentimentos você vivenciou ou tentou camuflar? Por que esses sentimentos são tão difíceis pra você? Talvez o comer emocional fosse o único recurso disponível pra você naquele momento. Talvez você não soubesse como lidar com a situação de outro modo. Então, tente desenvolver a autocompaixão. Guarde seu chicote na gaveta e não se massacre. Fortaleça-se para que da próxima vez seja melhor. E com certeza será.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Se você fosse morrer hoje, qual seria sua última refeição?

Brian Wansink, autor do livro “Mindless Eating” (fortemente recomendo!) e de diversas pesquisas curiosas que avaliam as razões inconscientes e automáticas pelas quais escolhemos determinados tipos de alimentos, publicou um estudo muito interessante sobre o conteúdo alimentar da última refeição de presos americanos no corredor da morte. O objetivo foi tentar investigar como as pessoas se relacionam com a comida em situações altamente estressantes do ponto de vista emocional (não imagino nada mais estressante do que saber que em algumas horas estarei morta!). Sabe-se que muitas pessoas em situações financeiras desfavoráveis, por exemplo, tendem a ter o pensamento de “aproveitar o presente, já que o futuro é incerto”. Alguns estudos inclusive apontam que este seria um fator relacionado ao aumento da obesidade em camadas sociais mais pobres.
Os pesquisadores analisaram a última refeição de 193 presos que foram executados entre 2002 e 2006 nos EUA. Eles encontraram que o valor calórico médio das refeições era de 2756kcal, sendo que algumas refeições chegaram a 7200kcal! Além disso, as refeições eram normalmente ricas em proteínas (em especial carnes de maneira geral) e carboidratos (em especial açúcar branco, sacarose, na forma de sobremesas) e pobres em vegetais e frutas. Ainda assim, 26,9% dos presos pediram por “salada” na forma de acompanhamento.
Outra observação curiosa é que dos 66% que pediram sobremesa, a maioria pediu mais de um ítem (torta e sorvete, por exemplo). Chocolate não apareceu nenhuma vez, a não ser como um modificador (exs: bolo de chocolate, leite com chocolate, mas nunca só o chocolate).
Os autores discutem que a escolha de comidas ricas em calorias, carboidratos e açúcares podem refletir a preferência alimentar dos presos mas também a necessidade por conforto e acolhimento numa situação altamente estressante e desoladora. Não foi a toa, por exemplo, que 40% dos indivíduos escolheram alimentos de marcas específicas e conhecidas. Ou seja, seu estudo é mais uma evidência de que ambientes e situações desfavoráveis e emocionalmente desconfortáveis podem levar ao exagero alimentar.
Mas na minha opinião, o que ele coloca de mais importante, é o seguinte questionamento: será que profissionais/campanhas antiobesidade promovem algo de positivo quando “assustam” as pessoas com as consequências negativas da obesidade? Ou será que, assim como nas campanhas de cigarro com aquelas imagens ameaçadoras, isso gera tamanha ansiedade que faz com que as pessoas consumam/comam mais?
Boa reflexão a todos!
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