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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Diário de gratidão corporal


Este mês finalizo um curso de três meses sobre meditação e saúde. Aprendemos sobre os princípios e o contexto da meditação budista e sua aplicação (de forma adaptada, claro) na área da saúde, por meio do método da atenção plena (mindfulness, como já retratei aqui no blog em outros posts; basta buscar no canto direito da página!). Confesso que foi um curso transformador tanto em nível pessoal quanto profissional, pois consigo utilizar muitos dos ensinamentos e princípios com meus pacientes em suas jornadas por uma alimentação mais atenta, consciente e saudável. 

Um dos aspectos mais enfatizados pela filosofia budista e, consequentemente, pelos estudiosos da atenção plena, é o papel da gratidão e da compaixão (capacidade de ser mais compreensivo e gentil) para uma vida mais feliz e saudável. Existe inclusive um centro de estudos na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que promove pesquisas  nas área de psicologia, neurociência e sociologia do bem-estar. Uma das matérias escritas por esse grupo reforça os benefícios à saúde em se manter um “diário de gratidão”, isto é, um registro periódico (eles sugerem que seja semanal) de coisas pelas quais somos gratos em nossas vidas. Pode ser desde algo simples - como ter acordado pela manhã -
como algo mais surpreendente/inusitado - ter recebido um elogio de um superior rigoroso no trabalho. 

Os benefícios de tal registro, que incluem melhor qualidade de sono, menos sintomas de doenças e maior sensação de felicidade são compreensíveis: ao tomarmos consciência das coisas pelas quais podemos agradecer, aumentamos nossa conexão com o mundo e com os outros e conseguimos enxergar além de nós mesmos e dos sofrimentos cotidianos que por vezes exacerbamos.

Alguns estudos já falam sobre a relação entre gratidão corporal e uma melhor satisfação corporal. Uma pesquisa que usou meditações que treinavam gratidão e autocompaixão verificou redução na insatisfação corporal das participantes, bem como uma menor importância da aparência no julgamento de seu valor pessoal. Outro estudo demonstrou que trabalhar a gratidão reduziu os escores de insatisfação corporal em estudantes após serem expostas a imagens de modelos magras.

Quando as pessoas me questionam como de fato podemos melhorar nossa relação com o corpo e nos sentirmos mais satisfeitos com o modo como ele existe hoje (mesmo que no fundo ainda  queiramos ser mais magros/fortes/etc), respondo que o primeiro passo é a intenção, ou seja, o desejo real de querermos enxergar e vivenciar o corpo de um modo diferente. Então, se você está sofrendo com sua imagem corporal, que tal se dedicar à criação de um diário de gratidão corporal

1. Separe um caderno bem bonito para essa finalidade. Se tiver dons artísticos, crie uma capa diferente, faça uma pintura ou uma colagem de fotos que te tragam recordações e sensações positivas.

2. Comprometa-se a escrever com uma certa periodicidade, que pode ser por exemplo uma vez por semana.

3. Agradeça pelas funções muitas vezes sutis de seu corpo, ao invés de inicialmente focar em partes específicas. Ex: "sou grata pelo trabalho do meu estômago em digerir minha comida, pois sem ele eu não teria como absorver nutrientes e sobreviver".

4. Tente se recordar de experiências positivas que só foram possíveis graças ao corpo (“sou grata por meu corpo ter conseguido dançar a festa inteira no final de semana”). Para isso, pode ser mais fácil fazer o caminho inverso: tentar se lembrar de situações limitantes que você vivenciou porque algo no corpo talvez não "funcionasse" bem.

5. Esforce-se para de fato sentir a sensação de gratidão em seu corpo conforme escreve. Após escrever uma frase, feche os olhos e perceba os sentimentos que vêm à tona.

Para finalizar, vejam aqui um curto exercício de meditação para trabalhar a gratidão corporal.



Boa semana a todos!

sábado, 8 de março de 2014

O olhar do outro


Outro dia, resolvi experimentar o recurso de voz do aplicativo Whatsapp para enviar uma mensagem a uma amiga. Quando fui escutar o que tinha gravado, confesso que fiquei um pouco surpresa num primeiro momento com a voz que ouvi. “Espera”, pensei, “ eu falo desse jeito? Minha voz soa assim? Que estranha!”. Entretanto, outras pessoas ouvem minha voz e não acham nada de mais, já estão acostumadas com o jeito que ela soa, e tudo bem.

Acho que algo semelhante acontece quando avaliamos nosso corpo. A tendência, na maioria dos casos, é julgarmos excessivamente aquilo que vemos, e quanto mais observamos parece que mais coisas negativas existem para serem “consertadas”. Somos muito mais críticos ao descrevermos nosso próprio corpo do que o de outras pessoas.

Penso que, para melhorar nossa relação com o corpo, precisamos talvez mudar o modo como interpretamos e julgamos aquilo que enxergamos. Claro que nossas interpretações estão ligadas às nossas experiências e vivências pessoais, e entender/mudar tudo isso requer tempo e disposição. Por isso sempre digo que é muito simplista a ideia de melhorar a satisfação corporal “simplesmente” mudando o corpo, já que dessa forma a mudança seria de fora pra dentro e não de dentro pra fora.

Já diz o ditado, “a beleza está nos olhos de quem vê”. Imagino como seria se pudéssemos exercitar uma visão menos crítica de nós mesmos, se pudéssemos às vezes nos olhar através do olhar do outro...

sábado, 14 de julho de 2012

Os mitos da satisfação corporal


Quando se fala em melhorar a satisfação corporal, os pacientes logo se assustam: "Como assim? Me gostar? Isso é impossível! Se você tivesse meu tamanho aposto que também estaria insatisfeita!" ou "Imagina, se eu me gostar desse jeito daí é que não vou mudar mesmo, não vou emagrecer nunca!".

Na minha opinião, essas duas visões estão equivocadas. É possível SIM se gostar (ou pelo menos se respeitar) em qualquer tamanho. Assumir uma postura positiva e menos crítica em relação a seu próprio corpo é uma atitude corajosa, mas que depende somente de VOCÊ. Digo "corajosa" porque a sociedade inteira vai tentar te convencer do contrário, ou seja, de que de fato existe algo de errado/imperfeito no seu corpo: as revistas, e/ou seu namorado(a), e/ou seus pais, e/ou seus amigos, e/ou seus inimigos, e/ou os programas de televisão, e/ou seus colegas de trabalho, e/ou aquela sua vizinha que emagreceu de repente com a última dieta da moda, e/ou seus médicos/nutricionistas/professores de academia... Estar insatisfeito é uma condição humana, e essa insatisfação atualmente acaba sendo muito transferida para o corpo.

Em relação ao segundo ponto ("se eu me gostar não vou mudar mesmo, não vou emagrecer nunca"), nenhum estudo até hoje conseguiu provar que maior insatisfação corporal promove maior perda de peso. Pelo contrário! Um exemplo é este estudo fresquinho publicado na revista científica International Journal of Obesity: 1559 garotas com excesso de peso foram acompanhadas por 11 anos, e percebeu-se que aquelas que estavam mais satisfeitas com seus corpos apresentaram elevações menores no IMC e chance 61% menor de terem episódios frequentes de compulsão alimentar.

Se pensarmos bem, esse e outros estudos que mostram resultados semelhantes fazem todo o sentido. Se você respeita/gosta do seu corpo, será muito mais fácil fazer algo positivo por ele, como melhorar sua alimentação, fazer algum tipo de exercício que te traga prazer, comprar roupas mais bonitas e confortáveis...

Como diz a música: "quando a gente gosta, é claro que a gente cuida..."