Mostrando postagens com marcador imagem corporal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador imagem corporal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Corpo: assunto privado

Meu corpo pertence a mim!
 
Assistindo ao documentário “The Illusionists”, não pude deixar de me chocar com o fato de que nosso corpo se tornou objeto de crítica/comentário/comparação alheia. O corpo está sob o foco dos holofotes. Quando criei esse blog, em 2010, escolhi o título de propósito. Afinal, seu corpo é seu, não é de mais ninguém. Portanto, não deveria estar sujeito às análises e opiniões de mais ninguém a não ser você.

É muito comum ver pacientes com e sem transtornos alimentares sofrendo com comentários negativos a respeito de seus corpos, por parte de amigos, parceiros, familiares. E, muitas vezes, feitos com “boa intenção”. Como o pai que diz para a filha que ela está comendo muito e que deveria moderar, pois já está gorda. Ou o marido que coloca na geladeira fotos de quando a esposa era magra, para “estimulá-la” a pensar duas vezes antes de comer.

Agora eu questiono: mesmo com a melhor das intenções em mente, você gostaria que alguém próximo te sujeitasse a essas situações? Como você se sentiria? Eu me sentiria exposta e vulnerável, e isso porque eu não tenho distorção ou uma séria insatisfação com minha imagem corporal...

As festas de final de ano são ocasiões muito propícias para esse tipo de assunto surgir. Procure se abster dos comentários e conversas que exponham seu corpo ou o corpo alheio. Viu alguém comendo muito? Não comente. A tia fulana engordou? Não comente. O primo ciclano está magro e musculoso? Não comente. A roupa da beltrana está inadequada pois, na sua opinião, as pernas delas são grandes demais? Não comente.

Respeitemos a privacidade do corpo de cada um.

Boa semana a todos!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Carta ao corpo: um exercício transformador


Uma das coisas mais importantes quando queremos melhorar nossa relação com quem quer que seja é estabelecer e incentivar uma comunicação assertiva, certo? Falar aquilo que sentimos, sem no entanto culpabilizar ou agredir o outro... Uma comunicação sincera e ao mesmo tempo gentil, sempre que possível. Por isso, gosto bastante de pedir aos meus pacientes que escrevam uma carta ao próprio corpo, especialmente para aqueles que possuem uma relação difícil com ele e que sofrem com distúrbios de imagem corporal. Esse exercício de escrita é catártico, abre um canal de comunicação direta com o corpo, possibilitando assim uma transformação (mesmo que pequena) da relação entre o indivíduo e si mesmo. Afinal, nós somos o nosso corpo! Não existimos sem ele, estamos integrados!

O texto abaixo foi uma paciente minha que escreveu, e ela me autorizou publicá-lo aqui no blog para a apreciação de vocês (sim, pois é muito poético!).  

“Querido Corpo, Ilustríssimo Corpo,

Qual pronome de tratamento que você prefere? Nossa comunicação é tão rara e fugidia que até decidir o pronome tá difícil. Isso me faz lembrar outra lambança: a pessoa. Sim, porque a gente (ou ao menos eu) estamos acostumados a pensar o corpo em terceira pessoa – aprendi essa sacada com a Marília Coutinho, neste post do Blogueiras Feministas – e pensamos o corpo não em primeira pessoa, como deveria ser. Temos pouquíssima prática em “corpar”, ou seja, ser o próprio corpo. Daí é bastante confuso pensar o você-corpo nas evocações de segunda pessoa (nem vou mencionar o embrólio que o “você” e o “tu” apresentam na variante brasileira da língua).

Sem decidir o pronome de tratamento, digo que minha relação contigo apenas aparece em primeira pessoa em situações bastante específicas: quando faço amor, sexo ou, na mais bonita das hipóteses, os dois juntos. Daí eu sou você tudo junto. Também quando tenho crises de asma e não consigo existir fora de você e respirar. Ainda quando danço, momento em que sinto que tua presença é a minha. Ou ainda quando canto. Embora ande cantando ou dançando pouquíssimo para te visitar. Não é agradável. Por isso, comecei falando de gramática. Pra rodear.

Daí chegamos ao ponto. Às vezes, não te reconheço. Diria que na maior parte dos dias e noites. Você-corpo é um ente abstrato. Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.  Você não se cuida. Os velhos chavões. Praticar exercícios. Emagrecer. Cuidar da saúde. Ao menos, passo filtro solar. E fio dental. E penteio meu cabelo. Cabelo cheio de tintura, porque ainda não tenho cabelos brancos e porque gosto de cabelos tingidos. Cabelo picotado na diversão de cortar o próprio cabelo. Talvez o cabelo seja uma presença tua, você-corpo, que eu sei que é minha.

Reli meus poemas que falam do tema. Habitar o próprio corpo. Encontrei aquela nota melancólica. A dificuldade. O julgamento dum alguém (quem atende por esse outro?). Depois mando os poemas, porque agora estou atrasada. Sim, estou atrasada e decidi escrever logo essa carta que a Carol pediu porque estava me angustiando. Fiz listas. Organizei ideias. Mas agora-aqui-contigo sempre é muito mais complicado.

A verdade é que não sei, não decidi ainda se quero te chamar de você. Muito menos de “eu”. Sabe como geralmente me descrevem? “Uma menina inteligente”. Disso decorrem duas coisas: jura que sou ainda “menina”, se já tenho 35 anos? Gosto que me chamam de “inteligente”, porque assim se reforça a ideia: não preciso ter você-corpo pra existir e ser elogiada. Imagino que nada disso seja agradável de ler, desculpa, mas estamos nessa tentativa de pingos nos is.

Vou pensar mais em tudo, prometo.

Aproveita que você é a pessoa do lado físico e também me escreva.

Com dificuldades e com amor,

Eu-mesma.”

Confesso que fiquei emocionada ao ver o mergulho que essa paciente fez em si mesma. É preciso coragem e disposição. Pois essa é a verdade essencial: para se melhorar a relação com o corpo, é fundamental haver intenção. A pessoa precisa querer sair do ciclo de autoflagelação e ódio ao corpo. É preciso deixar as culpas e mágoas de lado, por mais difícil que seja esse processo. É preciso se tratar com um pouco mais de autocompaixão.

Como reflexão final na consulta, chamei a atenção da autora quanto à parte em que ela coloca como seu corpo é descrito atualmente (“Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.”). Questionei a ela como ela descreveria seu corpo, que unidades de medida usaria... Já que cabe somente a ela definir isso. O resultado foi outra belíssima composição escrita, que publicarei no blog semana que vem.

Bom feriado a todos!


OBS: uma amiga nutricionista, Alessandra Fabbri, também publicou no blog do Genta (Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares) uma carta ao corpo de uma paciente sua. Veja aqui. 

quarta-feira, 18 de março de 2015

Livro infantil incentiva imagem corporal positiva


Há um tempo, escrevi aqui no blog sobre um livro infantil americano chamado “Maggie goes on a diet” (“Maggie faz uma dieta”, em tradução livre). Ele fala sobre uma criança que começa a fazer uma dieta para perder peso, e conforme vai obtendo “resultados” é amplamente incentivada e “aplaudida”. A descrição do livro coloca que:

“Esse livro é sobre uma garota de 14 anos que entra numa dieta e é transformada de uma garota extremamente insegura e com sobrepeso em uma garota de tamanho normal que se torna a estrela do time de futebol da escola. Por meio de tempo, exercício e trabalho duro, Maggie se torna mais e mais confiante e desenvolve uma autoimagem positiva.”

Basicamente, o livro cai na famosa falácia de que se você perder peso, sua vida vai mudar pra melhor: tchau insegurança, olá realizações, agora eu me amo. Mas é claro que não é tão simples assim. Quem trabalha com questões de alimentação e corpo e as próprias pessoas que sofrem com essas questões sabem que essa afirmação é bastante reducionista.

Além disso, como eu bem escrevi na época, acredito ser maléfico incentivar crianças de 4 a 8 anos (público-alvo do livro) a fazerem dietas, e já existem inúmeros estudos que confirmam que dietas são um fator de risco poderoso para o desenvolvimento de alimentação transtornada, transtornos alimentares, para o ganho de peso e para o desenvolvimento de uma pior autoestima e uma pior imagem corporal (para ler mais sobre esses achados, sugiro as publicações científicas da nutricionista americana Dianne Neumark-Sztainer, que podem ser encontradas no Pubmed).

Em contraponto a este livro, a americana Judith Matz, que trabalha há 25 anos como terapeuta especializada no tratamento de transtornos alimentares, escreveu o livro infantil “Amanda’s big dream” (“O grande sonho de Amanda”, veja aqui). Ele fala sobre uma jovem patinadora que ouve de sua técnica que está muito gorda, e por isso se desanima e para de patinar (pra quem acha que informar o outro sobre seu grau de obesidade pode ser algo positivo e motivador, sinto dizer que o efeito é justamente o contrário). Porém, após um reforço positivo de seus pais e de sua médica, que disseram que o tamanho de seu corpo não era um problema e de que ela poderia alcançar seu sonho de se tornar uma grande patinadora por meio de seu esforço e prática na modalidade, ela voltou aos treinos e viu que o importante era fazer aquilo que de fato amava, independentemente dos resultados.

A obra traz lustrações belíssimas e algumas importantes mensagens para a geração mais nova:

1. Seu corpo não é um impeditivo para que você seja feliz e tenha saúde.

2. A saúde pode vir em todos os tamanhos. O que importa não é o peso, e sim seu estilo de vida e o engajamento em comportamentos que de fato promovem saúde: dormir bem e em quantidade suficiente, comer uma ampla variedade de alimentos e comidas, se alimentar de acordo com seus sinais de fome e parar de comer quando estiver satisfeito, praticar atividade física regular e que traga prazer...

Em resumo: a felicidade não pode ser medida em quilos e seu valor como pessoa não pode ser dependente do tamanho do seu corpo.


Pense nisso!

domingo, 30 de novembro de 2014

Apenas um corpo...


Dia desses numa roda de amigos, ouço um papo trivial:

“Nossa, quanto tempo! Como você está?”
“Ótima, e você?”
“Também!”
“Esses dias lembrei mesmo de você, vi aquele seu amigo, o Fulano...”
“Qual Fulano? Aquele ‘saradão’?”

Essa conversa me fez pensar por alguns instantes. Provavelmente, esta última pessoa conhecia dois Fulanos, e na tentativa de identificar sobre qual deles estava se falando, ela fez uma referência explícita ao seu corpo. E não se referiu, por exemplo, à cor dos olhos ou à altura de Fulano, que são características naturais e imutáveis; não se referiu também a seus gostos pessoais ou seus traços de personalidade (“qual Fulano, aquele advogado?” ou “qual Fulano, aquele engraçado/mal humorado?”).

Foi aí que eu percebi que talvez Fulano tenha se tornado um molde. Fulano agora será lembrado por aquilo que ele aparenta ser: apenas um corpo.

Não quero aqui moralizar quem valoriza o cuidado estético do corpo; afinal, como o próprio título do blog diz, o corpo é de cada um, cada um tem sua verdade sobre o que é melhor e mais desejado para si próprio. Mas eu particularmente não gostaria de ser lembrada como “a Carol, aquela gorda/magra/sarada/peituda/sem peitos”. Isso me afastaria da essência de quem eu de fato sou, dos meus valores e, mais importante, daquilo que é mais importante em minha vida.

Amo e respeito meu corpo, ele é minha morada sagrada, é ele que me permite transitar pela minha existência. Mas acredito que amar e cuidar do corpo seja diferente de transformá-lo em um “altar de idolatria”.

Espero um dia, então, ser lembrada como “a Carol, aquela moça que valoriza a família/que gosta de comer boa comida/que faz aulas de dança/que gosta bastante de ler”.

Que é feliz.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Diário de gratidão corporal


Este mês finalizo um curso de três meses sobre meditação e saúde. Aprendemos sobre os princípios e o contexto da meditação budista e sua aplicação (de forma adaptada, claro) na área da saúde, por meio do método da atenção plena (mindfulness, como já retratei aqui no blog em outros posts; basta buscar no canto direito da página!). Confesso que foi um curso transformador tanto em nível pessoal quanto profissional, pois consigo utilizar muitos dos ensinamentos e princípios com meus pacientes em suas jornadas por uma alimentação mais atenta, consciente e saudável. 

Um dos aspectos mais enfatizados pela filosofia budista e, consequentemente, pelos estudiosos da atenção plena, é o papel da gratidão e da compaixão (capacidade de ser mais compreensivo e gentil) para uma vida mais feliz e saudável. Existe inclusive um centro de estudos na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que promove pesquisas  nas área de psicologia, neurociência e sociologia do bem-estar. Uma das matérias escritas por esse grupo reforça os benefícios à saúde em se manter um “diário de gratidão”, isto é, um registro periódico (eles sugerem que seja semanal) de coisas pelas quais somos gratos em nossas vidas. Pode ser desde algo simples - como ter acordado pela manhã -
como algo mais surpreendente/inusitado - ter recebido um elogio de um superior rigoroso no trabalho. 

Os benefícios de tal registro, que incluem melhor qualidade de sono, menos sintomas de doenças e maior sensação de felicidade são compreensíveis: ao tomarmos consciência das coisas pelas quais podemos agradecer, aumentamos nossa conexão com o mundo e com os outros e conseguimos enxergar além de nós mesmos e dos sofrimentos cotidianos que por vezes exacerbamos.

Alguns estudos já falam sobre a relação entre gratidão corporal e uma melhor satisfação corporal. Uma pesquisa que usou meditações que treinavam gratidão e autocompaixão verificou redução na insatisfação corporal das participantes, bem como uma menor importância da aparência no julgamento de seu valor pessoal. Outro estudo demonstrou que trabalhar a gratidão reduziu os escores de insatisfação corporal em estudantes após serem expostas a imagens de modelos magras.

Quando as pessoas me questionam como de fato podemos melhorar nossa relação com o corpo e nos sentirmos mais satisfeitos com o modo como ele existe hoje (mesmo que no fundo ainda  queiramos ser mais magros/fortes/etc), respondo que o primeiro passo é a intenção, ou seja, o desejo real de querermos enxergar e vivenciar o corpo de um modo diferente. Então, se você está sofrendo com sua imagem corporal, que tal se dedicar à criação de um diário de gratidão corporal? 

1. Separe um caderno bem bonito para essa finalidade. Se tiver dons artísticos, crie uma capa diferente, faça uma pintura ou uma colagem de fotos que te tragam recordações e sensações positivas.

2. Comprometa-se a escrever com uma certa periodicidade, que pode ser por exemplo uma vez por semana.

3. Agradeça pelas funções muitas vezes sutis de seu corpo, ao invés de inicialmente focar em partes específicas. Ex: "sou grata pelo trabalho do meu estômago em digerir minha comida, pois sem ele eu não teria como absorver nutrientes e sobreviver".

4. Tente se recordar de experiências positivas que só foram possíveis graças ao corpo (“sou grata por meu corpo ter conseguido dançar a festa inteira no final de semana”). Para isso, pode ser mais fácil fazer o caminho inverso: tentar se lembrar de situações limitantes que você vivenciou porque algo no corpo talvez não "funcionasse" bem.

5. Esforce-se para de fato sentir a sensação de gratidão em seu corpo conforme escreve. Após escrever uma frase, feche os olhos e perceba os sentimentos que vêm à tona.

Para finalizar, vejam aqui um curto exercício de meditação para trabalhar a gratidão corporal.



Boa semana a todos!

sábado, 1 de novembro de 2014

“Gente gorda não tem noção mesmo”


São Paulo, uma manhã dessas. Calor de 29oC já às 9h da manhã. Sentada no metrô, vejo uma moça obesa entrando, bem bonita inclusive. A senhora ao meu lado comenta: “gorda desse jeito e ainda usando essa calça colada!”. Finjo que não era comigo e seguimos viagem.

A fala acima não é incomum. Aposto que você já ouviu algumas variações dela, e principalmente dirigida a mulheres:

“Nossa, gente gorda não tem noção mesmo!” (comentário proferido ao ver uma mulher gorda usando minissaia, por exemplo)

“As pessoas têm que entender que certas coisas simplesmente não caem bem em determinados tipo de corpo.”

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que as frases acima são extremamente preconceituosas e só reforçam o estigma da obesidade, tema já tratado anteriormente aqui nesse blog. Uma evidência clara do teor preconceituoso desses comentários é que muito provavelmente eles não seriam dirigidos a pessoas magras que estivessem usando uma calça colada, uma minissaia, uma blusa mais curta...

Em relação ao primeiro exemplo, sobre “falta de noção” dos obesos, a afirmativa pode muitas vezes ser verdadeira. Explico: diversos estudos, como este e este mostram que pessoas com sobrepeso ou obesidade têm a tendência de subestimar seu peso e tamanho corporais, ou seja, muitos não se percebem como gordos. Alguns estudiosos da área sugerem uma explicação para tal fato: o estigma da obesidade é tão forte e tão presente em nossa sociedade que não enxergar o corpo como gordo pode trazer um certo “alívio” no convívio diário com si mesmo e os outros. Seria uma espécie de “mecanismo de defesa” contra o sofrimento que vem do estigma.

Alguns diriam: “Ah, mas se a pessoa não se enxerga gorda, como ela vai adotar comportamentos que tragam benefícios à saúde?”

Em primeiro lugar, precisamos entender que o peso/tamanho do nosso corpo não é o único motivador para que pessoas adotem comportamentos saudáveis. E não podemos determinar o estado de saúde de alguém com base em seu peso, isso seria novamente o estigma da obesidade em ação. Afinal, existem muitos magros que comem de forma não saudável e gordos que, por sua vez, o fazem.

Em segundo lugar, será mesmo que ter uma noção mais clara do tamanho do corpo – o que no caso de obesos implica provavelmente em sentir-se mais “inadequado” – influencia positivamente na saúde? Este estudo encontrou que a diferença entre o peso atual e o desejado parece ser um preditor mais forte de saúde física e mental do que o IMC. Ou seja, muitas vezes, o sentir-se inadequado em nossos corpos influencia mais no surgimento de consequências negativas à saúde do que o peso em si. Já esta pesquisa mostrou que pais que identificavam seus filhos como tendo sobrepeso ou obesidade não estavam mais propensos do que pais que não identificavam corretamente seus filhos a adotar determinados comportamentos de saúde, como ofertar mais frutas e legumes, reduzir a oferta de refrigerantes, promover mais refeições em família... E mais: os pais que caracterizavam seus filhos como gordos estavam mais propensos a encorajar a prática de dietas, o que por sua vez já se sabe que promove ganho de peso a longo prazo.

Finalmente, em relação à segunda frase, sobre pessoas que “não entendem que certas coisas não lhes caem bem”... Acredito que quem tem que decidir se a roupa cai bem ou não é a própria pessoa que a veste. Será que precisamos julgar até mesmo a escolha da indumentária alheia? Que tal exercitar o não julgamento?


Boa semana!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"Do que eu mais sinto falta de quando eu era gorda"


Bom dia pessoal!

Essa semana resolvi postar uma tradução livre feita por mim de um texto publicado na Marie Claire americana em julho de 2012, escrito pela jornalista Sarah Elizabeth Richards. Ele conta do que ela sentiu falta em seu corpo - e em sua vida - depois que emagreceu quase 20kg. Afinal, emagrecer não é tão simples assim e não necessariamente traz só coisas boas no processo...

Aproveitem!

"Do que eu mais sinto falta de quando era gorda..."

"Eu estava em pé no bar, segurando minha margarita de manga, enquanto minhas duas amigas estavam conversando com dois caras. Senti que estava 'sobrando' e tentei fazer contato visual com um cara muito fofo perto da porta. Ele me ignorou.

'Fique mais um pouco', disse a mim mesma. 'Você só está aqui há uma hora'.

Não foi assim que eu imaginei meu gran debut. Tinha acabado de terminar um relacionamento de longos anos, e minhas amigas insistiram que eu deveria passar a noite com elas num bar cheio de homens desejáveis.

Recentemente eu havia perdido 18 quilos (aumentando meu consumo de vegetais e grãos integrais e reduzindo a ingestão de açúcar, massas e pães). Segui o conselho de minhas amigas de usar roupas que mostrassem mais o meu corpo e lá estava eu no bar, sentindo-me inadequada.

O ar condicionado estava no máximo, e eu senti o ar gelado em cada pedacinho na minha pele exposta – meus braços, minhas pernas, meu decote. Mas ao invés de me sentir sexy, eu me senti pelada.

'Estou realmente cansada', disse a minhas amigas. 'Estou indo'.

Ao chegar em casa, abri meu guarda roupa e achei minhas antigas roupas de quando era gorda. Enterrei meu rosto no que costumava ser minha camiseta preferida e senti o cheiro de um antigo perfume. Eu a vesti, minha ansiedade me dominando. Me senti eu mesma novamente.

De vez em quando, eu sentia falta de ser gorda.

As pessoas vivem falando sobre os benefícios da perda de peso, mas não se fala muito sobre o choque que é emagrecer. Quando você decide emagrecer, você só pensa nas coisas boas: novo corpo, saúde melhorada (e, se você se engaja em pensamentos milagrosos, uma nova vida). Ninguém te alerta sobre o outro lado.

Fisicamente, eu sentia frio o tempo todo, bem como uma dorzinha palpitante do lado esquerdo das minhas costelas – a sensação que sinto sempre que estou vulnerável. Emocionalmente, eu não me sentia preparada para lidar com todas as mudanças, e não podia mais usar a comida para me acolher.

E então veio o desapontamento. Nas minhas fantasias, eu parecia mais confiante e mais bem vestida. Eu tinha mais amigos e namorados. Eu me tornava uma melhor profissional. Quando eu era gorda, essas fantasias ficavam armazenadas em segurança, na ideia de que “um dia” isso se tornaria realidade. Na minha cabeça, eu não cogitava ter que descobrir o limite dos meus talentos, encarar meus medos de intimidade, ou mesmo confrontar o quão esquisita me sinto ao conhecer novas pessoas.

Quando eu perdi peso, eu tomei um banho de realidade. Eu continuava sendo eu mesma, com os mesmos problemas. Eu só estava menor.

E a minha versão menor não necessariamente se tornou uma versão melhor – pelo menos não no início. Eu adorei ver as novas curvas de meu corpo, mas nunca me imaginei nua em frente ao espelho, pegando nas mãos a pele solta debaixo dos meus braços e na parte interna das minhas coxas. Ou que eu veria meus seios ficarem mais flácidos, e meu bumbum ficar ainda mais caído. Eu me sentia uma estranha em meu próprio corpo.

Havia também as questões do dia a dia. Os experts em dieta não te contam o quão desconfortável você se sente no início por não poder mais comer o quanto você comia antes. Ou como quase todas as interações sociais incluem referências sobre seu novo corpo. No começo é legal ouvir “uau, como você está linda!”, mas depois isso se torna angustiante, pressionador. Tinha momentos em que eu simplesmente não queria toda a atenção voltada para mim. Eu só queria o conforto do grupo.

Não estou dizendo que quero de volta minha gordura. Eu trabalhei duro para perder todo o peso extra que ganhei na faculdade porque me afundei em lasanha e comida delivery para conseguir lidar com toda minha carga de trabalho. Hoje, peso 63kg, um peso que tenho mantido há quatro anos. Levei quase sete anos para atingi-lo. Para mim, essa foi a velocidade ideal, pois me permitiu lidar aos poucos com as novas questões que foram surgindo. Além disso, deu tempo para que minha pele (inicialmente flácida) se acomodasse novamente (com ajuda da ioga e do kickboxing, dois exercícios que adoro). Perder os últimos sete quilos levou quase três anos. Parecia que eu não estava mais levando tão a sério meu status de 'quase magra'.

Eu gostaria de dizer que eu aprendi a me sentir melhor com meu corpo naturalmente, por meio de um processo orgânico de celebrar meus pontos fortes e aceitar minhas falhas. Ao invés disso, eu me forcei a me sentir bem, como se estivesse entrando aos poucos em uma piscina gelada.

Eu ainda luto com a sensação de parecer nua às vezes, mas isso não mais me deixa ansiosa. Nas raras ocasiões em que parece que não vou aguentar, eu me enrolo num grande robe de cetim até passar (sim, eu me livrei das minhas roupas de quando era gorda).

Então, eu ponho minhas novas calças de ioga, que abraçam minhas novas curvas.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“Querido, você está ótimo assim...”


“Mas quando perder peso ficará melhor ainda.”

Isso foi o que ouvi da esposa de um paciente que estava em acompanhamento para cirurgia bariátrica. Apesar de desrespeitoso e absurdo, esse tipo de “encorajamento” para que o parceiro/a emagreça e faça dieta é muito comum. Os comentários podem até ser bem-intencionados, mas como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio.

Digo isso porque uma pesquisa recente da Universidade de Minnesota com 1300 jovens em relacionamentos amorosos (20 a 31 anos) encontrou que 40% deles havia se engajado em comportamentos extremos de dieta no último ano, e a presença de compulsão alimentar dentre as mulheres que foram encorajadas a fazer dieta era duas vezes maior que nas demais mulheres. Em relação aos homens, a presença de compulsão naqueles incentivados a fazerem dieta foi três vezes maior. E o pior: metade dos homens e mulheres apresentavam peso normal ou baixo peso, e ainda assim metade relatou que seu parceiro/a incentivava a prática de dietas.

Por que a presença de compulsão é maior naqueles incentivados a fazerem dieta? Uma das razões é bastante simples: comentários negativos sobre peso vindos de uma pessoa importante e amada tendem a aumentar a ansiedade com o corpo e a comida, contribuindo para uma pior imagem corporal e autoestima, além de incentivas atitudes alimentares inadequadas.

Quer ajudar seu parceiro/a? Então, incentive os cuidados com a saúde, sem focar no peso. Convide-o/a para fazer uma caminhada com você. Melhore seu hábito alimentar. Talvez ele ou ela siga seu exemplo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ressignificando o Dia da Mulher



Tudo começou em 1857, quando mulheres operárias resolveram entrar em greve para exigir melhores condições de vida e trabalho. Muitas foram trancadas dentro da fábrica e queimadas vivas para servirem de exemplo. Muitas mulheres morreram na luta por direitos e liberdades.

Então, parabéns pra nós pelo nosso dia!!!

Ou será que não?

Hoje a mulher conquistou muitos direitos, todos sabemos, mas também assumiu mais deveres. Agora além de trabalhar fora, a mulher precisa ainda (na maioria dos casos) cuidar da casa, dos filhos... E do corpo. As exigências externas para que a mulher mantenha uma aparência “ideal” são excruciantes. E o problema é que muitas mulheres se submetem a elas.

A questão é: você tem uma escolha. Só você pode decidir a postura que vai assumir diante dos cuidados com seu corpo. Se pra você “cuidar do corpo” virou sinônimo de “autoflagelação”, ou se você passa boa parte dos seus dias se preocupando com o que vai vestir, como está o cabelo, que tratamento estético fará em seguida... Cuidado. Talvez seja um momento importante para refletir quem está decidindo isso por você e porque você precisa de tudo isso.

Então, mulheres, aproveitem o dia de hoje para de fato se sentirem valorizadas. Não importa o tamanho ou a forma do seu corpo. Saia para dançar, faça uma massagem, coma algo gourmet e pense nos exemplos de mulheres poderosas dentro de sua própria família ou círculo de amizades. Perceba que seus sucessos e conquistas provavelmente nada tiveram a ver com seu corpo ou aparência, e sim com suas qualidades e virtudes. E encontre as suas também, você está cheia delas!!!

Agora posso dizer: feliz dia das mulheres!!!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Meu corpo, o estranho


A tirinha acima nos mostra de forma nua e crua o estranhamento que temos diante do nosso próprio corpo. Apesar da nossa existência estar 100% vinculada a ele, muitas vezes preferimos não conhecer aquilo que nos incomoda. Tentem este exercício: ficar nu/nua diante do espelho e se observar por três minutos. Difícil, não?
O problema é que este estranhamento só piora a nossa imagem corporal, ou seja, a percepção e a atitude que temos diante do nosso corpo. Se eu não conheço meu corpo, como posso respeitá-lo? E se eu não o respeito, como posso gostar dele? (sim, isto é possível, e não importa o tamanho/forma do seu corpo!)
Pensando nisso, deixo aqui alguns exercícios e reflexões de um texto bem bacana que usamos com as pacientes com transtornos alimentares lá do Ambulim. Experimentem e exercitem no dia-a-dia!

1. Nós nascemos em amor com nossos corpos. Observe uma criança sugando seus dedos e pés, sem se preocupar sobre “que corpo gordo eu tenho”. Imagine estar em amor desta forma com o seu próprio corpo.
2. Pense em seu corpo como uma ponte: crie uma lista de todas as coisas que você pode fazer com ele.
3. Esteja consciente do que seu corpo faz a cada dia. Ele é o instrumento de sua vida, não um ornamento para o prazer dos outros.
4. Faça uma lista de pessoas que você admira, que contribuem para sua vida, sua comunidade e o mundo. Quanto da aparência destas pessoas importa para o seu sucesso e realização?
5. Considere o seu corpo como uma fonte de prazer. Pense em todos os modos que ele faz você se sentir bem.
6. Curta seu corpo: estique-se, dance, caminhe, cante, tome um banho de espuma, faça massagem, vá ao pedicure...
7. Ponha frases em seu espelho como: “Eu sou bonito/a por dentro e por fora”.
8. Caminhe de cabeça erguida, com orgulho e confiança em você mesmo como pessoa, não como um “tamanho”.
9. Não deixe seu “tamanho” manter você afastado/a das coisas que você gosta.
10. Reponha o tempo que você gasta criticando sua aparência com atividades mais positivas e satisfatórias.
11. Você sabia que sua pele se troca a cada mês? Seu estômago forra-se a cada 5 dias? Seu fígado a cada 6 semanas? Seu esqueleto a cada 3 meses? Seu corpo é extraordinário – respeite e aprecie isto.
12. Seja o/a especialista sobre o seu corpo – conteste as revistas de moda, a indústria de cosméticos e as tabelas de “peso ideal”.
13. Toda manhã, quando se levantar, agradeça a seu corpo por ter descansado e se rejuvenescido para que você pudesse aproveitar o dia.
14. Toda noite, quando for para a cama, agradeça a seu corpo porque ele ajudou você a atravessar o dia.
15. Encontre um tipo de exercício que lhe dê prazer e o faça regularmente, não para perder peso, mas para sentir-se bem.
16. Pense: se você tivesse apenas um ano para viver, o quão importante seria sua imagem corporal e sua aparência?
17. Faça uma lista de seu guarda-roupa. Você veste roupas para esconder seu corpo ou para seguir a moda? Mantenha apenas as roupas que dão a você sensação de prazer, confiança e conforto.
18. Jogue a balança fora. Adote um estilo de vida saudável e pese-se somente quando for necessário devido a condições médicas. Assuma que limites auto-impostos de peso são muitas vezes arbitrários e estão fora do peso programado internamente pelo nosso corpo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Universidades americanas apresentam programas de prevenção de transtornos alimentares

Uma boa notícia para a nossa segunda-feira: as universidades e faculdades americanas já estão utilizando estratégias e programas de prevenção de transtornos alimentares em seus campi. Alguns deles foram divulgados pelo site "Accredited Online Colleges" (http://www.accreditedonlinecolleges.com/blog/2011/11-important-ways-colleges-are-fighting-eating-disorders/) e estão listados abaixo. Viva!

1. Barbie em tamanho real
Uma aluna do Hamilton College em Clinton, Nova York, fez uma Barbie em tamanho real para ilustrar as proporções irreais da boneca. Ela ficou exposta na faculdade, que também participou pela primeira vez da "National Eating Disorders Awareness Week" ("Semana Nacional de Conscientização dos Transtornos Alimentares").


2. Tratamentos alternativos para os transtornos alimentares
Pesquisadores da Universidade de Búfalo estão verificando a eficácia de tratamentos alternativos para os transtornos alimentares, que podem ser aliados ao tratamento convencional. Dentre eles estão técnicas de relaxamento e respiração e ioga.

3. Desfile para promoção de imagem corporal saudável
Todos os anos, a Universidade de Washington realiza um desfile com meninas de vários tamanhos, promovendo a idéia de que é importante se aceitar e se gostar independentemente do tamanho do corpo.



4. Retirada de informação nutricional dos cardápios
Já se sabe que o foco em calorias aumenta a preocupação com a alimentação e com o corpo e pode trazer malefícios aos indivíduos em risco para transtornos alimentares, bem como aos que já têm a doença. Diante disso, a Universidade de Harvard tirou a informação nutricional dos cardápios de sua praça de alimentação estudantil. Agora, as informações só podem ser acessadas caso solicitadas nos respectivos restaurantes.

5. Dia sem espelho
A Universidade de Ciências, na Filadélfia, realiza uma vez por ano a "segunda-feira sem espelho", em que os espelhos do campus são cobertos com um papel branco onde são escritas mensagens positivas sobre imagem corporal e auto-aceitação. Além disso, a universidade promoveu uma exposição de arte com peças criadas por mulheres em recuperação de transtornos alimentares.


6. "Project Heal"
Como a maioria dos tratamentos multiprofissionais para os transtornos alimentares nos Estados Unidos é oferecida por clínicas particulares, duas alunas que se conheceram em uma dessas clínicas criaram o "Project Heal" ("Projeto Curar"), que visa arrecadar fundos para pagar o tratamento de pessoas que não tem recursos para isso. Seis garotas já foram enviadas a centros de tratamento gratuitamente.

Infelizmente, a única iniciativa brasileira de prevenção dos transtornos alimentares que tenho conhecimento é a "Semana Se Dê Conta", promovida pelo Grupo de Estudos em Nutrição e Transtornos Alimentares (GENTA), do qual eu honrosamente faço parte! Este ano a semana de eventos será em outubro, sigam os blogs do GENTA e do Se Dê Conta (lateral direita do meu blog) e acompanhem as novidades!