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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Perda de peso e aumento de mortalidade no diabetes tipo 2

Já em 2013 eu escrevi um post no blog (veja aqui) sobre os resultados do ensaio clínico Look AHEAD, que teve como objetivo principal avaliar os efeitos de um programa intensivo de mudanças no estilo de vida na perda de peso de mais de 4.000 indivíduos com diabetes tipo 2 (DM2) que apresentavam excesso de peso. Em resumo, obteve-se que a perda de peso nos sujeitos estudados não promoveu uma redução na ocorrência de derrames, ataques cardíacos ou morte por eventos cardiovasculares – mesmo com a melhora nos parâmetros bioquímicos relacionados à ocorrência desses eventos. E agora em janeiro um estudo de coorte foi publicado (veja aqui)  trazendo resultados semelhantes e ainda mais interessantes.

Os pesquisadores acompanharam por 19 anos 761 pacientes adultos com sobrepeso e obesidade que apresentavam diagnóstico recente de DM2. O que se encontrou é que a perda de peso nesses indivíduos – mesmo naqueles com obesidade – foi um fator de risco independente para o aumento da mortalidade por todas as causas. Os autores sugerem um melhor prognóstico para aqueles que mantiveram o peso.

Você não leu errado: perder peso (intencionalmente ou não) pode ser um “tiro pela culatra” para pessoas adultas com diagnóstico de DM2. O estudo controlou diversas variáveis, o que torna esses achados verdadeiramente significantes.

Com base nesse estudo científico, proponho uma reflexão: vamos rever nossas condutas terapêuticas e nossa insistência em usar perda de peso como parâmetro de sucesso de tratamento com nossos pacientes? Vamos focar em mudanças de comportamentos que promovam saúde, mesmo que elas não resultem em perda de peso?
Boa semana a todos!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Aspectos éticos da prevenção de sobrepeso e obesidade



Um artigo muito interessante, publicado recentemente na revista científica "Obesity Reviews", teve como tema os aspectos éticos de intervenções que visam previnir sobrepeso e obesidade através de mudanças no estilo de vida. Os autores analisaram 60programas de prevenção propostos, implementados e/ou estudados após 1980, em várias partes do mundo.
Alguns aspectos problemáticos encontrados:

1. Efeitos incertos na saúde física: muitos programas que são sugeridos e implementados não têm evidência científica suficiente garantindo sua eficácia e um adequado custo benefício. O valor ético que estaria ameaçado, neste caso, é o do bem-estar. Os autores colocam que, muitas vezes, os riscos à saúde de alguns programas acabam sendo subestimados porque acredita-se que a obesidade traz mais riscos.

2. Consequências psicossociais negativas: o ênfase exagerado no peso corporal e nos riscos da obesidade podem gerar medo excessivo na população como um todo, além de estigmatização e discriminação dos indivíduos com sobrepeso e obesidade (como bem ilustra a charge inicial). Os valores éticos que estariam na berlinda são o do bem-estar, o do respeito pelas pessoas, o da privacidade e o da justiça.

3. Inequalidades: muitos programas direcionados à população em geral não conseguem atingir as camadas mais pobres e as minorias étnicas, contribuindo para o aumento das diferenças sociais.

Outros aspectos problemáticos incluem a disseminação de informação confusa/equivocada; a desconsideração do valor social e cultural da alimentação; o desrespeito à privacidade individual; a subestimação dos diversos fatores que podem ser responsabilizados pela gênese da obesidade (sim, a pessoa não é gorda porque ela quer, a responsabilidade não é só dela!).
De forma geral, o estudo sugere que o desrespeito a estes valores éticos pode afetar a efetividade dos programas de prevenção. Além disso, os autores defendem que as intervenções não devem conter medidas coercivas, que "forcem" as pessoas a mudarem seus comportamentos. Ao invés disso, uma opção favorável seria disponibilizar e facilitar escolhas saudáveis. Exemplo prático: ao invés de enfatizar que as pessoas precisam fazer mais exercício, o governo poderia disponibilizar ciclovias, melhorar a infra-estrutura e a segurança dos parques públicos...

Sugiro a leitura do artigo na íntegra, é realmente muito interessante, inclusive ele cita em detalhe os programas avaliados. Quem quiser mando por email!