sábado, 15 de fevereiro de 2014

A culpa nossa de cada dia. Só que não.


Já escrevi alguns posts sobre os grandes benefícios da permissão alimentar e de comer sem culpa. A culpa vem da crença inicial de que determinado alimento é “proibido” e deveria ser excluído/evitado, e quando de fato acreditamos nisto estamos propensos a comer mais quando expostos a este mesmo alimento. Ativamos em nossa mente o famoso “já que”: “já que comi isso, então melhor enfiar o pé na jaca de uma vez!”. Ou seja: saber que você vai se sentir culpado ao comer aquele chocolate não reduz a chance de você comê-lo mesmo assim. E o que é ainda pior: quando você come com culpa, a vontade não passa.

Deixar de sentir culpa ao comer é um processo, não ocorre de uma hora para a outra. É necessário um esforço ativo para que isso aconteça, já que 99% das pessoas já se arrependeu de ter comido algo pelo menos uma vez na vida. Mas comer sem culpa é libertador. E é por isso que decidi escrever esse post com algumas sugestões de como neutralizar essa sensação:

1. Lute dia a dia contra a noção absurda de que existem alimentos proibidos.
Simples assim: se você acredita que não pode, terá mais vontade e obviamente sentirá culpa ao comer. Um único alimento não tem o poder mágico de te engordar (leia mais aqui).

2. Diga NÃO à moralização da comida.
Você não é uma pessoa:
pior
sem força de vontade
politicamente incorreta
malandra
indulgente
pecadora
gulosa
suja
sem-vergonha
safada porque comeu duas coxinhas com catupiry. Mesmo que sua consciência, seus amigos, sua família e o universo tentem te convencer do contrário.

3. Respeite os sinais físicos de seu corpo.
Tente se convencer de que é absolutamente normal e esperado comer quando se sente fome. Não parece justo sentir culpa por estar respeitando e cuidando das necessidades do seu corpo.

4. Não rejeite suas vontades.
Por mais que você deseje acordar amanhã odiando chocolate, isso provavelmente não vai acontecer. Então, conforme-se com o fato de que você está vivo e tem desejos! Isso não significa que você vai sair por aí comendo tudo a qualquer momento. A vontade real é bem específica, está relacionada com alguma memória alimentar positiva e não é urgente. Ou seja, “vontade de comer um doce” não basta: você precisa saber qual é o doce e pode programar o momento ideal para comê-lo (e não vale ser semana que vem se a vontade é hoje!). Coma devagar, apreciando. Valorize o momento.

5. Situe-se no contexto.
Se você topou ir à lanchonete com seus amigos, coma um lanche! Se todos estão fazendo, por que só você não pode? Não é todos os dias que você come isso, certo? Não peça a salada, a não ser que você de verdade a queira – o que é pouco provável nessa situação!

6. Analise a situação.
OK, você não acha que comer brigadeiro é proibido e você tem se esforçado para respeitar sua fome e suas vontades. Mas comer 30 brigadeiros sozinha em casa, na calada da noite, sem nem mesmo se dar conta do sabor que eles tinham... Aí já é demais! Mesmo assim, respire fundo. Tente entender qual foi a situação que te levou a isso. O que aconteceu no seu dia? Que sentimentos você vivenciou ou tentou camuflar? Por que esses sentimentos são tão difíceis pra você? Talvez o comer emocional fosse o único recurso disponível pra você naquele momento. Talvez você não soubesse como lidar com a situação de outro modo. Então, tente desenvolver a autocompaixão. Guarde seu chicote na gaveta e não se massacre. Fortaleça-se para que da próxima vez seja melhor. E com certeza será.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Eu gosto do meu corpo... E agora?


Outro dia ouvi de uma paciente a seguinte frase: “sabe, Carol... Depois de todo esse tempo, eu percebi que até que eu gosto do meu corpo...”

Por trás do alívio e serenidade que esse tipo de percepção traz, muitas vezes fica aquela sensação de dúvida, aquela “pulga atrás da orelha”: e agora?!

Pois é. Por incrível que pareça, algumas pessoas se sentem desconfortáveis estando mais satisfeitas com seu corpo. Isso pode acontecer por alguns motivos:

1. Você estará fugindo da norma.
Todos sabemos que a mídia e a indústria da beleza gastam bilhões tentando nos convencer de que devemos (e, mais cruel de tudo, de que é sempre possível) ser diferentes, nos tornar uma versão “melhorada” daquilo que já somos. Se você admite para si e para os outros que não se incomoda com seu culote, que tipo de mensagem estará passando? Talvez você se sinta arrogante... Afinal, se todo mundo é insatisfeito, que “direito” tenho eu de estar contente com meu corpo?!

2. Você se dará conta de outras insatisfações em sua vida. Quando você tira o corpo da equação e passa a prestar mais atenção em outras áreas da sua vida, isso pode ser extremamente desafiador e doloroso. Talvez você tenha passado muito tempo acreditando que o problema da sua existência resumia-se ao fato de você ter um corpo x ou y. Daí você percebe que o buraco é mais embaixo...

3. Você pode se sentir “negligente”. Como hoje em dia os cuidados com a saúde se confundem muito com o culto ao corpo, se você aceitar que tudo bem ser do jeito que é, parece que está “desistindo” de si mesmo. Mas o fato é que você pode se engajar em cuidados com sua saúde e bem-estar independentemente do corpo que tem ou que venha a ter.

4. Falar mal do corpo é um assunto “quente”. Bombardear nosso corpo e o corpo alheio com as mais duras críticas se tornou um tópico bastante presente em nosso convívio social. Existem amizades baseadas quase que inteiramente nisso! Isso significa que talvez você fique de fora de algumas rodas de conversa, assim como quem não assiste ao Big Brother...

Mas pensando bem, será mesmo que você queria fazer parte desse grupo?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A conduta e o processo terapêutico


Acabei de voltar do pronto socorro, pela segunda vez no dia, devido a uma reação alérgica por conta de um medicamento. Perrengues à parte, o dia de hoje me possibilitou a inspiração pra escrever esse post.

Continuo me impressionando com a falta de humanidade que ainda existe nos atendimentos de saúde, mesmo nos melhores estabelecimentos da cidade. Profissionais que não te cumprimentam adequadamente, nem mesmo um aperto de mão; que não se apresentam dizendo seu nome e que muitas vezes se assustam quando você pergunta; que não demonstram um olhar cuidadoso e empático... Parece uma linha de produção: sintoma  conduta  dispensa. Próximo!

Não estou aqui me referindo somente a médicos, vejam bem. Me coloco nesse balaio: médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas... Entendo que o sistema de saúde no Brasil ainda tem muitas falhas: profissionais que trabalham muito e ganham pouco, faculdades e universidades de cursos da área da saúde que deixam e desejar no ensino da ética/humanização... Mas o negócio é o seguinte: os pacientes não tem culpa disso.

Acredito que nós, como profissionais de saúde, precisamos nos convencer cada vez mais de que o processo terapêutico é tão importante quanto a conduta (como coloca o psiquiatra e psicanalista Irvin Yalom em seu livro “Desafios da terapia”, que eu fortemente recomendo). No caso da nutrição, por exemplo, precisamos nos esforçar para criar um bom vínculo com o paciente, vínculo este que depende de não-julgamento, empatia, acolhimento, escuta ativa e compaixão. Precisamos buscar um entendimento maior sobre por que e como as pessoas comem, e não só o que e quanto. Quais suas motivações para se alimentar – ou não se alimentar, em alguns casos! – e como os aspectos emocionais de sua vida interferem na sua alimentação.

Sob meu ponto de vista, muitas vezes é isso que os pacientes precisam que façamos por eles.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Quando o corpo ideal ameaça o esporte


Acredito que muitos se lembram desta ex-nadadora inglesa, Rebecca Adlington, que ganhou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas de 2008 e duas de bronze nas Olimpíadas de 2012. A primeira nadadora do país a ganhar duas medalhas de ouro desde 1908...

Não se lembram?

Talvez agora sim: ela é aquela nadadora que a mídia chamou de “gorda” ano retrasado.

Assim como Rebecca, são muitas as atletas que sofrem com a insegurança corporal. Uma empresa de pesquisa, que entrevistou 110 atletas de elite da Grã-Bretanha, divulgou resultados assustadores: 89% delas disseram que se sentem inseguras com seus corpos e com o fato de eles não corresponderem ao ideal atual de beleza; 67% acreditam que a mídia e o público valorizam mais sua aparência do que suas conquistas esportivas; e, finalmente, mas não menos alarmante, quase 80% das atletas se sentem pressionadas para mudarem seus corpos, o que segundo elas influencia seus regimes de treinamento e seus hábitos alimentares.

Ou seja: muitas atletas, apesar de suas conquistas esportivas, ainda assim estão sendo julgadas por sua aparência, tanto pela mídia quanto pelo público em geral, e também pelos patrocinadores. Isso obviamente está colocando suas performances em risco. É o caso da triatleta Hollie Avil, que se aposentou antes das últimas Olimpíadas devido a um transtorno alimentar. Ela disse que um dos gatilhos para o surgimento da doença foi na adolescência, quando seu treinador a chamou de gorda.

Não sejamos ingênuos: obviamente existem muitos esportes que são considerados de risco para o surgimento de transtornos alimentares, já que “exigem” um determinado tipo de corpo, mais magro, devido à estética da modalidade e aos resultados esperados. Agora, o fato de muitas atletas que já são de elite serem ainda mais cobradas em relação ao seu corpo, inclusive prejudicando sua performance... Isso é ultrajante.

Em 2012 escrevi um outro post sobre as Olimpíadas, veja aqui.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Engorda ou emagrece?


Se numa roda de amigos você jogar no ar a seguinte pergunta: “Fast food engorda?”, a principal resposta que irá ouvir é um sonoro SIM. Mas o que dizer, então, da experiência do professor americano John Cisna? Por três meses, ele se alimentou somente de refeições fornecidas pela cadeia de fast food Mc Donald’s. Teve o cuidado, porém, de não ultrapassar o limite diário de 2000kcal (o que seria o consumo médio indicado para adultos) e de se atentar aos valores de carboidratos, gorduras, proteínas e colesterol recomendados ao dia. Além disso, ele passou a caminhar 45 minutos diariamente, sendo que antes era sedentário. Ao final do período, ele perdeu 16kg e seu colesterol foi de 249mg/dL para 170mg/dL, valor considerado adequado (veja matéria completa aqui).

Não estou aqui fazendo apologia ao fast food ou a qualquer outro alimento, nem tampouco estou afirmando que comer Mc Donald’s por um mês seria uma escolha que eu indicaria: afinal, a dieta é monótona e não conta com diferentes grupos alimentares e nutrientes. Entretanto, o ponto em que quero chegar – e que defendo abertamente – é o seguinte: nenhum alimento ou comida, isoladamente, tem o “poder” de nos engordar ou emagrecer. Tais processos são complexos e dependem da interação de diversos fatores: alimentares, hormonais, genéticos, ambientais... Alimentos simplesmente não engordam ou emagrecem pois tudo depende do contexto em que são consumidos, da frequência, da quantidade e, acima de tudo, de como a pessoa se relaciona com a comida.

Por isso, fico profundamente incomodada com manchetes e apelos de mídia como “chá verde emagrece”, “açúcar é um vilão”, “chia para afinar a cintura”. Tais constatações são reducionistas e simplificam ao extremo o papel dos alimentos na nossa saúde e na nossa vida.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Não existe gordinho saudável"... Será?


A reportagem da revista Veja de 11/12/13, entitulada “Não existe gordinho saudável”, foi categórica: é impossível existir pessoas com sobrepeso e obesidade saudáveis. E ponto final. Além de desconsiderar diversos outros estudos que trouxeram evidências contrárias, alguns já citados no blog (veja aqui e aqui), a revista não trouxe uma análise detalhada e crítica do estudo em que se baseou para fazer tal afirmação.

A reportagem coloca que, segundo a meta-análise em questão, pessoas gordas ou magras que apresentam pressão alta, resistência à insulina e colesterol elevado (ou seja, alterações metabólicas) apresentam maior risco de doenças cardiovasculares. Isso já é sabido e esperado. Mas diz ainda que pessoas gordas sem essas alterações de qualquer modo apresentam maior risco que pessoas magras também sem alterações... Simplesmente por serem gordas! A lógica disso é no mínimo duvidosa. Os autores do estudo justificam que esse maior risco seria pelo fato dos marcadores analisados (pressão sanguínea, colesterol) estarem ligeiramente alterados nas pessoas gordas, mesmo ainda estando dentro dos limites aceitados como normais.

Quando se lê o estudo na íntegra, entretanto, algumas coisas são esclarecidas:

1.Pessoas magras com alterações metabólicas apresentam risco de 3,14 de terem algum problema/evento cardiovascular, ou seja, uma chance 214% maior do que pessoas sem alterações metabólicas. Já pessoas gordas com essas alterações apresentam risco de 2,65. Ou seja, o risco de pessoas gordas com alterações metabólicas foi menor do que o risco de pessoas magras com as mesmas alterações!

2.Pessoas magras ou gordas sem alterações metabólicas: o risco de algum evento cardiovascular entre essas pessoas é bem semelhante, sendo que em pessoas com sobrepeso o risco é 1,21 e em pessoas com obesidade o risco é 1,24. Alguns hão de argumentar: ainda assim, 1,21 é maior que 1, ou seja, o risco é maior! Mas mandar a pessoa fazer dieta, o que provavelmente vai levar ao “efeito sanfona”, pode resultar nas alterações metabólicas que levam ao grande aumento do risco independentemente do peso!!!

Ou seja: o grande problema são as alterações metabólicas, quer a pessoa seja magra ou gorda! Mas os autores do estudo (e a revista nacional) optaram por ressaltar somente uma faceta do estudo...

Não estou dizendo aqui que todo gordo é saudável, mas quero deixar explicitado que nem todo magro também o é, apesar da crença popular. O que quero de fato transmitir é que qualquer pessoa tem o potencial de se tornar saudável independentemente de seu peso, contato que se invista em mudanças de comportamentos e de estilo de vida.

E se mesmo assim algumas pessoas quiserem argumentar que é impossível estar gordo e ser saudável, vamos então tentar eliminar fatores que estão claramente contribuindo para piorar a saúde dos obesos, como por exemplo o estigma da obesidade, inclusive entre profissionais de saúde (este assunto já foi tratado no blog, leia aqui).

Este é o último post do ano! Até janeiro e boas festas!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Como aproveitar melhor as festas de fim de ano


Eu adoro as festas de final de ano. Momento de antecipar as coisas boas que estão por vir no ano seguinte, rever o que aconteceu de importante nesse ano que passou, reencontrar familiares e amigos queridos... E estar na presença da comida. Normalmente bastante comida. Enquanto para alguns isso é tranquilo, para outros pode ser aterrorizante, assim como esse famoso quadro de Edvard Munch.

Para que estas pessoas já possam se preparar, resolvi adiantar este texto com algumas dicas sobre como aproveitar melhor as festas:

1. Pense nas comidas e nos alimentos típicos que mais te geram medo/culpa. De tanto se proibir de comê-los, você pode acabar exagerando. Que tal prepará-los e comê-los nesses dias que ainda faltam para as festas? Assim você reduz o estigma e poderá comê-los com mais tranquilidade na ceia.

2. Pare de pensar no peso que você nem sabe se irá ganhar. É normal comer um pouco a mais durante as festas. Nosso corpo sabe lidar com excessos esporádicos. Se você vier a ganhar um pouco de peso, é bastante provável que o perca quando volta à sua rotina normal, sem precisar se “detoxificar” ou fazer uma dieta para isto.

3. Alimente-se durante os dias 24 e 31/12. Não passe fome o dia todo para poder “caber mais” à noite. Isso vai fazer com que você coma exageradamente e provavelmente mais rápido, sem saborear de verdade a comida. E não era essa a ideia que você tinha em mente quando pensou em fazer isso: seu objetivo era comer mais, mas para aproveitar o que você iria comer.

4. No momento da ceia, observe todos os pratos disponíveis e escolha aquilo que de fato você quer comer. Você não precisa pegar nada que não queira para agradar ninguém. Agrade a si mesmo: monte um prato com as coisas que mais gosta, que normalmente são aquelas que possuem algum significado ou memória alimentar: a farofa fofinha da sua avó, o peru que sua mãe só faz nessa época do ano...; sente-se num local relativamente tranquilo; coma devagar e com prazer.

5. Avalie algumas vezes seu grau de saciedade. Se havia algo que você queria comer mas já está um pouco cheio, não se preocupe: você pode pegar um pouco e guardar para o dia seguinte. Perceba se está pegando a terceira sobremesa porque de verdade a quer ou se já está cedendo ao pensamento “já que”: “já que comi tudo isso, que mal faz um pouco mais...”

6. A comida é parte importante das festas, mas existem outras coisas além dela. Perceba que as celebrações de fim de ano não se resumem só à comida: monte uma decoração bacana na sua casa, compre uma bela toalha de mesa para a ceia, monte suia lista de metas para 2014 e pense em incluir nela uma meta para melhorar seu autocuidado: começar uma nova atividade física prazerosa, fazer um curso, comer uma fruta todo dia, fazer massagem uma vez ao mês...

Vou adorar ouvir outras sugestões bacanas!