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quarta-feira, 22 de junho de 2016

O corpo é seu!



Hoje divulguei na página do Facebook do blog uma propaganda de uma linha americana de roupas plus size falando sobre gordofobia e sobre como pessoas obesas – em especial mulheres – pelo menos uma vez na vida já se sentiram desvalorizadas e incapazes de alcançarem seus sonhos e objetivos, exatamente por terem um corpo mais gordo (veja o vídeo aqui).
Muitas pacientes que eu atendo – pra não dizer todas –, independentemente do tamanho de seus corpos, já se sentiram ou se sentem inadequadas na pele em que habitam. Não só por não corresponderem às múltiplas exigências de um padrão de beleza extremamente rígido, mas também por ouvirem quase todos os dias comentários que menosprezam e depreciam seus corpos. Muitas vezes, são comentários sutis, verbalizados por pessoas próximas (colegas de trabalho, amigos, maridos, pais, etc):
“Você tem um rosto tão lindo, ficaria ainda mais bonita se perdesse só uns 2 kg...”
“Querida, não acho que deva usar essa roupa, ela não te favorece...”
“Nossa, você está barrigudinha hein...”

Acredito que muitas pessoas que fazem esse tipo de comentário não fazem ideia do impacto deletério que eles têm sobre quem está ouvindo, especialmente se for uma pessoa que já apresente questões de autoestima. Nosso self talk - a linguagem mental que usamos para nos referir a nós mesmos, nossa autocrítica - já é tão negativo, somos tão críticos e exigentes conosco mesmo, que acabamos externalizando isso e atingindo aqueles que nos cercam. E quando uma pessoa ouve muitas vezes comentários como os descritos acima, ela passa a acreditar neles e sua visão a respeito de si própria se torna ainda mais negativa.
Quando as pacientes me trazem esses relatos, do que foi dito a respeito do corpo delas, eu sempre questiono como elas reagiram. A maioria diz que não conseguiu dizer nada, com receio de parecer indelicada... E, afinal, fulano não falou por mal/ele só quis ajudar/ele tem razão...
Digo a elas que ninguém tem o direito de fazer comentários inapropriados sobre o corpo delas, não importando a intenção que está por trás (não consigo entender como alguém que deprecia o corpo alheio acredita que tal comentário possa ajudar, mas enfim...). O corpo é seu. Só você sabe o que é viver nele, suas limitações, seus valores, o prazer que ele te gera. Se alguém fizer um comentário que te desagrada, experimente ser assertiva e diga que não se sentiu bem/confortável com o que foi dito. Não tenha receio de defender aquilo que é mais fundamental à sua vida: seu corpo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Eu me sinto gorda(o)"

"Olhe para essa barriga. Devo estar ficando fabulosa!"
 
Se eu ganhasse um real toda vez que ouvisse essa frase ou mesmo variações dela (“eu me acho gorda
(o)”, “eu tô obesa(o)”, etc.) eu provavelmente estaria rica. Ouço no consultório, na academia, na aula de dança, na sala de ginástica do meu prédio, no restaurante comendo com alguém, no almoço de família aos domingos, no ônibus, no metrô, na sala de espera do médico...

Não é segredo que a mídia hoje propaga um padrão de corpo e beleza que é inatingível pela maioria das pessoas. O papel da mídia é esse: vender insatisfação para que nós compremos os meios que “aparentemente” nos levarão à satisfação: cremes, maquiagens, kits e livros de dieta, suplementos, “alimentos milagrosos”, planos de academia, cirurgias e pacotes estéticos, e por aí vai. Numa sociedade que a todo momento prega um padrão rígido de corpo, sem valorizar as diferenças entre os diferentes biotipos possíveis, não é incomum nos sentirmos inadequados em nossa própria pele, em nossa própria casa. Então, sempre sugiro às pessoas que, quando vier o pensamento automático “eu me sinto gorda(o)”, elas deixem de lado a autocritica e reflitam: gorda(o) em comparação a que?
Com o padrão inflexível e manipulado promovido aí fora?

Mas o sentir-se gordo por vezes revela algo mais. Revela emoções sobre si ou insatisfações em outras áreas da vida, que por não conseguirem ser expressadas de uma maneira mais saudável acabam se depositando no corpo. Eu sempre brinco com meus pacientes que “gordo” não é sentimento, então peço para que eles tentem preencher a lacuna do que de fato estão sentindo. E não é à toa que os dias em que nos sentimos piores conosco mesmo são os dias em que já não estamos muito bem de humor, por exemplo: aquele dia em que acordamos chateados, ou que tivemos algum problema em casa ou no trabalho... O quadrinho abaixo ilustra bem essa questão.



Uma psicóloga americana que gosto, chamada Nina Savelle-Rocklin (veja seu site aqui), diz ainda que sentir-se gorda(o) por vezes está relacionado à intensidade da emoção ou sentimento, ou seja, qualquer julgamento que tenhamos sobre nós e que seja exacerbado pode levar a essa interpretação de “estou muito gorda(o)”: me sinto tímida(o) demais, falante demais, inteligente demais...
Por isso, tente não acreditar imediatamente em seus autojulgamentos e em sua autocrítica. Tente observar com curiosidade qual filtro está sendo utilizado em seu olhar para si próprio. E tente sentir e entender suas emoções. Sem medo, com gentileza e compaixão.

Boa semana a todos!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Se Dê Conta 2015

Como muitos já sabem, eu faço parte de um grupo incrível de nutricionistas (e uma educadora física!) chamado Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares e Obesidade, o GENTA. Todo ano, fazemos uma campanha chamada “Se Dê Conta”, que visa aumentar a conscientização sobre os transtornos alimentares e incentivar sua prevenção. Esse ano, a campanha que teve início dia 24/10 e vai até 31/10 consiste em postarmos fotos e frases (em modo público) no Facebook mostrando o que fazemos por um mundo sem neuras, usando a hashtag #sedecontasemneuras. Quando falo em “neuras”, estou me referindo ao terrorismo nutricional, à estigmatização de corpos, à prática indiscriminada de dietas, ao uso assustador de suplementos alimentares (até mesmo os sem comprovação científica), à prática de atividade física puramente para queimar calorias, e não por prazer... E por aí vai!!

Poste uma foto inspiradora em seu perfil do Facebook (lembre-se: em modo público!) e o Genta vai compartilhar em sua fanpage (veja aqui e aproveite para curtir a página!)

Vejam as fotos que já postei no meu perfil essa semana e mais uma extra, especial aqui para o blog!



 
Meu peso é só um número. Ele não determina meu valor como pessoa, meu sucesso ou minha saúde. #s‪edecontasemneuras
 


Não faço a atividade física que queima mais calorias, e sim aquela que me faz sentir bem e conectada com meu corpo! #sedecontasemneuras


E ainda postarei mais uma amanhã em meu Face!

Reflitam, participem , e cultivem uma vida sem neuras!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Doses homeopáticas de inspiração

Hoje trago neste post alguns vídeos bastante informativos e inspiradores, que promovem uma reflexão crítica acerca dos temas corpo, padrões de beleza, saúde e comida. São vídeos curtos, de no máximo 15 minutos, vale a pena assistir! Alguns possuem legendas em português, outros infelizmente não (mas o Youtube oferece a opção de legendas em inglês). Aproveitem e reflitam!

Cultivando o equilíbrio mental e emocional; por Alan Wallace


Alan Wallace é um grande estudioso e um dos maiores tradutores/intérpretes do Budismo tibetano no mundo ocidental. Nesse vídeo, ele fala sobre os benefícios do mindfulness (atenção plena) no cultivo do equilíbrio mental e emocional e de estados mentais positivos.

Emoções positivas expandem nossa mente; por Barbara Fredrickson


Barbara Fredrickson é um dos grandes nomes na área da Psicologia Positiva, e neste vídeo ela aborda como o cultivo de emoções positivas nos torna mais conscientes do mundo à nossa volta e nos torna mais compassivos. Para quem tiver interesse, ela ministra um ótimo curso online de Psicologia Positiva no portal Coursera, e é grátis. Veja aqui. 

Aparência não é tudo. Acreditem, sou modelo; por Cameron Russell


A modelo Cameron Russell, que admite ter ganhado uma “loteria genética” promove um debate sobre os padrões de beleza vigente e sobre a glamourização do culto ao corpo e à imagem.

Doug na balança; episódio do desenho animado Doug Funnie


Quem, como eu, se divertia muito com esse desenho animado na infância vai gostar desse vídeo, que mostra a obsessão que a prática de dietas promove e o quanto o estigma da obesidade nos afasta daquilo que realmente importa: a conexão entre seres humanos e o desejo comum a todos de sermos felizes!

De repente, meu corpo; por Eve Ensler


A ativista feminista Eve Ensler, autora da famosa peça “Monólogos da vagina” (encenada mundialmente), conta nesse vídeo sobre como esteve desconectada de seu corpo por muitos anos e de que forma ocorreu sua “volta para casa”. Ela fala sobre a mudança de paradigma que o respeito ao próprio corpo pode trazer às nossas vidas.  

Porque é OK ser gordo; por Golda Poretsky


A ativista do movimento Health at Every Size explica porque as dietas não funcionam e porque ser gordo não é em si um problema. Ela traz referências de estudos que comprovam que as pessoas podem ser saudáveis em qualquer tamanho, a depender de seu estilo de vida e dos comportamentos de saúde adotados.

Nutricionista; por Porta dos Fundos




Finalmente, dois vídeos sobre (e para) os nutricionistas, que mostra por meio do humor a mediocrização da Nutrição quando reduzida a uma profissão simplesmente “emagrecedora” e que leva em conta somente o papel biológico da comida, esquecendo suas funções culturais, sociais, emocionais e afetivas. 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O que é beleza para você?

Tenho achado muito interessante refletir e estudar sobre como é construída a noção que temos do que é belo ou não para nós. Ou seja: porque olhamos para determinadas coisas/pessoas e obtemos aquela reação agradável e prazerosa que nos diz: “hum, isso eu acho bonito”.

Como diz o ditado, “a beleza está nos olhos de quem vê”, isto é, aparentemente é algo subjetivo que muda de pessoa para pessoa e que muda de tempos em tempos. Entretanto, em todas as épocas, existem padrões de beleza que são construídos com base em questões políticas e culturais e que determinam o que uma grande maioria acha belo. Muitos já ouviram falar, por exemplo, que na Antiguidade e na Idade Média era visto como belo o corpo curvilíneo, que hoje chamaríamos de “cheinho” ou mesmo de “gordo”. Quando viajei para Nova Iorque esse ano, para a Conferência Internacional de Transtornos Alimentares da AED, não pude deixar de tirar a foto abaixo no Metropolitan Museum of Art, retratando o corpo valorizado na Antigo Egito.


Trazendo para um período mais atual, sabe-se que nos anos 60, com o crescimento do movimento feminista, começou a surgir um novo padrão de beleza para o corpo feminino: o corpo magro, andrógino, que buscava ser mais semelhante ao do homem (ao menos na aparência), representado pela modelo Twiggy.


Esse novo corpo que passou a ser valorizado foi uma reação do movimento feminista ao padrão curvilíneo e sensualizado que vigorava, basta lembrar de Marilyn Monroe. Ironicamente, o corpo magro que tinha como objetivo “libertar” a mulher do estereótipo de sex symbol vem sendo usado atualmente para "aprisioná-la" no mundo das dietas e dos transtornos alimentares...


Padrões de beleza sempre vão existir, pois muita gente lucra horrores com eles; basta ver as inúmeras indústrias da dieta e da beleza hoje em dia, que ganham com a nossa insatisfação vendendo a “solução” para nossos problemas: um novo shake, uma nova dieta, uma nova cinta, uma nova maquiagem...

Não estou questionando qual padrão é melhor ou pior, apenas refletindo se não podemos nos abrir para valorizar a beleza que cada um traz consigo. Nosso olhar para o belo depende muitas vezes do quanto nos abrimos para o que é diferente e do quanto nos abrimos para questionar e criticar o padrão que criamos em nossa mente. Enxergar algo como belo não é simplesmente "natural", depende de um esforço ativo da nossa parte para aceitar que as pessoas podem se tornar belas por aquilo que representam em nossas vidas (vejam esse belo texto) e pela maneira como expressam toda sua potencialidade por onde quer que passem. Quantas vezes já não ouvimos a seguinte frase: “aquele/a moço/a é bem bonito/a, mas é tão chato/a...”? E quantas vezes, ao acordarmos de bem com a vida pela manhã, não ficamos “surpresos” por nos acharmos mais bonitos, enquanto que naqueles dias em que desejamos nem termos levantado da cama não podemos nem passar diante do espelho?

É por isso que a minha resposta para o título deste post é a seguinte: beleza, para mim, é um estado de espírito.

domingo, 1 de junho de 2014

Buscando novos olhares


Esses dias assisti a um breve documentário italiano (veja aqui) chamado “Il corpo delle donne” (“O corpo das mulheres”). A produtora – e narradora – analisa a representação da mulher pela mídia televisiva italiana, colocando que a presença feminina serve quase que somente para contentar os desejos masculinos. O vídeo mostra que a mulher foi reduzida a um mero objeto sexual, lutando contra o tempo por meio de diversas intervenções cirúrgicas. A mensagem mais marcante que fica é que as mulheres não são mais autênticas porque talvez não reconheçam mais seus próprios desejos, aqueles mais profundos. “O espelho serve muitas vezes para esconder ao invés de revelar”.

Pensei muito sobre o documentário durante a semana, pois de fato estamos mergulhados num mundo de imagens manipuladas, imagens que sedam e seduzem. Sedam porque começamos a buscar nas pessoas reais algo que não é comum a elas, aquela beleza “excepcional” que as imagens retocadas e “photoshopadas” revelam; seduzem porque são imagens glamourizadas, que transmitem a ideia de que tudo é possível mediante o consumo de determinados produtos e de que a vida certamente é melhor quando se encaixa em um determinado padrão de beleza vigente. Isso é tão sério e tão real a ponto de existirem pessoas que baseiam o valor de seu dia (talvez não de forma consciente) com base naquilo que enxergam no espelho pela manhã: se a imagem agrada, o dia corre bem; se não, é uma sucessão de fracassos. Um paciente meu, por exemplo, espantou-se quando eu neguei ficar me observando nua no espelho após uma festa pra ver o “tamanho do estrago” que aquilo que eu comi gerou em meu corpo. Pra ele isso era algo comum, trivial, e pior de tudo: normal.

Aproveito para transcrever aqui o trecho de um texto que gosto muito e que tem tudo a ver com este tema, cujo título é “Outro olhar, outra visão”:

“Vivemos sob o signo do olhar, sob o impacto da imagem, da sociedade do espetáculo. Nunca como hoje o olhar adquiriu tanta soberania e status diante dos outros sentidos; no entanto, é o sentido mais violentado pela quantidade de imagens despejadas sobre nós a todo momento. O ser humano primitivo tinha um olhar limitado pelas suas necessidades; já o ser humano moderno, devido à complexidade da vida, ao progresso da ciência e da tecnologia, está ficando com um olhar truncado pelas imposições artificiais criadas; cerceado em sua visão, ele não sente a realidade; agredido pelo acúmulo de imagens, ele não se deixa afetar por nenhuma delas. Vê tudo e não olha nada. Treinado para ver o mundo através da lente das grandes redes de poder, de manipulação e de acordo com seus interesses, o olhar estreita-se, o mundo torna-se opaco e a superficialidade da visão não capta o mistério das coisas e das pessoas. Marcada pelo olhar do racionalismo, a pessoa tudo examina, compara, esquadrinha, mede, separa... Mas nunca exprime. Daí o olhar reprimido, insensível, frio, duro, ríspido. Este é o pecado contra o olhar: olhar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno e sem vibração... Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que fixa, escraviza e aliena. Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo.” (Padre Adroaldo Palaoro, SJ)

Que possamos todos sentir mais e olhar menos; que possamos acalmar a expectativa do nosso olhar; que possamos ver os outros – e a nós mesmos – com os “olhos do coração”.

Boa semana!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Quando o corpo ideal ameaça o esporte


Acredito que muitos se lembram desta ex-nadadora inglesa, Rebecca Adlington, que ganhou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas de 2008 e duas de bronze nas Olimpíadas de 2012. A primeira nadadora do país a ganhar duas medalhas de ouro desde 1908...

Não se lembram?

Talvez agora sim: ela é aquela nadadora que a mídia chamou de “gorda” ano retrasado.

Assim como Rebecca, são muitas as atletas que sofrem com a insegurança corporal. Uma empresa de pesquisa, que entrevistou 110 atletas de elite da Grã-Bretanha, divulgou resultados assustadores: 89% delas disseram que se sentem inseguras com seus corpos e com o fato de eles não corresponderem ao ideal atual de beleza; 67% acreditam que a mídia e o público valorizam mais sua aparência do que suas conquistas esportivas; e, finalmente, mas não menos alarmante, quase 80% das atletas se sentem pressionadas para mudarem seus corpos, o que segundo elas influencia seus regimes de treinamento e seus hábitos alimentares.

Ou seja: muitas atletas, apesar de suas conquistas esportivas, ainda assim estão sendo julgadas por sua aparência, tanto pela mídia quanto pelo público em geral, e também pelos patrocinadores. Isso obviamente está colocando suas performances em risco. É o caso da triatleta Hollie Avil, que se aposentou antes das últimas Olimpíadas devido a um transtorno alimentar. Ela disse que um dos gatilhos para o surgimento da doença foi na adolescência, quando seu treinador a chamou de gorda.

Não sejamos ingênuos: obviamente existem muitos esportes que são considerados de risco para o surgimento de transtornos alimentares, já que “exigem” um determinado tipo de corpo, mais magro, devido à estética da modalidade e aos resultados esperados. Agora, o fato de muitas atletas que já são de elite serem ainda mais cobradas em relação ao seu corpo, inclusive prejudicando sua performance... Isso é ultrajante.

Em 2012 escrevi um outro post sobre as Olimpíadas, veja aqui.

sábado, 2 de novembro de 2013

Como aceitar meu corpo se eu fico mais bonito/a mais magro/a?


Está é uma pergunta que costumo escutar bastante no consultório, quando tento trabalhar autoaceitação como forma de melhorar o autocuidado. Vamos refletir sobre como aceitar mais o corpo:

1. Desafie suas crenças: isto de fato é verdade?

As pessoas/mídia repetem tantas vezes que magreza = beleza que muitas vezes nós não desafiamos este “senso-comum”. Você de fato acredita que fica mais bonito/a mais magro/a? Ou será que seu olhar está tão viciado naquilo que você gostaria que seu corpo fosse (de forma a se encaixar no padrão do que é belo) que não consegue enxergar as belezas (mesmo que sutis) de seu próprio corpo?

A beleza depende do olhar de quem vê e, portanto, do seu julgamento sobre aquilo que vê. Aceitar seu corpo depende de uma atitude positiva que tem que partir de si próprio. Esteja aberto para buscar recursos que valorizem outros tipos de beleza, que valorizem a beleza presente na diversidade de corpos existentes:

- Busque fotos de modelos plus-size
- Veja os sites de movimentos como “The Body Positive” e “The Body Project”
- Compre roupas novas que façam você se sentir bem; afinal, é impossível aceitar seu corpo com algo extremamente apertado te incomodando
- Conscientize-se sobre a manipulação das imagens divulgadas pela mídia: lembre-se que por trás das imagens existem maquiadores, cabeleireiros, luzes artificiais colocadas no lugar certo, Photoshop...

2. Pare de se vitimizar

Pare de acreditar que seu corpo é a única coisa “errada” em sua vida atualmente. Pense:

- no que você pode fazer hoje, independentemente de seu peso, para trazer mais sentido à sua existência
- em como buscar realização pessoal sem ser por meio do emagrecimento

Reveja suas vontades e sonhos e saia em busca deles agora. Você não precisa esperar o “corpo ideal” para começar a viver sua vida.

3. Acredite na importância da aceitação corporal para seu bem-estar (e, quem sabe, emagrecimento)

Gostar um pouco mais do seu corpo pode catalisar mudanças duradouras nos hábitos de saúde. Quem se gosta se cuida melhor, pois de fato se sente merecedor de cuidado. Não conheço nenhum estudo que diga que quem se odeia emagrece mais ou tem uma saúde melhor. Mas conheço estudos que dizem o contrário.

Bom final de semana a todos!

sábado, 19 de outubro de 2013

Se Dê Conta 2013: Semana de Conscientização Sobre Transtornos Alimentares e Obesidade

Como alguns leitores já sabem, eu faço parte do Genta – Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares. Somos nutricionistas (e temos a honra de contar com a participação de uma educadora física no grupo!) que estudam e trabalham com transtornos alimentares e que questionam os padrões de beleza e a definição do que é de fato uma alimentação saudável.

Todo ano, organizamos o “Se Dê Conta: Semana de Conscientização Sobre Transtornos Alimentares e Obesidade”, que é um período no qual nos mobilizamos para de alguma forma alertar o público sobre a seriedade dos transtornos alimentares e sobre e os fatores que contribuem para o surgimento e manutenção dessas doenças, como por exemplo a propagação e internalização de ideais de beleza e alimentação.

No “Se Dê Conta 2013”, a ideia é usar as redes sociais (Facebook do Genta e Instagram @sedeconta) para postar imagens contestadoras sobre imagem corporal, padrão de beleza e alimentação saudável. Vejam o cartaz de chamada:


Nesta semana que passou, nós, integrantes do Genta, divulgamos as nossas próprias fotos para “servirem de exemplo”. Eu resolvi tirar foto da minha barriga (parte do meu corpo que eu não gosto tanto) com a palavra “herança” escrita nela. Sim, porque afinal ela é igual a da minha mãe (que também saiu em uma das fotos)! E reconhecer isso melhorou a relação que eu tenho com meu corpo e minha barriga.



E abaixo estão algumas outras fotos que já foram divulgadas na página do Genta no Facebook:


E vocês, o que estão esperando?? Tirem já suas fotos e mandem pra nós!!! As instruções estão no cartaz.

Participem conosco dessa “revolução”!!!

sábado, 6 de agosto de 2011

Magreza não é sinônimo de nada: meu relato

Uma dissertação de mestrado defendida recentemente na Faculdade de Saúde Pública concluiu: para garotas obesas, ser magra é sinônimo de aceitação e sucesso. Não que isso seja novidade, provavelmente todos nós já ouvimos ou já pensamos a respeito dessa associação alguma vez na vida. Afinal, todos os dias somos lembrados pela mídia e pela sociedade em geral que é melhor ser magro, e não importa a justificativa: vaidade, beleza, confiança, sucesso profissional, saúde. É um ataque sutil, mas que está contribuindo para abalar a auto-estima de milhões de pessoas no mundo todo.
Eu mesma já sofri com meu corpo. Apesar de ter sido bem magra durante a infância e o início da adolescência, sempre tive uma "barriguinha saliente" que me incomodava bastante. Quando tirei as fotos abaixo do fundo do baú, nem pude acreditar no corpo que vi!




Ao longo da adolescência, coloquei na cabeça que se eu emagrecesse e perdesse a "barriguinha" seria "mais": mais popular, mais bonita, mais aceita. Além da dança, que sempre foi minha paixão, comecei a frequentar a academia e a fazer musculação todos os dias, com apenas treze anos. Comecei a regular e controlar minha alimentação. Felizmente, a situação não evoluiu e não se agravou tanto a ponto de eu prejudicar minha saúde e desenvolver uma doença, como por exemplo um transtorno alimentar. Mas essa espécie de "obsessão" tomou conta de muito do meu tempo, que eu poderia ter usado para alguma outra coisa certamente melhor e mais útil.
Enfim, o que passou passou, mas a questão é a seguinte: eu alcancei o meu objetivo? Não e sim. Não perdi a "barriguinha", até porque ela é uma caracterísitca genética da qual hoje eu tenho orgulho: minha mãe tem, minha avó tem... E isso faz parte da minha herança, de quem eu sou. Eu inclusive ganhei um pouco de peso ao longo da adolescência, por conta das questões hormonais e também porque eu passei a ter uma relação mais saudável com a alimentação, deixei de fazer restrição. Mas eu me tornei sim mais "popular", mais sociável e mais bonita de corpo e alma. Eu mudei quando a minha atitude mudou, quando eu resolvi impor meu espaço no universo e quando eu resolvi confiar mais em mim mesma. Porque a auto-estima não depende quase nada da forma do nosso corpo. Muitos outros fatores podem ajudar a melhorá-la: apoio e suporte familiar, amizades, estudo, trabalho, espiritualidade e a nossa própria individualidade, aquilo que justamente nos torna diferente dos outros. Afinal, o que todos temos em comum são as nossas diferenças.
E hoje eu sou assim, feliz da vida, e com o corpo mais "cheio": cheio de amor, paz de espírito e vontade de viver!