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quarta-feira, 22 de junho de 2016

O corpo é seu!



Hoje divulguei na página do Facebook do blog uma propaganda de uma linha americana de roupas plus size falando sobre gordofobia e sobre como pessoas obesas – em especial mulheres – pelo menos uma vez na vida já se sentiram desvalorizadas e incapazes de alcançarem seus sonhos e objetivos, exatamente por terem um corpo mais gordo (veja o vídeo aqui).
Muitas pacientes que eu atendo – pra não dizer todas –, independentemente do tamanho de seus corpos, já se sentiram ou se sentem inadequadas na pele em que habitam. Não só por não corresponderem às múltiplas exigências de um padrão de beleza extremamente rígido, mas também por ouvirem quase todos os dias comentários que menosprezam e depreciam seus corpos. Muitas vezes, são comentários sutis, verbalizados por pessoas próximas (colegas de trabalho, amigos, maridos, pais, etc):
“Você tem um rosto tão lindo, ficaria ainda mais bonita se perdesse só uns 2 kg...”
“Querida, não acho que deva usar essa roupa, ela não te favorece...”
“Nossa, você está barrigudinha hein...”

Acredito que muitas pessoas que fazem esse tipo de comentário não fazem ideia do impacto deletério que eles têm sobre quem está ouvindo, especialmente se for uma pessoa que já apresente questões de autoestima. Nosso self talk - a linguagem mental que usamos para nos referir a nós mesmos, nossa autocrítica - já é tão negativo, somos tão críticos e exigentes conosco mesmo, que acabamos externalizando isso e atingindo aqueles que nos cercam. E quando uma pessoa ouve muitas vezes comentários como os descritos acima, ela passa a acreditar neles e sua visão a respeito de si própria se torna ainda mais negativa.
Quando as pacientes me trazem esses relatos, do que foi dito a respeito do corpo delas, eu sempre questiono como elas reagiram. A maioria diz que não conseguiu dizer nada, com receio de parecer indelicada... E, afinal, fulano não falou por mal/ele só quis ajudar/ele tem razão...
Digo a elas que ninguém tem o direito de fazer comentários inapropriados sobre o corpo delas, não importando a intenção que está por trás (não consigo entender como alguém que deprecia o corpo alheio acredita que tal comentário possa ajudar, mas enfim...). O corpo é seu. Só você sabe o que é viver nele, suas limitações, seus valores, o prazer que ele te gera. Se alguém fizer um comentário que te desagrada, experimente ser assertiva e diga que não se sentiu bem/confortável com o que foi dito. Não tenha receio de defender aquilo que é mais fundamental à sua vida: seu corpo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Eu me sinto gorda(o)"

"Olhe para essa barriga. Devo estar ficando fabulosa!"
 
Se eu ganhasse um real toda vez que ouvisse essa frase ou mesmo variações dela (“eu me acho gorda
(o)”, “eu tô obesa(o)”, etc.) eu provavelmente estaria rica. Ouço no consultório, na academia, na aula de dança, na sala de ginástica do meu prédio, no restaurante comendo com alguém, no almoço de família aos domingos, no ônibus, no metrô, na sala de espera do médico...

Não é segredo que a mídia hoje propaga um padrão de corpo e beleza que é inatingível pela maioria das pessoas. O papel da mídia é esse: vender insatisfação para que nós compremos os meios que “aparentemente” nos levarão à satisfação: cremes, maquiagens, kits e livros de dieta, suplementos, “alimentos milagrosos”, planos de academia, cirurgias e pacotes estéticos, e por aí vai. Numa sociedade que a todo momento prega um padrão rígido de corpo, sem valorizar as diferenças entre os diferentes biotipos possíveis, não é incomum nos sentirmos inadequados em nossa própria pele, em nossa própria casa. Então, sempre sugiro às pessoas que, quando vier o pensamento automático “eu me sinto gorda(o)”, elas deixem de lado a autocritica e reflitam: gorda(o) em comparação a que?
Com o padrão inflexível e manipulado promovido aí fora?

Mas o sentir-se gordo por vezes revela algo mais. Revela emoções sobre si ou insatisfações em outras áreas da vida, que por não conseguirem ser expressadas de uma maneira mais saudável acabam se depositando no corpo. Eu sempre brinco com meus pacientes que “gordo” não é sentimento, então peço para que eles tentem preencher a lacuna do que de fato estão sentindo. E não é à toa que os dias em que nos sentimos piores conosco mesmo são os dias em que já não estamos muito bem de humor, por exemplo: aquele dia em que acordamos chateados, ou que tivemos algum problema em casa ou no trabalho... O quadrinho abaixo ilustra bem essa questão.



Uma psicóloga americana que gosto, chamada Nina Savelle-Rocklin (veja seu site aqui), diz ainda que sentir-se gorda(o) por vezes está relacionado à intensidade da emoção ou sentimento, ou seja, qualquer julgamento que tenhamos sobre nós e que seja exacerbado pode levar a essa interpretação de “estou muito gorda(o)”: me sinto tímida(o) demais, falante demais, inteligente demais...
Por isso, tente não acreditar imediatamente em seus autojulgamentos e em sua autocrítica. Tente observar com curiosidade qual filtro está sendo utilizado em seu olhar para si próprio. E tente sentir e entender suas emoções. Sem medo, com gentileza e compaixão.

Boa semana a todos!

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Se sentir bem para mudar ou mudar para se sentir bem?



Essa semana atendi pela primeira vez um jovem com transtorno alimentar que, ao me contar sua história, disse que um dos fatores precipitantes para o início da doença foi o comentário de sua professora, após ele sofrer bullying dos colegas devido a seu peso: “Sabe, fulaninho, talvez você possa conversar com seus pais, tentar emagrecer um pouco, pois na verdade ninguém gosta mesmo de pessoas gordas... Vai ser pro seu bem.”

Ainda não consigo entender a lógica perversa – e extremamente arraigada em nossa sociedade – de fazer alguém se sentir mal, acreditando que isso vai então “motivá-lo” a mudar. Segundo teorias da Entrevista Motivacional, motivação vem do quanto o indivíduo percebe a mudança como importante para sua vida e do quanto ele se sente confiante em poder executá-la. Difícil imaginar que uma pessoa se sinta confiante ouvindo todos os dias a mensagem de que é inadequada... Talvez precisemos primeiro nos respeitar e nos sentir melhor sendo quem nós somos hoje, independentemente do nosso peso, para então poder mudar comportamentos. E não mudar (que para muita gente é sinônimo de “emagrecer”) para só então nos gostarmos... Esse caminho parece não fazer tanto sentido quando abraçamos a ideia de que somos dignos de respeito e acolhimento simplesmente por existirmos.

Outra coisa que me incomoda: já ouvi um colega profissional da saúde dizendo que “o problema do gordo é que ele não se enxerga. Se ele de fato soubesse o quão gordo ele é, se esforçaria mais para emagrecer”. Quer o obeso se perceba ou não como tal, emagrecer não é algo que simplesmente dependa do esforço e desejo individuais, e sim um processo complexo que envolve uma série de fatores que, em sua maioria, não podem ser controlados pelo indivíduo. Ser gordo não é uma escolha para a maioria das pessoas, embora possa ser para algumas, especialmente para aquelas que se tornam ativistas pelo respeito do indivíduo não importando seu tamanho. E na realidade, grande parte dos obesos sabe sim que está gordo, vivendo em meio à gordofobia e ao estigma da obesidade seria quase impossível não se dar conta. Alguns, de fato, podem subestimar um pouco seu tamanho corporal, o que está relacionado com aspectos de processamento neural da imagem corporal (veja aqui) e também com a dificuldade de se assumir gordo numa sociedade que despreza quem se encaixa nessa categoria. Ou seja, algumas pessoas entram em negação em relação ao seu peso porque, se de fato se assumissem/percebessem como gordas, suas vidas poderiam se tornar bem mais difíceis e hostis.

Proponho refletirmos sobre a ideia de que precisamos mudar para só então nos sentirmos bem conosco. Você merece se sentir bem hoje, pelo simples fato de ser humano e, portanto, falível. Quem sabe, então, ao se sentir mais digno e merecedor, não consegue mudar aquilo que tanto te incomoda? Como diz o ditado: somos perfeitos em nossa imperfeição.  

domingo, 30 de novembro de 2014

Apenas um corpo...


Dia desses numa roda de amigos, ouço um papo trivial:

“Nossa, quanto tempo! Como você está?”
“Ótima, e você?”
“Também!”
“Esses dias lembrei mesmo de você, vi aquele seu amigo, o Fulano...”
“Qual Fulano? Aquele ‘saradão’?”

Essa conversa me fez pensar por alguns instantes. Provavelmente, esta última pessoa conhecia dois Fulanos, e na tentativa de identificar sobre qual deles estava se falando, ela fez uma referência explícita ao seu corpo. E não se referiu, por exemplo, à cor dos olhos ou à altura de Fulano, que são características naturais e imutáveis; não se referiu também a seus gostos pessoais ou seus traços de personalidade (“qual Fulano, aquele advogado?” ou “qual Fulano, aquele engraçado/mal humorado?”).

Foi aí que eu percebi que talvez Fulano tenha se tornado um molde. Fulano agora será lembrado por aquilo que ele aparenta ser: apenas um corpo.

Não quero aqui moralizar quem valoriza o cuidado estético do corpo; afinal, como o próprio título do blog diz, o corpo é de cada um, cada um tem sua verdade sobre o que é melhor e mais desejado para si próprio. Mas eu particularmente não gostaria de ser lembrada como “a Carol, aquela gorda/magra/sarada/peituda/sem peitos”. Isso me afastaria da essência de quem eu de fato sou, dos meus valores e, mais importante, daquilo que é mais importante em minha vida.

Amo e respeito meu corpo, ele é minha morada sagrada, é ele que me permite transitar pela minha existência. Mas acredito que amar e cuidar do corpo seja diferente de transformá-lo em um “altar de idolatria”.

Espero um dia, então, ser lembrada como “a Carol, aquela moça que valoriza a família/que gosta de comer boa comida/que faz aulas de dança/que gosta bastante de ler”.

Que é feliz.

sábado, 1 de novembro de 2014

“Gente gorda não tem noção mesmo”


São Paulo, uma manhã dessas. Calor de 29oC já às 9h da manhã. Sentada no metrô, vejo uma moça obesa entrando, bem bonita inclusive. A senhora ao meu lado comenta: “gorda desse jeito e ainda usando essa calça colada!”. Finjo que não era comigo e seguimos viagem.

A fala acima não é incomum. Aposto que você já ouviu algumas variações dela, e principalmente dirigida a mulheres:

“Nossa, gente gorda não tem noção mesmo!” (comentário proferido ao ver uma mulher gorda usando minissaia, por exemplo)

“As pessoas têm que entender que certas coisas simplesmente não caem bem em determinados tipo de corpo.”

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que as frases acima são extremamente preconceituosas e só reforçam o estigma da obesidade, tema já tratado anteriormente aqui nesse blog. Uma evidência clara do teor preconceituoso desses comentários é que muito provavelmente eles não seriam dirigidos a pessoas magras que estivessem usando uma calça colada, uma minissaia, uma blusa mais curta...

Em relação ao primeiro exemplo, sobre “falta de noção” dos obesos, a afirmativa pode muitas vezes ser verdadeira. Explico: diversos estudos, como este e este mostram que pessoas com sobrepeso ou obesidade têm a tendência de subestimar seu peso e tamanho corporais, ou seja, muitos não se percebem como gordos. Alguns estudiosos da área sugerem uma explicação para tal fato: o estigma da obesidade é tão forte e tão presente em nossa sociedade que não enxergar o corpo como gordo pode trazer um certo “alívio” no convívio diário com si mesmo e os outros. Seria uma espécie de “mecanismo de defesa” contra o sofrimento que vem do estigma.

Alguns diriam: “Ah, mas se a pessoa não se enxerga gorda, como ela vai adotar comportamentos que tragam benefícios à saúde?”

Em primeiro lugar, precisamos entender que o peso/tamanho do nosso corpo não é o único motivador para que pessoas adotem comportamentos saudáveis. E não podemos determinar o estado de saúde de alguém com base em seu peso, isso seria novamente o estigma da obesidade em ação. Afinal, existem muitos magros que comem de forma não saudável e gordos que, por sua vez, o fazem.

Em segundo lugar, será mesmo que ter uma noção mais clara do tamanho do corpo – o que no caso de obesos implica provavelmente em sentir-se mais “inadequado” – influencia positivamente na saúde? Este estudo encontrou que a diferença entre o peso atual e o desejado parece ser um preditor mais forte de saúde física e mental do que o IMC. Ou seja, muitas vezes, o sentir-se inadequado em nossos corpos influencia mais no surgimento de consequências negativas à saúde do que o peso em si. Já esta pesquisa mostrou que pais que identificavam seus filhos como tendo sobrepeso ou obesidade não estavam mais propensos do que pais que não identificavam corretamente seus filhos a adotar determinados comportamentos de saúde, como ofertar mais frutas e legumes, reduzir a oferta de refrigerantes, promover mais refeições em família... E mais: os pais que caracterizavam seus filhos como gordos estavam mais propensos a encorajar a prática de dietas, o que por sua vez já se sabe que promove ganho de peso a longo prazo.

Finalmente, em relação à segunda frase, sobre pessoas que “não entendem que certas coisas não lhes caem bem”... Acredito que quem tem que decidir se a roupa cai bem ou não é a própria pessoa que a veste. Será que precisamos julgar até mesmo a escolha da indumentária alheia? Que tal exercitar o não julgamento?


Boa semana!

sábado, 11 de outubro de 2014

A vida agridoce



Recentemente estava discutindo com uma paciente obesa um conto do Irvin Yalom, psiquiatra e psicoterapeuta americano que gosto muito. No texto em questão, “A mulher gorda” (está no livro “O carrasco do amor”), o terapeuta conta a ocasião em que atendeu uma paciente obesa que acreditava que uma série de coisas davam errado em sua vida graças à sua gordura. Conforme ela vai emagrecendo, porém, percebe que o buraco é bem mais embaixo...

Gosto de indicar esse texto para alguns pacientes pois mostra o processo do emagrecimento, que por vezes é bem doloroso e expõe questões profundas da vida do indivíduo (que estavam ocultas pela gordura e pela idealização da perda de peso). Entretanto, sempre alerto os pacientes que no início do texto o autor demonstra seu preconceito contra obesos:

“Sempre me senti repelido por mulheres gordas. Eu as acho repulsivas: o absurdo andar bamboleante, a ausência de contornos corporais – seios, colo, nádegas, ombros, maxilar, ossos do rosto –, tudo, tudo aquilo que gosto de ver numa mulher oculto por uma avalanche de carne. Como elas ousam impor seus corpos a todos nós?”

Após lermos juntas esse texto, minha paciente começou a chorar e verbalizou o seguinte: “Sabe, Carol... Eu concordo com ele. Por isso não aguento mais viver no meu próprio corpo.”

Na minha prática, percebo que os próprios pacientes obesos podem ser extremamente preconceituosos e rígidos consigo mesmo. Muitos têm medo de abandonar a “gordofobia” e aceitar um pouco mais seus corpos, pelo receio de que isso signifique, então, abandonar o desejo de ser magro.

Pegando emprestado o título de um famoso livro, digo a esses pacientes que a vida tem “80 tons de cinza”, isto é, a vida não se resume ao preto e branco. A dicotomia, ou seja, o pensamento “8 ou 80”, provavelmente contribuiu com seu ganho de peso e uma relação complicada com a comida. Não é porque me considero feminista, por exemplo, que não sei apreciar quando um homem abre a porta do carro pra mim ou paga um jantar. Feminismo não exclui gentileza. (Aliás, para quem quiser ler um ótimo livro sobre o feminismo moderno, indico “Como ser mulher”, da britânica Caitlin Moran; veja aqui)

Aceitação corporal não significa necessariamente amar 100% do seu corpo e se ver livre do desejo por mudanças. Significa respeitá-lo um pouco mais para que mudanças duradouras possam acontecer. Significa ter compaixão e aceitar que somos seres imperfeitos. E que tudo bem ser assim.

Você não precisa desistir do seu desejo de emagrecer se assim o desejar. Só não coloque sua vida em stand by até que isso aconteça.

Bom final de semana a todos!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Querer emagrecer


Muitos psicanalistas afirmam que um dos mais importantes recursos terapêuticos é confiar em nosso próprio feeling, isto é, confiar na nossa impressão inicial sobre o paciente, naquilo que sentimos ou percebemos antes de pensar.* Na minha opinião, isso é especialmente importante quando lido com pacientes com transtornos alimentares ou que apresentem uma relação complicada com a comida e com o corpo, mas que se escondem por trás do famoso “quero emagrecer”.

Não há nada fundamentalmente errado em querer emagrecer, mas quando o paciente me diz que essa é a motivação que o levou a me procurar, eu sempre procuro questionar o porquê (detalhe: não importa se o paciente é magro ou gordo). Não para julgar ou decidir se a justificativa dada é válida ou não, mas sim para de fato tentar entender quais as expectativas – por vezes irreais – por trás do desejo de perder peso. Eu não costumo assumir que é “normal” estar insatisfeito com o corpo e tentar mudá-lo porque essa é a tônica dominante nos dias de hoje. Eu não acho que seja simplesmente válido emagrecer “só dois quilinhos” porque afinal “todo mundo o quer”. Já faz algum tempo que aprendi a separar o “comum” do “normal”.

Voltando à questão de seguir o feeling, acredito que isso seja um pouco complicado numa sociedade em que comportamentos e atitudes patológicos foram progressivamente “normalizados”. Um colega da área da saúde veio me perguntar outro dia se eu não achava “ok” a pessoa vomitar de vez em quando, num dia de festa, por exemplo, quando tivesse comido demais, a fim de “se sentir melhor”. Ou mesmo “usar um laxantezinho” para dar “aquela limpada”... Ou seja, como orientar pacientes se aquilo em que acreditamos está distorcido e adoentado?!

Respondendo ao questionamento feito por este colega: não, provocar o vômito e usar laxante com finalidade de compensar a ingestão alimentar não é ok, não é normal, é patológico! Inclusive, um estudo recente do International Journal of Eating Disorders (veja aqui) verificou que mulheres com o que foi chamado de “transtorno alimentar compensatório” (definido por: uso de exercício excessivo e/ou períodos de jejum para compensar a ingestão alimentar e/ou controlar o peso; ocorrendo pelo menos duas vezes por semana nos últimos três meses; e na ausência de episódios objetivos de compulsão alimentar) apresentaram maiores distúrbios de imagem corporal, presença de alimentação transtornada, ansiedade e perfeccionismo que indivíduos controles.

Como disse o personagem Carlo Antonini, do escritor Contardo Calligaris, “algumas pessoas chegam aparentando a maior serenidade, mas estão à beira de uma crise que, de alguma forma, elas pressentem: pedem uma terapia, mas o que elas de fato procuram é um lugar onde lhe seja possível atravessar a loucura com um mínimo de amparo”.

* Dois livros muito interessantes que falam sobre o relacionamento terapêutico são: “Desafios da terapia” (Irvin Yalom, Ediouro) e “A mulher de vermelho e branco” (Contardo Calligaris, Companhia das Letras).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"Do que eu mais sinto falta de quando eu era gorda"


Bom dia pessoal!

Essa semana resolvi postar uma tradução livre feita por mim de um texto publicado na Marie Claire americana em julho de 2012, escrito pela jornalista Sarah Elizabeth Richards. Ele conta do que ela sentiu falta em seu corpo - e em sua vida - depois que emagreceu quase 20kg. Afinal, emagrecer não é tão simples assim e não necessariamente traz só coisas boas no processo...

Aproveitem!

"Do que eu mais sinto falta de quando era gorda..."

"Eu estava em pé no bar, segurando minha margarita de manga, enquanto minhas duas amigas estavam conversando com dois caras. Senti que estava 'sobrando' e tentei fazer contato visual com um cara muito fofo perto da porta. Ele me ignorou.

'Fique mais um pouco', disse a mim mesma. 'Você só está aqui há uma hora'.

Não foi assim que eu imaginei meu gran debut. Tinha acabado de terminar um relacionamento de longos anos, e minhas amigas insistiram que eu deveria passar a noite com elas num bar cheio de homens desejáveis.

Recentemente eu havia perdido 18 quilos (aumentando meu consumo de vegetais e grãos integrais e reduzindo a ingestão de açúcar, massas e pães). Segui o conselho de minhas amigas de usar roupas que mostrassem mais o meu corpo e lá estava eu no bar, sentindo-me inadequada.

O ar condicionado estava no máximo, e eu senti o ar gelado em cada pedacinho na minha pele exposta – meus braços, minhas pernas, meu decote. Mas ao invés de me sentir sexy, eu me senti pelada.

'Estou realmente cansada', disse a minhas amigas. 'Estou indo'.

Ao chegar em casa, abri meu guarda roupa e achei minhas antigas roupas de quando era gorda. Enterrei meu rosto no que costumava ser minha camiseta preferida e senti o cheiro de um antigo perfume. Eu a vesti, minha ansiedade me dominando. Me senti eu mesma novamente.

De vez em quando, eu sentia falta de ser gorda.

As pessoas vivem falando sobre os benefícios da perda de peso, mas não se fala muito sobre o choque que é emagrecer. Quando você decide emagrecer, você só pensa nas coisas boas: novo corpo, saúde melhorada (e, se você se engaja em pensamentos milagrosos, uma nova vida). Ninguém te alerta sobre o outro lado.

Fisicamente, eu sentia frio o tempo todo, bem como uma dorzinha palpitante do lado esquerdo das minhas costelas – a sensação que sinto sempre que estou vulnerável. Emocionalmente, eu não me sentia preparada para lidar com todas as mudanças, e não podia mais usar a comida para me acolher.

E então veio o desapontamento. Nas minhas fantasias, eu parecia mais confiante e mais bem vestida. Eu tinha mais amigos e namorados. Eu me tornava uma melhor profissional. Quando eu era gorda, essas fantasias ficavam armazenadas em segurança, na ideia de que “um dia” isso se tornaria realidade. Na minha cabeça, eu não cogitava ter que descobrir o limite dos meus talentos, encarar meus medos de intimidade, ou mesmo confrontar o quão esquisita me sinto ao conhecer novas pessoas.

Quando eu perdi peso, eu tomei um banho de realidade. Eu continuava sendo eu mesma, com os mesmos problemas. Eu só estava menor.

E a minha versão menor não necessariamente se tornou uma versão melhor – pelo menos não no início. Eu adorei ver as novas curvas de meu corpo, mas nunca me imaginei nua em frente ao espelho, pegando nas mãos a pele solta debaixo dos meus braços e na parte interna das minhas coxas. Ou que eu veria meus seios ficarem mais flácidos, e meu bumbum ficar ainda mais caído. Eu me sentia uma estranha em meu próprio corpo.

Havia também as questões do dia a dia. Os experts em dieta não te contam o quão desconfortável você se sente no início por não poder mais comer o quanto você comia antes. Ou como quase todas as interações sociais incluem referências sobre seu novo corpo. No começo é legal ouvir “uau, como você está linda!”, mas depois isso se torna angustiante, pressionador. Tinha momentos em que eu simplesmente não queria toda a atenção voltada para mim. Eu só queria o conforto do grupo.

Não estou dizendo que quero de volta minha gordura. Eu trabalhei duro para perder todo o peso extra que ganhei na faculdade porque me afundei em lasanha e comida delivery para conseguir lidar com toda minha carga de trabalho. Hoje, peso 63kg, um peso que tenho mantido há quatro anos. Levei quase sete anos para atingi-lo. Para mim, essa foi a velocidade ideal, pois me permitiu lidar aos poucos com as novas questões que foram surgindo. Além disso, deu tempo para que minha pele (inicialmente flácida) se acomodasse novamente (com ajuda da ioga e do kickboxing, dois exercícios que adoro). Perder os últimos sete quilos levou quase três anos. Parecia que eu não estava mais levando tão a sério meu status de 'quase magra'.

Eu gostaria de dizer que eu aprendi a me sentir melhor com meu corpo naturalmente, por meio de um processo orgânico de celebrar meus pontos fortes e aceitar minhas falhas. Ao invés disso, eu me forcei a me sentir bem, como se estivesse entrando aos poucos em uma piscina gelada.

Eu ainda luto com a sensação de parecer nua às vezes, mas isso não mais me deixa ansiosa. Nas raras ocasiões em que parece que não vou aguentar, eu me enrolo num grande robe de cetim até passar (sim, eu me livrei das minhas roupas de quando era gorda).

Então, eu ponho minhas novas calças de ioga, que abraçam minhas novas curvas.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

“Eu sou uma porca gorda”



“Eu sou uma porca gorda”. “Minha barriga tem tantas dobras que eu poderia esconder criancinhas nelas”. Infelizmente, é comum na minha prática ouvir pacientes (especialmente mulheres) tratando seus corpos com desprezo ou até mesmo de forma pejorativa, usando por exemplo as frases acima. Apesar de fofa a imagem do animalzinho, minhas pacientes em nada se parecem com ele.

Esse tipo de linguajar usado para ofender seu próprio corpo ou o corpo das outras pessoas é chamado em inglês de fat talk, apesar de muitas vezes não se relacionar só com gordura (um paciente homem já disse por exemplo: "estou tão 'frango' que pareço um aidético", referindo-se ao seu descontentamento com o volume de massa muscular em seu corpo). E o fat talk é extremamente perigoso, apesar de parecer para alguns inofensivo ou até mesmo engraçado.

Em primeiro lugar, é perigoso porque quanto mais você se agride, mais aumenta sua insatisfação corporal (isto é comprovado inclusive por estudos). E quanto mais insatisfeito você está consigo mesmo, menor a probabilidade de você se engajar em seu autocuidado (veja aqui). Além disso, fat talk é como um dominó: você começa se denegrindo, a pessoa ao seu lado vai começar a se denegrir também (“você, gorda suja? E a minha barriga então!”) e logo menos vocês estarão “brigando” para ver quem se odeia mais.

Em segundo lugar, é perigoso porque focar-se nos aspectos negativos de seu corpo normalmente funciona como uma distração de outros aspectos de sua vida que não estão te agradando, ou mesmo como uma fuga de sentimentos difíceis. E se você não se focar no que de fato está te incomodando (seu emprego é um saco, você se sente carente, um amigo querido mudou de cidade), você não será capaz de enfrentar a situação e se sentir melhor.

Portanto, aí vai uma sugestão: tente se tratar com mais respeito! Você é muito mais do que sua aparência! Pense no que você diria sobre si mesmo caso fosse proibido falar sobre seu corpo. O que você tem a oferecer de positivo?


Boa semana a todos!

sábado, 23 de março de 2013

Pacientes confiam menos em profissionais de saúde com excesso de peso



A figura acima ilustra bem o tema de hoje. Já escrevi aqui sobre o preconceito de profissionais de saúde contra pessoas obesas e o impacto negativo que isso gera no cuidado destes pacientes. Entretanto, um estudo fresquinho publicado no “International Journal of Obesity” mostra que o inverso também é verdadeiro: existe preconceito por parte dos pacientes contra profissionais de saúde que estão acima do peso.

O estudo feito com 358 adultos encontrou que os participantes confiavam menos em profissionais com sobrepeso e obesidade, estavam menos propensos a seguirem suas orientações e estavam mais inclinados a mudarem de profissional. O interessante é que o preconceito encontrado foi o mesmo em participantes que também estavam acima do peso. Ou seja, nem quem é gordo quer ser tratado por outro gordo.

Não vou nem entrar no mérito aqui da pressão pela magreza que nós nutricionistas sofremos. Acredito que em nossa classe profissional a exigência pela magreza é bem maior do que na classe de médicos, fisioterapeutas, enfermeiros... Afinal, “como confiar em um nutricionista que é gordo? Se ele é gordo não deve saber o que está fazendo!”

A questão é que a competência profissional de NINGUÉM pode ser medida pelo número que sai na balança. Conheço muitos profissionais excelentes e que são gordos. Inclusive nutricionistas! Hoje em dia já se sabe que emagrecer é muito mais do que simplesmente comer “certo” e se exercitar, a gênese da obesidade é multifatorial e envolve aspectos políticos, sociais, ambientais, psicológicos...

Já ouvi pessoas dizendo que para se acabar com esse tipo de preconceito é “simples”, basta obrigar mesmo os profissionais a emagrecerem. Considero isso um absurdo. Então, para reduzir o preconceito racial vamos “obrigar” as pessoas a trocarem a cor da sua pele?! Vamos “obrigar” os homossexuais a mudarem sua inclinação sexual?! Nunca vi reduzir o preconceito por meio da exclusão. Eu acredito no respeito mútuo e na aceitação. Aceitação de que as pessoas tem a liberdade de decidir individualmente sobre como cuidar de seu corpo e o que fazer com ele.