quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Se Dê Conta 2015

Como muitos já sabem, eu faço parte de um grupo incrível de nutricionistas (e uma educadora física!) chamado Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares e Obesidade, o GENTA. Todo ano, fazemos uma campanha chamada “Se Dê Conta”, que visa aumentar a conscientização sobre os transtornos alimentares e incentivar sua prevenção. Esse ano, a campanha que teve início dia 24/10 e vai até 31/10 consiste em postarmos fotos e frases (em modo público) no Facebook mostrando o que fazemos por um mundo sem neuras, usando a hashtag #sedecontasemneuras. Quando falo em “neuras”, estou me referindo ao terrorismo nutricional, à estigmatização de corpos, à prática indiscriminada de dietas, ao uso assustador de suplementos alimentares (até mesmo os sem comprovação científica), à prática de atividade física puramente para queimar calorias, e não por prazer... E por aí vai!!

Poste uma foto inspiradora em seu perfil do Facebook (lembre-se: em modo público!) e o Genta vai compartilhar em sua fanpage (veja aqui e aproveite para curtir a página!)

Vejam as fotos que já postei no meu perfil essa semana e mais uma extra, especial aqui para o blog!



 
Meu peso é só um número. Ele não determina meu valor como pessoa, meu sucesso ou minha saúde. #sedecontasemneuras
 


Não faço a atividade física que queima mais calorias, e sim aquela que me faz sentir bem e conectada com meu corpo! #sedecontasemneuras


E ainda postarei mais uma amanhã em meu Face!

Reflitam, participem , e cultivem uma vida sem neuras!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Coma mais devagar e... Gaste mais calorias

Acho que ninguém vai discordar que comer devagar tem suas vantagens: você aprecia mais a comida; facilita seu trabalho digestivo; é capaz de perceber melhor os sinais de saciedade, o que talvez faça com que coma menos... E agora os pesquisadores descobriram mais um benefício: quando você come devagar, seu corpo gasta mais calorias para digerir a comida.

O estudo (veja aqui) consistiu no seguinte: mulheres obesas na pré menopausa fizeram uma mesma refeição em dois dias distintos. No dia 1, a comida foi consumida por elas em 40 minutos, e no dia 2 em apenas 10 minutos. Avaliações metabólicas e de composição corporal também foram feitas em ambas as ocasiões. O que se viu foi que quando as mulheres comeram mais lentamente, o efeito térmico dos alimentos – a quantidade de calorias   que o corpo gasta a fim de fazer a digestão do que comemos – foi maior, bem como os níveis de adiponectina – substância que protege a saúde cardiovascular e aumenta a sensibilidade à insulina.

Apesar da amostra pequena (dez mulheres voluntárias), o estudo foi muito bem conduzido e, na prática, seus resultados sugerem que comer devagar poderia contribuir, a longo prazo, com uma perda de peso modesta, mesmo que o indivíduo não mude em nada a quantidade e o tipo de alimento que está comendo.

E você, já planejou e reservou um tempo razoável para fazer suas refeições hoje?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A pipoca e os scripts alimentares

Tradução: "Quanta pipoca de cinema você consegue comer? Toda ela."

Esse final de semana fui ao cinema e, na fila para comprar pipoca, ouvi a conversa do casal atrás de mim:
(ela) Vamos pedir dois combos médios ou grandes?
(ele) Ah, melhor pedir o grande, por mais um real você ganha mais pipoca e refrigerante, vale a pena...
(ela) Bom, então peça você, pois não tenho coragem de pedir para a moça o combo com bebida de 1L!
Essa conversa verídica apresenta algo muito discutido pelo pesquisador Brian Wansink em seus livros Mindless eating e Slim by design, que é o conceito de scripts alimentares: gatilhos inconscientes que nos fazem comer mais quando expostos a situações em que eles se encontram presentes. Um dos scripts acima está relacionado à noção preconcebida de que, se vou ao cinema, preciso comer pipoca. É como se fosse algo inerente, inseparável; e o outro é a ideia de que, se posso pagar só um pouco a mais para receber algo proporcionalmente maior, deve valer a pena... Não?
Sinto que um dos problemas atuais é que temos tomado muitas decisões automáticas e inconscientes como estas, baseadas em roteiros mentais que nem sequer fazem sentido quando confrontados com a realidade. Por exemplo:
  • Se eu almocei há pouco tempo, será que tenho fome ou mesmo vontade real para pedir pipoca no cinema?
  • Preciso pedir o pacote grande quando provavelmente a pequena já dará conta de me distrair até o início do filme?
  • Vale a pena mesmo pagar um real a mais por algo que de fato não me é necessário?
  • Se já me soa “estranho” (no caso da moça do diálogo) pedir um refrigerante de 1L, será que isso não é uma aviso cognitivo de que talvez seja muito?
Ao não prestarmos mais atenção em nosso processo de decisão alimentar, acabamos comendo mais, às vezes sem nem mesmo querer ou perceber.
Claro que não podemos controlar todas as nossas decisões alimentares, muitas delas são de fato automáticas e influenciadas por uma série de fatores! Mas talvez possamos tentar estar mais presentes ao momento em que formos comer, nos conectando aos sinais de fome, saciedade e apetite, para fazermos escolhas de fato mais conscientes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Se sentir bem para mudar ou mudar para se sentir bem?



Essa semana atendi pela primeira vez um jovem com transtorno alimentar que, ao me contar sua história, disse que um dos fatores precipitantes para o início da doença foi o comentário de sua professora, após ele sofrer bullying dos colegas devido a seu peso: “Sabe, fulaninho, talvez você possa conversar com seus pais, tentar emagrecer um pouco, pois na verdade ninguém gosta mesmo de pessoas gordas... Vai ser pro seu bem.”

Ainda não consigo entender a lógica perversa – e extremamente arraigada em nossa sociedade – de fazer alguém se sentir mal, acreditando que isso vai então “motivá-lo” a mudar. Segundo teorias da Entrevista Motivacional, motivação vem do quanto o indivíduo percebe a mudança como importante para sua vida e do quanto ele se sente confiante em poder executá-la. Difícil imaginar que uma pessoa se sinta confiante ouvindo todos os dias a mensagem de que é inadequada... Talvez precisemos primeiro nos respeitar e nos sentir melhor sendo quem nós somos hoje, independentemente do nosso peso, para então poder mudar comportamentos. E não mudar (que para muita gente é sinônimo de “emagrecer”) para só então nos gostarmos... Esse caminho parece não fazer tanto sentido quando abraçamos a ideia de que somos dignos de respeito e acolhimento simplesmente por existirmos.

Outra coisa que me incomoda: já ouvi um colega profissional da saúde dizendo que “o problema do gordo é que ele não se enxerga. Se ele de fato soubesse o quão gordo ele é, se esforçaria mais para emagrecer”. Quer o obeso se perceba ou não como tal, emagrecer não é algo que simplesmente dependa do esforço e desejo individuais, e sim um processo complexo que envolve uma série de fatores que, em sua maioria, não podem ser controlados pelo indivíduo. Ser gordo não é uma escolha para a maioria das pessoas, embora possa ser para algumas, especialmente para aquelas que se tornam ativistas pelo respeito do indivíduo não importando seu tamanho. E na realidade, grande parte dos obesos sabe sim que está gordo, vivendo em meio à gordofobia e ao estigma da obesidade seria quase impossível não se dar conta. Alguns, de fato, podem subestimar um pouco seu tamanho corporal, o que está relacionado com aspectos de processamento neural da imagem corporal (veja aqui) e também com a dificuldade de se assumir gordo numa sociedade que despreza quem se encaixa nessa categoria. Ou seja, algumas pessoas entram em negação em relação ao seu peso porque, se de fato se assumissem/percebessem como gordas, suas vidas poderiam se tornar bem mais difíceis e hostis.

Proponho refletirmos sobre a ideia de que precisamos mudar para só então nos sentirmos bem conosco. Você merece se sentir bem hoje, pelo simples fato de ser humano e, portanto, falível. Quem sabe, então, ao se sentir mais digno e merecedor, não consegue mudar aquilo que tanto te incomoda? Como diz o ditado: somos perfeitos em nossa imperfeição.  

segunda-feira, 31 de agosto de 2015


Hoje é dia do nutricionista, um dia que para mim é de celebrar, mas também de refletir; refletir sobre os rumos da Nutrição e, especialmente, sobre o meu próprio, sobre meu papel e minha atuação como nutricionista.
Tenho me dado conta de que vivemos na época da “terceirização” do cuidado: me parece que muitas pessoas não querem se cuidar, mas sim serem cuidadas; querem ser monitoradas, vigiadas e controladas.
Vejo e ouço algumas coisas que me geram conflito interno: academias-conceito, com mensalidades de cerca de R$ 1000,00, onde o diferencial é que o personal trainer fica “ligado 24 horas por dia no aluno por mensagem: controla a alimentação, os treinos e a frequência” (matéria da revista 29 Horas, agosto de 2015); pacientes meus que se desesperam quando peço para que escolham o que gostariam de comer de café da manhã, e praticamente me imploram: “Carol, me diz o que eu posso e não posso comer, me faz uma lista, juro que vou seguir!”; clínicas de dieta famosas, que englobam o indivíduo de tal forma que ele deve frequentá-la algumas vezes por semana: passar por consultas ali, praticar exercício ali, assistir palestras ali e, se possível, comer ali (algo que não tenha sido escolhido por ele mesmo, claro).
De certa forma, esse movimento pode ser compreensível: num mundo de informações conflitantes, especialmente no que diz respeito a comida/corpo/peso/atividade física, parece que as pessoas perderam sua autonomia e liberdade de escolha. Pois para isso é preciso reflexão crítica e autoconhecimento, e muita gente não quer ou “não tem tempo” para isso.
E é nesse ponto que meu trabalho se torna um pouco mais difícil, já que eu não passo dietas e proponho que o indivíduo entenda e mude sua relação com a comida nos níveis mais profundos. Entendendo não só o que, mas como e por que ele come, poderá fazer escolhas de fato mais conscientes e se responsabilizar por seu autocuidado. Muitos pacientes descordam da minha abordagem e saem frustrados da consulta. Defender um novo paradigma pode ser bastante cansativo.
Mas é também bastante recompensador. Recebo feedbacks maravilhosos de meus pacientes e de vários leitores aqui do blog, que tomam a iniciativa de criar espaço para as coisas que fazem sentido para si. Vejo com frequência esse tipo de trabalho mudar vidas. E não foi porque o indivíduo perdeu peso, acreditem...
Tenho orgulho e satisfação em ser nutricionista. Parabéns a mim mesma e a todos os colegas da área!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os tipos de restrição alimentar



Todos os nutricionistas que trabalham com transtornos alimentares – e também aqueles que usam a abordagem defendida pela NutriçãoComportamental – têm como fato a premissa de que dietas levam à compulsão alimentar, comer emocional e/ou comer na ausência de fome. Por “dieta” me refiro aqui a  qualquer tipo de restrição alimentar com a finalidade de perda de peso, que não siga os sinais internos do corpo como fome, apetite e saciedade para determinar o que e quanto comer. Dietas forçam o indivíduo a seguir regras externas para determinar sua escolha alimentar, que inevitavelmente levam à transgressão e à culpa em comer. Dietas não fazem bem e não são inofensivas: dietas fazem mal.

A restrição alimentar mais óbvia é a restrição quantitativa, ou seja, a pessoa diminui a quantidade de comida que come a fim de reduzir a ingestão calórica, o que teoricamente levaria ao emagrecimento. Porém, muitos pacientes que têm uma relação ruim com a comida me dizem em algum ponto do tratamento: “Carol, eu não estou mais fazendo restrição, estou comendo todas as refeições e em quantidades adequadas... Então por que ainda estou tendo compulsão?”

“Porque você está fazendo outros tipos de restrição”, é a minha resposta. 

O segundo tipo de restrição é a qualitativa, isto é, o indivíduo come em quantidades razoáveis mas nunca (ou quase nunca) se permite comer os alimentos que gosta, somente aqueles que considera “corretos”. Isso ainda faz parte da mentalidade de dieta, que dicotomiza os alimentos entre “permitidos” e “proibidos”. Se a pessoa ainda faz dieta, ela ainda tem compulsão.

O terceiro e último tipo, que por ser mais sutil pode correr o risco de passar batido, é o que eu chamo de restrição cognitiva. É quando a pessoa até come o delicioso brigadeiro que tanto queria... Mas com a sensação de que não deveria. A certeza de estar quebrando uma regra leva automaticamente à culpa e ao pensamento de “8 ou 80”: “já que comi um brigadeiro, já que já meti o pé na jaca, melhor comer logo 10...”

Daí a importância suprema da permissão incondicional em comer, defendida pelo modelo do Intuitive Eating, que está explicado em detalhes em nosso livro Nutrição Comportamental (pode ser comprado aqui). Claro, quando toco nesse assunto, os pacientes logo demonstram o medo de passar a comer somente comidas muito gostosas e calóricas caso se permitam; e, de fato, isso pode acontecer no início. Mas se o indivíduo resistir e não adotar a mentalidade de dieta novamente, essa fase passa. Experimente comer sua comida predileta todos os dias por um mês, e veja se ao final deste você ainda tem desejo de continuar comendo a delícia escolhida com a mesma frequência e intensidade...

E então, já se permitiu hoje?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A dança das emoções


Assistindo ao novo filme da Pixar “Divertidamente” (“Inside out”), lembrei-me de um antigo dizer que coloca que o contrário de amor não é o ódio, e sim a indiferença. A indiferença pode ser muito mais destrutiva que este último, e acredito que assim seja com nossas emoções. Ignorar aquilo que sentimos, não entrando em contato com as emoções por mais dolorosas que sejam, destrói nossa habilidade de nos conhecermos, de aprendermos algo valioso sobre nós mesmos e de crescermos e florescermos como pessoas plenas e felizes. As emoções são verdadeiras bússolas, guiando nosso entendimento do mundo e nossas atitudes. Ou seja, existe espaço dentro de nós para todas as emoções. Nada é proibido ou vergonhoso de ser sentido. Inclusive, a crença de que devemos ser felizes a todo momento é um dos motivos que nos leva a sermos mais infelizes! Até porque, se não sentíssemos emoções “negativas” (como tristeza), como saberíamos o que é alegria e contentamento?

Entendo que algumas pessoas (vejo isso em vários pacientes) têm uma grande dificuldade em sentir e interpretar suas emoções, reagindo automaticamente a elas e adotando muitas vezes um padrão destrutivo de comportamento, como se engajar com frequência em comer emocional e compulsão alimentar. Cabe ao nutricionista que quer trabalhar essas questões perceber e apontar aos pacientes a maneira como seus sentimentos estão interferindo em sua relação com a comida; e cabe ao psicólogo, valioso parceiro nesse processo, trabalhar essas emoções com os pacientes e ajudá-los a criar um espaço dentro de si mesmos para que essas emoções possam circular e reverberar; e, talvez, quem sabe, dançar.

   

Para saber mais:

http://www.mindful.org/five-things-pixars-inside-out-teaches-us-about-emotions/?utm_source=Mindful+Newsletter&utm_campaign=3092bd9fa4-MF_Weekly_Newsletter_August_48_4_2015&utm_medium=email&utm_term=0_6d03e8c02c-3092bd9fa4-21277385