terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Felicidade hoje



Lendo o livro “Waking Up: A Guide to Spirituality Without Religion”, do Sam Harris (em português, o título é “Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião”), me chamou a atenção uma passagem em que ele coloca o seguinte: todos os nossos objetivos e metas têm por trás a promessa de que, se forem alcançados, finalmente teremos a oportunidade de relaxar e viver nossa vida no presente. Ou seja, só então teremos as condições ideais para nos tornarmos mais felizes. Como o autor mesmo coloca, estamos buscando razões e meios no futuro para tornarmos o agora mais tolerável.

Essa realidade é comum no caso de pessoas que estão descontentes com seus corpos e buscam de forma constante formas de transformá-los: por meio de exercício e/ou dieta. Não estou dizendo que há algo de errado nisso, mas quando enxergamos que não seremos plenamente felizes a não ser que essa transformação corporal aconteça, talvez esteja na hora de repensar. 

Muitas vezes, a promessa do emagrecimento traz mais alegria do que o emagrecimento de fato. Tenho pacientes que emagreceram bastante e que acabaram constatando que nada de concreto havia mudado em suas vidas: o emprego era o mesmo, ele ainda estava solteiro e os pais continuavam chatos.

E se pudéssemos encontrar razões no agora para sermos felizes? E se essas razões contemplassem até mesmo a “imperfeição” do nosso corpo? E se percebêssemos que a verdadeira promessa de felicidade está na nossa transformação interior, e não exterior?

Boa semana a todos!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Culpa



Dezembro. Grandes festas se aproximam. E com elas, as preocupações usuais com a comida – ou o excesso dela. É o momento em que muitas pessoas questionam como comer sem culpa.
Antes de mais nada, acho importante explorar a origem dessa culpa. Há 30 anos, era incomum escutarmos relatos frequentes sobre pessoas que sentiam culpa ao comer. Meus avós, por exemplo, não sabiam o que era isso. Afinal, eles não seguiam regras rígidas a respeito de como se alimentar, e a comida não tinha nenhum significado moral para eles. Se nenhum alimento é proibido, não há porque sentir culpa. Se encaramos toda refeição como uma oportunidade única de se nutrir e sentir prazer, não há espaço para remorso. Ele não pertence a esse conjunto. Ou seja, ao construirmos uma relação mais saudável e pacífica com a comida, a culpa ao comer certamente perde o sentido e deixa de fazer parte da nossa vida. E isto é muito libertador!

Porém, como alguns de vocês talvez ainda estejam nessa árdua jornada de autoconhecimento e de fazer as pazes com a comida, suponho que comer com culpa ainda seja uma realidade. Então, como lidar com essa emoção, especialmente nas celebrações de final de ano?

1. Enquanto estiver comendo, diga à culpa: “agora não!”. Comemos aquilo que gostamos para sentir prazer mas, ironicamente, muitas vezes nem o sentimos, já que a culpa ao comer aparece logo nas primeiras mordidas. Se esse for o caso, enquanto estiver comendo tente focar nos aspectos sensoriais do alimento: sua aparência, seu aroma, seu sabor. Quando a cabeça se engajar em pensamentos de arrependimento e remorso, respire fundo e metalize “agora não”. Volte então a prestar atenção no momento presente, ou seja, naquilo que está comendo. Tente sentir o prazer que inicialmente você foi buscar.
 
2. Ao terminar de comer, aceite seus sentimentos ao invés de lutar contra eles. Suponha que, ao terminar a ceia de Natal, você se sinta chateado por ter comido dois pratos de sobremesa. Provavelmente, você passará o resto da noite brigando internamente consigo mesmo por ter comido a mais. Isso só o deixará ainda mais chateado. Que tal aceitar suas emoções sem julgamento? Você tem o direito de sentir-se chateado. Como essa chateação se manifesta no seu corpo e na sua mente? Pensamentos de crítica e derrota vêm à tona? Use sua compaixão e trate-se de forma gentil neste momento. Pense o que você pode fazer de melhor por si mesmo a fim de aliviar seu sofrimento momentâneo. Lembre-se que amanhã é outro dia, e que você poderá dar outro passo para melhorar sua relação com a comida.

Espero que essas reflexões os ajudem. Boas festas a todos e até ano que vem!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Corpo: assunto privado

Meu corpo pertence a mim!
 
Assistindo ao documentário “The Illusionists”, não pude deixar de me chocar com o fato de que nosso corpo se tornou objeto de crítica/comentário/comparação alheia. O corpo está sob o foco dos holofotes. Quando criei esse blog, em 2010, escolhi o título de propósito. Afinal, seu corpo é seu, não é de mais ninguém. Portanto, não deveria estar sujeito às análises e opiniões de mais ninguém a não ser você.

É muito comum ver pacientes com e sem transtornos alimentares sofrendo com comentários negativos a respeito de seus corpos, por parte de amigos, parceiros, familiares. E, muitas vezes, feitos com “boa intenção”. Como o pai que diz para a filha que ela está comendo muito e que deveria moderar, pois já está gorda. Ou o marido que coloca na geladeira fotos de quando a esposa era magra, para “estimulá-la” a pensar duas vezes antes de comer.

Agora eu questiono: mesmo com a melhor das intenções em mente, você gostaria que alguém próximo te sujeitasse a essas situações? Como você se sentiria? Eu me sentiria exposta e vulnerável, e isso porque eu não tenho distorção ou uma séria insatisfação com minha imagem corporal...

As festas de final de ano são ocasiões muito propícias para esse tipo de assunto surgir. Procure se abster dos comentários e conversas que exponham seu corpo ou o corpo alheio. Viu alguém comendo muito? Não comente. A tia fulana engordou? Não comente. O primo ciclano está magro e musculoso? Não comente. A roupa da beltrana está inadequada pois, na sua opinião, as pernas delas são grandes demais? Não comente.

Respeitemos a privacidade do corpo de cada um.

Boa semana a todos!

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A experiência da saciedade



“Como você sabe que está saciado?”
Essa é uma das perguntas cruciais que faço a meus pacientes quando começamos a trabalhar a reconexão com o corpo e uma maior consciência alimentar. Afinal, fome e saciedade são dois gatilhos importantes e poderosos que interferem diretamente no nosso comportamento com  a comida. A autora Evelyn Tribole, do livro Intuitive Eating, diz inclusive que esses sinais compõem nossa “sabedoria interna”, isto é, por meio desses e outros sinais corpóreos somos capazes de controlar quando devemos comer e quando já podemos parar.
Um momento favorável para interrompermos nossa refeição é quando estamos moderadamente saciados, isto é, quando já não temos mais fome porém ainda estamos confortáveis. É aquele ponto em que ainda cabe mais comida no estômago, se quisermos, mas nosso organismo já sente a presença dela e portanto podemos parar. Descrever é um tanto quanto complexo, mas conforme vamos nos atentando e experimentando essas sensações, elas ficam mais nítidas e claras.
Para atingirmos e percebermos esse estado de saciedade moderada, são necessários, na minha concepção, três fatores:
1. Quantidade adequada de comida. Esse fator é o mais óbvio: para ficarmos saciados, precisamos de uma quantidade de comida compatível com a fome que nos fez comer, ou pelo menos uma quantidade de comida que faça com que a parede do nosso estômago se distenda (a distensão estomacal transmite um sinal ao cérebro de que já estamos alimentados). Além disso, quanto mais macronutrientes presentes na comida – carboidratos, lipídios, proteínas –, mais saciados ficamos, já que esses nutrientes favorecem a liberação de hormônios sacietógenos.
2. Atenção ao comer. Diversos estudos mostram que a falta de atenção ao comer faz com que comamos mais, especialmente por não percebermos os sinais sutis da  saciedade. O livro Mindless eating, do autor Brian Wansink, traz várias evidências a esse respeito. Experimente comer sem distratores – celular, tablet, televisão, computador, dentre outros – para ver o que muda.
3. Prazer. Quando comemos aquilo que de fato queremos e nos permitimos sentir prazer – e não culpa –, a tendência é comermos menos. Afinal, a experiência de saciedade não é somente física. Uma outra palavra usada para definir saciedade é satisfação, mostrando a importância do prazer para que a nossa experiência seja a mais plena possível. Quando comemos aquilo que gostamos, não ficamos buscando compensar a falta de satisfação do paladar com uma quantidade maior de comida.
Você percebe a influência desses três fatores? De que maneiras você pode contribuir para que sua experiência de saciedade seja a mais plena possível?
Boa semana a todos!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Estar presente para si mesmo

Estudando e lendo sobre autocompaixão, tenho me maravilhado cada vez mais com seu efeito transformador sobre nossas vidas. Autocompaixão é a habilidade de estar sensível ao seu próprio sofrimento e comprometer-se a agir da melhor maneira possível para tentar aliviá-lo. Parece simples e até mesmo óbvio, não?

O que acontece, porém, é que em muitas circunstâncias somos capazes de potencializar nosso próprio sofrimento. Quando algo ruim acontece ou ao sentirmos que falhamos, ao invés de reconhecermos nossa vulnerabilidade – afinal, errar é humano! – e nos tratarmos com gentileza, nos criticamos e nos julgamos, aumentando ainda mais a sensação de impotência e inadequação. Em última instância, não encaramos o nosso sofrimento com a atenção e o cuidado que ele merece. Resultado? Muitas pessoas, frente a uma situação emocionalmente desafiadora, acabam comendo como forma de aliviar ou de não precisar entrar em contato com o que está acontecendo.

Existe um ditado budista que diz: cuide da sua dor como se estivesse cuidando de um amigo que está machucado. Essa fala é muito sábia, pois de fato não é possível aliviar sofrimento por meio da autocrítica e do autojulgamento! Então, da próxima vez que sentir que errou, tente estar presente para si mesmo. Acolha sua dor, sua culpa, e tente não se julgar ou se criticar demasiadamente nesse momento tão delicado. Se abrace e esteja consigo mesmo. Pergunte-se o que de melhor você pode fazer para se aliviar e se cuidar. Explore maneiras alternativas à comida para obter aquilo que de fato você precisa.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Comida com história – Comer com Atenção Plena e sustentabilidade

 
Esses dias, durante o treinamento profissional do programa Mindfulness Based Eating Awareness Training (MB-EAT), minha amiga e nutricionista que admiro Camila Lafetá usou o termo “comida com história” para se referir a um delicioso queijo frescal que experimentamos. Comida com história é aquela que você reconhece minimamente da onde vem; que passou por poucas transformações da indústria para chegar até você; e que possivelmente evoca memórias de vida prazerosas. Na definição da própria Camila: “comida com história remete ao ingrediente mais natural, à fazenda, ao produtor e a quem escolheu servi-lo. Tem afeto nessa escolha. Se pensarmos em queijo, aquele que é processado e vendido em caixinha (não vou citar marca!) não pertence a ninguém, não remete ao animal, ao leite, ao trabalho de quem o fez. Está afastado da vida, é só uma manufatura sem memória”.
As diretrizes do TheCenter for Mindful Eating (TCME), organização da qual sou membro, diz que uma pessoa que come com atenção plena “é consciente a respeito da interconexão que existe entre a terra e os seres vivos e a respeito do impacto que suas escolhas alimentares têm sobre esse sistema”. Isso significa que esse indivíduo entende que suas escolhas têm um efeito que vai além da sua própria saúde: elas impactam a saúde de todo o planeta, pois estamos todos interconectados.
"Um grão de arroz contém todo universo”, como diz o monge Thich Nhat Hahn. Alguém que come com atenção plena percebe que comer sustentável vai muito além do “comer orgânico”. Comer sustentável é incorporar comidas que tenham história.
E você, quais comidas/bebidas tem consumido? Você sabe a história delas?
Boa semana a todos!

domingo, 9 de outubro de 2016

Sobre furto e nhoque

Acabei de retornar de uma viagem de férias à Itália. Foi uma viagem maravilhosa: pude praticar meu italiano, admirar lindas paisagens e obras de arte e pensar na vida; pude meditar quase todos os dias e com isso enriquecer minha prática de mindfulness (atenção plena). Mas acredito que a prática mais enriquecedora foi no dia em que furtaram meu celular.

Lá estava eu, na maravilhosa confusão que é a ponte Vecchio em Florença, a caminho para o jardim de Boboli (ambos citados no livro “Inferno” de Dan Brown). Minha bolsa estava fechada e eu a carregava em meu ombro. Num determinado momento, percebi que o zíper estava aberto. Senti um calafrio e uma onda de ansiedade crescendo... Ao olhar para dentro dela, um alívio momentâneo: carteira e passaporte estavam ali. Mas não o celular.



Senti o desespero crescendo: estava sozinha, longe de casa, e todas as fotos da viagem até então estavam naquele aparelho. Quase que de repente, percebi as reações do meu corpo e a aceleração da minha mente e comecei a respirar. Uma, duas, três respirações. Ao invés de reagir automaticamente e começar a chorar e a xingar o indivíduo que me furtou (o que eu certamente teria feito num passado não tão distante), continuei parada e respirando por mais um minuto ou dois. Sentei num banco e tirei todas as coisas da bolsa para ter certeza de que o celular de fato não estava ali. Perguntei a um vendedor de bolsas que estava na calçada onde poderia encontrar os carabinieri (polícia). Enquanto caminhava até o local, tomei consciência da minha ruminação mental: “por que eu? Qual a chance de não ser roubada no Brasil e sim na Europa? Espero que o FDP que me furtou receba o que merece algum dia!”.

Ao me dar conta do meu sofrimento, tentei exercitar a compaixão: “tudo bem Carol, pelo menos você está bem. Não deixe isso estragar sua viagem, afinal, isso pode acontecer com qualquer um. Nada justifica um furto, mas vai saber o que levou essa pessoa a te furtar...” (essa parte confesso que foi difícil!). Depois de fazer a denúncia à polícia, encontrei uma loja da Apple, bloqueei o aparelho e fui almoçar.

Ao sentar no restaurante, a cabeça latejando, disse a mim mesma que o melhor a fazer naquele momento era aproveitar ao máximo o almoço, pois de nada adiantaria alimentar pensamentos de vitimização. Então decidi que aproveitaria a oportunidade para fazer uma refeição com atenção plena. Pedi um nhoque caseiro com molho de queijos e pera glaceada. Senti a textura de cada bolinha macia, o sabor, a temperatura. Senti o estômago sendo apaziguado, a fome física indo embora e o conforto emocional que se instalava em meu corpo. Ao final, agradeci a mim mesma por ter me permitido apreciar uma das mais deliciosas refeições da minha vida, coisa que não teria acontecido se minha mente não estivesse 100% engajada e presente naquele momento (talvez ainda ruminando o infortúnio de ter sido furtada). Agradeci também à comida, por ser muito mais que um amontoado de nutrientes, por alimentar não só meu corpo, mas também minha mente e minha alma.

Boa semana a todos!