quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Aquilo que deixamos para trás


"Comece a se enxergar como uma alma com um corpo, e não como um corpo com uma alma"
 
São Paulo, 16/12/2015. Natal chegando, ano acabando e, como tal, não poderia deixar de refletir sobre as metas que criei para mim mesma esse ano, e sobre as quais vou colocar para o ano que vem.
Tenho uma prática pessoal que sempre indico a amigos e pacientes: pegar um papelzinho, escrever as metas que hoje desejo para o ano seguinte (devem ser relevantes, mensuráveis e passíveis de serem alcançadas; veja mais como sobre criar metas aqui) e colocar nos dias finais da agenda, para ler só quando o próximo ano estiver acabando. Ontem li as metas que em 2014 coloquei para esse ano, e fiquei satisfeita por ver que muitas delas haviam sido alcançadas; algumas foram aperfeiçoadas para 2016; e outras, ainda, foram descartadas, pois percebi que mesmo que não tenham sido alcançadas, não têm mais importância. Engraçado, pois parece muitas vezes que temos plena certeza daquilo que queremos, mas quando esperamos um pouco e deixamos a vida seguir seu curso natural, percebemos que as “certezas” já não carregam o mesmo significado e importância...
Noto que muitas pessoas hoje em dia criam metas a respeito do corpo: “ano que vem, perderei x quilos”; “ano que vem, alcançarei y% de gordura corporal”; “ano que vem, terei ganhado mais massa muscular”. Os tais “Projeto Verão” que surgem nessa época estão aí para reforçar essa ideia.
A grande questão é que não controlamos nosso corpo. Podemos ter controle e responsabilidade sobre quantas vezes na semana vamos à academia ou quantas vezes comemos fritura, mas a realidade é que não temos autonomia sobre as mudanças que podem – ou não – ocorrer em nosso corpo se controlarmos essas variáveis. Muitas vezes, enxergamos nosso corpo como uma “massinha de modelar”, que pode sempre ser alterada e modificada, contanto que empreguemos algum “esforço” (“força, fé e foco”, dizem os adeptos do fitness). Mas esquecemos que as respostas do nosso corpo dependem não só de estímulos, mas também de genética, da liberação de hormônios, do tipo de estrutura óssea que temos, e de muitos outros fatores sobre os quais não temos domínio e acesso.  
Vivemos hoje uma verdadeira “corpolatria”; damos importância excessiva à aparência do corpo, tornando-a um determinante do nosso grau de bem-estar e qualidade de vida. Tenho estudado a filosofia budista e descobri que a palavra que eles usam para designar corpo é “lü”, que significa “algo que você deixa para trás”, como bagagem. Um monge budista chamado Thich Nhat Hanh disse também que “o corpo pertence à terra”. E é a mais pura verdade! Acho surreal darmos mais valor à forma do corpo, que é algo por definição mutável e impermanente, do que a aspectos mais essenciais de nossos ser, como valores, trabalho, família, espiritualidade...
Sugiro então, nesse final de ano, que reflitamos um pouco mais sobre as metas que colocaremos para 2016. Que seja um ano de mais crescimento interno e realizações pessoais verdadeiramente significativas.
Boas festas a todos!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Como fazer as crianças comerem melhor?

Um dia desses estava andando no shopping e vi na vitrine de uma loja infantil a seguinte camiseta:


Confesso que me veio uma sensação de estranhamento... Por que colocar como estampa de uma camiseta pra crianças um macaquinho dizendo “dá um potássio aí” ao invés de simplesmente “dá uma banana aí”? Qual a relevância prática de uma criança saber que a banana tem potássio?
Isso é reflexo do que chamo de “nutricionismo na infância”: a crença de que vamos ensinar/convencer as crianças a comerem melhor pura e simplesmente por meio da educação nutricional: dizer a elas quais alimentos são saudáveis e quais não são, quais são os nutrientes que existem em cada fruta, verdura, legume... Ok, a informação de que tem potássio na banana é verdadeira, mas saber disso não necessariamente faz com que uma criança – ou mesmo um adulto! – coma mais a fruta. Isso seria muito reducionista. Comemos banana porque é gostosa, porque é prática, porque tem sempre em casa, porque me sinto saciada quando como...
O que, então, faz com que as crianças comam melhor e desenvolvam uma relação mais saudável com a comida? De forma bem simples: fazer com que elas se aproximem dos alimentos de forma neutra, lúdica e não julgadora, valorizando sempre as refeições em família e o prazer alimentar – quer ele venha de uma deliciosa cenoura laranjinha e docinha ou de um brigadeiro molinho e saboroso da festa de aniversário.
Tenho uma amiga nutricionista, a Maria Luiza Petty, que trabalhou bastante tempo dando aulas de culinária em escolas infantis, onde os alunos entravam em contato com alimentos in natura (e não já embalados em pacotes de supermercado!) e podiam eles mesmos preparar receitas deliciosas. Aprendizado por meio da curiosidade, do prazer e da culinária! Ela inclusive escreveu um livro chamado “Lugar de criança é na cozinha”, que pode ser comprado aqui.
A nutricionista americana Ellyn Satter propõe ainda uma divisão de responsabilidades entre as crianças e aqueles responsáveis pela sua alimentação (como os pais, por exemplo): os adultos devem se encarregar pelo que será servido, quando (que horários) e onde, enquanto que a responsabilidade das crianças é escolher o que e quanto/se vão comer.  Ou seja, não é papel das crianças decidirem que hoje no jantar vai ter hambúrguer se a mãe já havia decidido preparar arroz, feijão, bife e salada; assim como não é papel dos pais insistirem para que os filhos comam mais sendo que eles disseram que já estão satisfeitos. Para saber mais, vejam aqui.
Então, chame seu filho/irmão/primo para assistir “Ratatouille” e em seguida se aventurarem na cozinha preparando juntos o prato tema do filme. Se tiver bolo de cenoura com calda de chocolate de sobremesa melhor ainda :)
"Qualquer um pode cozinhar"

terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Eu me sinto gorda(o)"

"Olhe para essa barriga. Devo estar ficando fabulosa!"
 
Se eu ganhasse um real toda vez que ouvisse essa frase ou mesmo variações dela (“eu me acho gorda
(o)”, “eu tô obesa(o)”, etc.) eu provavelmente estaria rica. Ouço no consultório, na academia, na aula de dança, na sala de ginástica do meu prédio, no restaurante comendo com alguém, no almoço de família aos domingos, no ônibus, no metrô, na sala de espera do médico...

Não é segredo que a mídia hoje propaga um padrão de corpo e beleza que é inatingível pela maioria das pessoas. O papel da mídia é esse: vender insatisfação para que nós compremos os meios que “aparentemente” nos levarão à satisfação: cremes, maquiagens, kits e livros de dieta, suplementos, “alimentos milagrosos”, planos de academia, cirurgias e pacotes estéticos, e por aí vai. Numa sociedade que a todo momento prega um padrão rígido de corpo, sem valorizar as diferenças entre os diferentes biotipos possíveis, não é incomum nos sentirmos inadequados em nossa própria pele, em nossa própria casa. Então, sempre sugiro às pessoas que, quando vier o pensamento automático “eu me sinto gorda(o)”, elas deixem de lado a autocritica e reflitam: gorda(o) em comparação a que?
Com o padrão inflexível e manipulado promovido aí fora?

Mas o sentir-se gordo por vezes revela algo mais. Revela emoções sobre si ou insatisfações em outras áreas da vida, que por não conseguirem ser expressadas de uma maneira mais saudável acabam se depositando no corpo. Eu sempre brinco com meus pacientes que “gordo” não é sentimento, então peço para que eles tentem preencher a lacuna do que de fato estão sentindo. E não é à toa que os dias em que nos sentimos piores conosco mesmo são os dias em que já não estamos muito bem de humor, por exemplo: aquele dia em que acordamos chateados, ou que tivemos algum problema em casa ou no trabalho... O quadrinho abaixo ilustra bem essa questão.



Uma psicóloga americana que gosto, chamada Nina Savelle-Rocklin (veja seu site aqui), diz ainda que sentir-se gorda(o) por vezes está relacionado à intensidade da emoção ou sentimento, ou seja, qualquer julgamento que tenhamos sobre nós e que seja exacerbado pode levar a essa interpretação de “estou muito gorda(o)”: me sinto tímida(o) demais, falante demais, inteligente demais...
Por isso, tente não acreditar imediatamente em seus autojulgamentos e em sua autocrítica. Tente observar com curiosidade qual filtro está sendo utilizado em seu olhar para si próprio. E tente sentir e entender suas emoções. Sem medo, com gentileza e compaixão.

Boa semana a todos!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Sobre nudes e autocompaixão

Chegou em meus ouvidos que uma famosa blogueira fitness orientou que seus seguidores enviassem “nudes” (fotos nuas) aos amigos quando comessem algo que considerassem “errado” ou “proibido”, para evitar que isso acontecesse numa próxima vez. Tenho grandes ressalvas em relação a isso:

1. Não acredito que os amigos de ninguém gostariam de receber por whatsapp uma foto do indivíduo pelado/a;

2. Como uma pessoa que estuda mudança de comportamento alimentar, eu percebo que mudanças duradouras não surgem por meio da coerção, da culpa e da humilhação, e sim por meio do respeito por si próprio e da autocompaixão.

Tendo isso em vista, segue abaixo email que uma paciente mandou a uma pessoa de sua família, pedindo que esta parasse de julgá-la e estigmatizá-la por ser gorda (esse email é verídico e fui autorizada pela paciente a postá-lo):

Você disse que precisava falar.
 
Pois bem, eu também preciso.
Compreenda que não é a primeira vez que você me diz que estou gorda e preciso emagrecer. Você me diz isso todas as vezes que nos encontramos.
Compreenda que não preciso disso. Tenho espelho, revistas, informações, médicos e tabelas de IMC que me dizem o mesmo a todo momento. Eu não recuso sua contribuição,  ela só é redundante.
E compreenda também, que dizer isso não vai me deixar mais magra. Vai me deixar mais triste. Vai me fazer pensar mil vezes no que vestir para iludir minimamente você (e toda essa família que sempre olhou meus quadris antes de olhar meu olhos e perguntar como estou). No caso do resto da família, com quem minha relação é menos profunda do que com você, me faz, inclusive, evitar ao máximo esses encontros.
Hoje estou frequentando uma nutricionista, e meu objetivo com isso é melhorar a minha relação com a comida e com o meu corpo. Não com a balança.
Talvez não precisasse fazer isso se não tivesse crescido achando meu corpo errado, ruim e imperfeito. Mesmo quando, olhando retrospectivamente, não era.
Talvez não precisasse se tivesse aprendido a saborear uma mousse de chocolate de vez em quando, ao invés de devorá-la com culpa, raiva e uma certa sensação de vingança.
Talvez não precisasse disso se trinta anos fazendo dietas que obviamente não funcionam a longo prazo não as tivesse deixado cada vez mais difíceis de seguir.
Talvez não precisasse disso se o núcleo familiar em que cresci não estivesse sempre tão preocupado com aparências, em todos os sentidos, e muito mais com isso do que com saúde.
Não sei se seria mais magra ou mais gorda, mas certamente me seria mais fácil ir à praia, coisa que eu amo tanto e quase não faço, por me sentir completamente inadequada.
Você falou como profissional. Então, à profissional. Empatia funciona melhor que julgamento. Sei que você tem e exerce.
Boa semana a todos!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A polêmica dos alimentos que “dão” câncer

"Os médicos estão dizendo que cada pedaço de bacon que você come tira 9 minutos de vida. Baseado nessa matemática, eu já deveria ter morrido em 1732."
 
Há alguns dias têm se falado sobre um relatório da Organização Mundial de Saúde que inseriu as carnes embutidas e processadas – salame, salsicha, linguiça, bacon, mortadela, presunto e, quem diria, o queridinho das dietas, o peito de peru! – na lista do grupo 1 de carcinogênicos, que é o mesmo grupo do cigarro. Na verdade, pouco se falou sobre o relatório em si e o que de fato ele significa, mas muito se fez terrorismo nutricional com essa informação. Já tem gente chorando, achando que nunca mais poderá comer nada disso; já tem gente dizendo que comer esses alimentos faz tão mal quanto o cigarro; e você corre o risco, num almoço entre amigos, de alguém olhar para o seu prato e julgar as duas rodelas de paio que vieram junto com o feijão.
Estar nessa lista do grupo 1 de carcinogênicos significa que existe uma relação causal entre a substância/alimento que ali está e o surgimento de determinados tipo de câncer. Ou seja: comer embutidos (ou fumar) aumenta o risco de você desenvolver a doença. Mas atenção:
O aumento do risco não é igual para o cigarro e os embutidos. O cigarro aumenta em bem mais vezes o risco (veja mais aqui).
Isso não significa que os embutidos causam câncer, e sim que eles aumentam o risco.
Ainda assim, isso não significa que você necessariamente terá câncer se comer embutidos.
O surgimento de um câncer é multifatorial, ou seja, depende de uma série de fatores de risco – como estresse, inatividade física, exposição a agrotóxicos e poluição –  e também do indivíduo ter predisposição genética para desenvolver a doença!
Não estou advogando aqui que as pessoas então devam comer todo dias esses alimentos e em grandes quantidades. Voltamos então para a “regra” do equilíbrio! Tudo pode, tudo é saudável, contanto que haja equilíbrio!
Em resumo: não há nada de errado em querer diminuir a presença dos embutidos na sua rotina alimentar. Mas, por favor, não contribua com o aumento do pânico generalizado com a comida!
Boa semana a todos!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Se Dê Conta 2015

Como muitos já sabem, eu faço parte de um grupo incrível de nutricionistas (e uma educadora física!) chamado Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares e Obesidade, o GENTA. Todo ano, fazemos uma campanha chamada “Se Dê Conta”, que visa aumentar a conscientização sobre os transtornos alimentares e incentivar sua prevenção. Esse ano, a campanha que teve início dia 24/10 e vai até 31/10 consiste em postarmos fotos e frases (em modo público) no Facebook mostrando o que fazemos por um mundo sem neuras, usando a hashtag #sedecontasemneuras. Quando falo em “neuras”, estou me referindo ao terrorismo nutricional, à estigmatização de corpos, à prática indiscriminada de dietas, ao uso assustador de suplementos alimentares (até mesmo os sem comprovação científica), à prática de atividade física puramente para queimar calorias, e não por prazer... E por aí vai!!

Poste uma foto inspiradora em seu perfil do Facebook (lembre-se: em modo público!) e o Genta vai compartilhar em sua fanpage (veja aqui e aproveite para curtir a página!)

Vejam as fotos que já postei no meu perfil essa semana e mais uma extra, especial aqui para o blog!



 
Meu peso é só um número. Ele não determina meu valor como pessoa, meu sucesso ou minha saúde. #sedecontasemneuras
 


Não faço a atividade física que queima mais calorias, e sim aquela que me faz sentir bem e conectada com meu corpo! #sedecontasemneuras


E ainda postarei mais uma amanhã em meu Face!

Reflitam, participem , e cultivem uma vida sem neuras!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Coma mais devagar e... Gaste mais calorias

Acho que ninguém vai discordar que comer devagar tem suas vantagens: você aprecia mais a comida; facilita seu trabalho digestivo; é capaz de perceber melhor os sinais de saciedade, o que talvez faça com que coma menos... E agora os pesquisadores descobriram mais um benefício: quando você come devagar, seu corpo gasta mais calorias para digerir a comida.

O estudo (veja aqui) consistiu no seguinte: mulheres obesas na pré menopausa fizeram uma mesma refeição em dois dias distintos. No dia 1, a comida foi consumida por elas em 40 minutos, e no dia 2 em apenas 10 minutos. Avaliações metabólicas e de composição corporal também foram feitas em ambas as ocasiões. O que se viu foi que quando as mulheres comeram mais lentamente, o efeito térmico dos alimentos – a quantidade de calorias   que o corpo gasta a fim de fazer a digestão do que comemos – foi maior, bem como os níveis de adiponectina – substância que protege a saúde cardiovascular e aumenta a sensibilidade à insulina.

Apesar da amostra pequena (dez mulheres voluntárias), o estudo foi muito bem conduzido e, na prática, seus resultados sugerem que comer devagar poderia contribuir, a longo prazo, com uma perda de peso modesta, mesmo que o indivíduo não mude em nada a quantidade e o tipo de alimento que está comendo.

E você, já planejou e reservou um tempo razoável para fazer suas refeições hoje?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A pipoca e os scripts alimentares

Tradução: "Quanta pipoca de cinema você consegue comer? Toda ela."

Esse final de semana fui ao cinema e, na fila para comprar pipoca, ouvi a conversa do casal atrás de mim:
(ela) Vamos pedir dois combos médios ou grandes?
(ele) Ah, melhor pedir o grande, por mais um real você ganha mais pipoca e refrigerante, vale a pena...
(ela) Bom, então peça você, pois não tenho coragem de pedir para a moça o combo com bebida de 1L!
Essa conversa verídica apresenta algo muito discutido pelo pesquisador Brian Wansink em seus livros Mindless eating e Slim by design, que é o conceito de scripts alimentares: gatilhos inconscientes que nos fazem comer mais quando expostos a situações em que eles se encontram presentes. Um dos scripts acima está relacionado à noção preconcebida de que, se vou ao cinema, preciso comer pipoca. É como se fosse algo inerente, inseparável; e o outro é a ideia de que, se posso pagar só um pouco a mais para receber algo proporcionalmente maior, deve valer a pena... Não?
Sinto que um dos problemas atuais é que temos tomado muitas decisões automáticas e inconscientes como estas, baseadas em roteiros mentais que nem sequer fazem sentido quando confrontados com a realidade. Por exemplo:
  • Se eu almocei há pouco tempo, será que tenho fome ou mesmo vontade real para pedir pipoca no cinema?
  • Preciso pedir o pacote grande quando provavelmente a pequena já dará conta de me distrair até o início do filme?
  • Vale a pena mesmo pagar um real a mais por algo que de fato não me é necessário?
  • Se já me soa “estranho” (no caso da moça do diálogo) pedir um refrigerante de 1L, será que isso não é uma aviso cognitivo de que talvez seja muito?
Ao não prestarmos mais atenção em nosso processo de decisão alimentar, acabamos comendo mais, às vezes sem nem mesmo querer ou perceber.
Claro que não podemos controlar todas as nossas decisões alimentares, muitas delas são de fato automáticas e influenciadas por uma série de fatores! Mas talvez possamos tentar estar mais presentes ao momento em que formos comer, nos conectando aos sinais de fome, saciedade e apetite, para fazermos escolhas de fato mais conscientes.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Se sentir bem para mudar ou mudar para se sentir bem?



Essa semana atendi pela primeira vez um jovem com transtorno alimentar que, ao me contar sua história, disse que um dos fatores precipitantes para o início da doença foi o comentário de sua professora, após ele sofrer bullying dos colegas devido a seu peso: “Sabe, fulaninho, talvez você possa conversar com seus pais, tentar emagrecer um pouco, pois na verdade ninguém gosta mesmo de pessoas gordas... Vai ser pro seu bem.”

Ainda não consigo entender a lógica perversa – e extremamente arraigada em nossa sociedade – de fazer alguém se sentir mal, acreditando que isso vai então “motivá-lo” a mudar. Segundo teorias da Entrevista Motivacional, motivação vem do quanto o indivíduo percebe a mudança como importante para sua vida e do quanto ele se sente confiante em poder executá-la. Difícil imaginar que uma pessoa se sinta confiante ouvindo todos os dias a mensagem de que é inadequada... Talvez precisemos primeiro nos respeitar e nos sentir melhor sendo quem nós somos hoje, independentemente do nosso peso, para então poder mudar comportamentos. E não mudar (que para muita gente é sinônimo de “emagrecer”) para só então nos gostarmos... Esse caminho parece não fazer tanto sentido quando abraçamos a ideia de que somos dignos de respeito e acolhimento simplesmente por existirmos.

Outra coisa que me incomoda: já ouvi um colega profissional da saúde dizendo que “o problema do gordo é que ele não se enxerga. Se ele de fato soubesse o quão gordo ele é, se esforçaria mais para emagrecer”. Quer o obeso se perceba ou não como tal, emagrecer não é algo que simplesmente dependa do esforço e desejo individuais, e sim um processo complexo que envolve uma série de fatores que, em sua maioria, não podem ser controlados pelo indivíduo. Ser gordo não é uma escolha para a maioria das pessoas, embora possa ser para algumas, especialmente para aquelas que se tornam ativistas pelo respeito do indivíduo não importando seu tamanho. E na realidade, grande parte dos obesos sabe sim que está gordo, vivendo em meio à gordofobia e ao estigma da obesidade seria quase impossível não se dar conta. Alguns, de fato, podem subestimar um pouco seu tamanho corporal, o que está relacionado com aspectos de processamento neural da imagem corporal (veja aqui) e também com a dificuldade de se assumir gordo numa sociedade que despreza quem se encaixa nessa categoria. Ou seja, algumas pessoas entram em negação em relação ao seu peso porque, se de fato se assumissem/percebessem como gordas, suas vidas poderiam se tornar bem mais difíceis e hostis.

Proponho refletirmos sobre a ideia de que precisamos mudar para só então nos sentirmos bem conosco. Você merece se sentir bem hoje, pelo simples fato de ser humano e, portanto, falível. Quem sabe, então, ao se sentir mais digno e merecedor, não consegue mudar aquilo que tanto te incomoda? Como diz o ditado: somos perfeitos em nossa imperfeição.  

segunda-feira, 31 de agosto de 2015


Hoje é dia do nutricionista, um dia que para mim é de celebrar, mas também de refletir; refletir sobre os rumos da Nutrição e, especialmente, sobre o meu próprio, sobre meu papel e minha atuação como nutricionista.
Tenho me dado conta de que vivemos na época da “terceirização” do cuidado: me parece que muitas pessoas não querem se cuidar, mas sim serem cuidadas; querem ser monitoradas, vigiadas e controladas.
Vejo e ouço algumas coisas que me geram conflito interno: academias-conceito, com mensalidades de cerca de R$ 1000,00, onde o diferencial é que o personal trainer fica “ligado 24 horas por dia no aluno por mensagem: controla a alimentação, os treinos e a frequência” (matéria da revista 29 Horas, agosto de 2015); pacientes meus que se desesperam quando peço para que escolham o que gostariam de comer de café da manhã, e praticamente me imploram: “Carol, me diz o que eu posso e não posso comer, me faz uma lista, juro que vou seguir!”; clínicas de dieta famosas, que englobam o indivíduo de tal forma que ele deve frequentá-la algumas vezes por semana: passar por consultas ali, praticar exercício ali, assistir palestras ali e, se possível, comer ali (algo que não tenha sido escolhido por ele mesmo, claro).
De certa forma, esse movimento pode ser compreensível: num mundo de informações conflitantes, especialmente no que diz respeito a comida/corpo/peso/atividade física, parece que as pessoas perderam sua autonomia e liberdade de escolha. Pois para isso é preciso reflexão crítica e autoconhecimento, e muita gente não quer ou “não tem tempo” para isso.
E é nesse ponto que meu trabalho se torna um pouco mais difícil, já que eu não passo dietas e proponho que o indivíduo entenda e mude sua relação com a comida nos níveis mais profundos. Entendendo não só o que, mas como e por que ele come, poderá fazer escolhas de fato mais conscientes e se responsabilizar por seu autocuidado. Muitos pacientes descordam da minha abordagem e saem frustrados da consulta. Defender um novo paradigma pode ser bastante cansativo.
Mas é também bastante recompensador. Recebo feedbacks maravilhosos de meus pacientes e de vários leitores aqui do blog, que tomam a iniciativa de criar espaço para as coisas que fazem sentido para si. Vejo com frequência esse tipo de trabalho mudar vidas. E não foi porque o indivíduo perdeu peso, acreditem...
Tenho orgulho e satisfação em ser nutricionista. Parabéns a mim mesma e a todos os colegas da área!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os tipos de restrição alimentar



Todos os nutricionistas que trabalham com transtornos alimentares – e também aqueles que usam a abordagem defendida pela NutriçãoComportamental – têm como fato a premissa de que dietas levam à compulsão alimentar, comer emocional e/ou comer na ausência de fome. Por “dieta” me refiro aqui a  qualquer tipo de restrição alimentar com a finalidade de perda de peso, que não siga os sinais internos do corpo como fome, apetite e saciedade para determinar o que e quanto comer. Dietas forçam o indivíduo a seguir regras externas para determinar sua escolha alimentar, que inevitavelmente levam à transgressão e à culpa em comer. Dietas não fazem bem e não são inofensivas: dietas fazem mal.

A restrição alimentar mais óbvia é a restrição quantitativa, ou seja, a pessoa diminui a quantidade de comida que come a fim de reduzir a ingestão calórica, o que teoricamente levaria ao emagrecimento. Porém, muitos pacientes que têm uma relação ruim com a comida me dizem em algum ponto do tratamento: “Carol, eu não estou mais fazendo restrição, estou comendo todas as refeições e em quantidades adequadas... Então por que ainda estou tendo compulsão?”

“Porque você está fazendo outros tipos de restrição”, é a minha resposta. 

O segundo tipo de restrição é a qualitativa, isto é, o indivíduo come em quantidades razoáveis mas nunca (ou quase nunca) se permite comer os alimentos que gosta, somente aqueles que considera “corretos”. Isso ainda faz parte da mentalidade de dieta, que dicotomiza os alimentos entre “permitidos” e “proibidos”. Se a pessoa ainda faz dieta, ela ainda tem compulsão.

O terceiro e último tipo, que por ser mais sutil pode correr o risco de passar batido, é o que eu chamo de restrição cognitiva. É quando a pessoa até come o delicioso brigadeiro que tanto queria... Mas com a sensação de que não deveria. A certeza de estar quebrando uma regra leva automaticamente à culpa e ao pensamento de “8 ou 80”: “já que comi um brigadeiro, já que já meti o pé na jaca, melhor comer logo 10...”

Daí a importância suprema da permissão incondicional em comer, defendida pelo modelo do Intuitive Eating, que está explicado em detalhes em nosso livro Nutrição Comportamental (pode ser comprado aqui). Claro, quando toco nesse assunto, os pacientes logo demonstram o medo de passar a comer somente comidas muito gostosas e calóricas caso se permitam; e, de fato, isso pode acontecer no início. Mas se o indivíduo resistir e não adotar a mentalidade de dieta novamente, essa fase passa. Experimente comer sua comida predileta todos os dias por um mês, e veja se ao final deste você ainda tem desejo de continuar comendo a delícia escolhida com a mesma frequência e intensidade...

E então, já se permitiu hoje?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A dança das emoções


Assistindo ao novo filme da Pixar “Divertidamente” (“Inside out”), lembrei-me de um antigo dizer que coloca que o contrário de amor não é o ódio, e sim a indiferença. A indiferença pode ser muito mais destrutiva que este último, e acredito que assim seja com nossas emoções. Ignorar aquilo que sentimos, não entrando em contato com as emoções por mais dolorosas que sejam, destrói nossa habilidade de nos conhecermos, de aprendermos algo valioso sobre nós mesmos e de crescermos e florescermos como pessoas plenas e felizes. As emoções são verdadeiras bússolas, guiando nosso entendimento do mundo e nossas atitudes. Ou seja, existe espaço dentro de nós para todas as emoções. Nada é proibido ou vergonhoso de ser sentido. Inclusive, a crença de que devemos ser felizes a todo momento é um dos motivos que nos leva a sermos mais infelizes! Até porque, se não sentíssemos emoções “negativas” (como tristeza), como saberíamos o que é alegria e contentamento?

Entendo que algumas pessoas (vejo isso em vários pacientes) têm uma grande dificuldade em sentir e interpretar suas emoções, reagindo automaticamente a elas e adotando muitas vezes um padrão destrutivo de comportamento, como se engajar com frequência em comer emocional e compulsão alimentar. Cabe ao nutricionista que quer trabalhar essas questões perceber e apontar aos pacientes a maneira como seus sentimentos estão interferindo em sua relação com a comida; e cabe ao psicólogo, valioso parceiro nesse processo, trabalhar essas emoções com os pacientes e ajudá-los a criar um espaço dentro de si mesmos para que essas emoções possam circular e reverberar; e, talvez, quem sabe, dançar.

   

Para saber mais:

http://www.mindful.org/five-things-pixars-inside-out-teaches-us-about-emotions/?utm_source=Mindful+Newsletter&utm_campaign=3092bd9fa4-MF_Weekly_Newsletter_August_48_4_2015&utm_medium=email&utm_term=0_6d03e8c02c-3092bd9fa4-21277385

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Doses homeopáticas de inspiração

Hoje trago neste post alguns vídeos bastante informativos e inspiradores, que promovem uma reflexão crítica acerca dos temas corpo, padrões de beleza, saúde e comida. São vídeos curtos, de no máximo 15 minutos, vale a pena assistir! Alguns possuem legendas em português, outros infelizmente não (mas o Youtube oferece a opção de legendas em inglês). Aproveitem e reflitam!

Cultivando o equilíbrio mental e emocional; por Alan Wallace


Alan Wallace é um grande estudioso e um dos maiores tradutores/intérpretes do Budismo tibetano no mundo ocidental. Nesse vídeo, ele fala sobre os benefícios do mindfulness (atenção plena) no cultivo do equilíbrio mental e emocional e de estados mentais positivos.

Emoções positivas expandem nossa mente; por Barbara Fredrickson


Barbara Fredrickson é um dos grandes nomes na área da Psicologia Positiva, e neste vídeo ela aborda como o cultivo de emoções positivas nos torna mais conscientes do mundo à nossa volta e nos torna mais compassivos. Para quem tiver interesse, ela ministra um ótimo curso online de Psicologia Positiva no portal Coursera, e é grátis. Veja aqui

Aparência não é tudo. Acreditem, sou modelo; por Cameron Russell


A modelo Cameron Russell, que admite ter ganhado uma “loteria genética” promove um debate sobre os padrões de beleza vigente e sobre a glamourização do culto ao corpo e à imagem.

Doug na balança; episódio do desenho animado Doug Funnie


Quem, como eu, se divertia muito com esse desenho animado na infância vai gostar desse vídeo, que mostra a obsessão que a prática de dietas promove e o quanto o estigma da obesidade nos afasta daquilo que realmente importa: a conexão entre seres humanos e o desejo comum a todos de sermos felizes!

De repente, meu corpo; por Eve Ensler


A ativista feminista Eve Ensler, autora da famosa peça “Monólogos da vagina” (encenada mundialmente), conta nesse vídeo sobre como esteve desconectada de seu corpo por muitos anos e de que forma ocorreu sua “volta para casa”. Ela fala sobre a mudança de paradigma que o respeito ao próprio corpo pode trazer às nossas vidas.  

Porque é OK ser gordo; por Golda Poretsky


A ativista do movimento Health at Every Size explica porque as dietas não funcionam e porque ser gordo não é em si um problema. Ela traz referências de estudos que comprovam que as pessoas podem ser saudáveis em qualquer tamanho, a depender de seu estilo de vida e dos comportamentos de saúde adotados.

Nutricionista; por Porta dos Fundos




Finalmente, dois vídeos sobre (e para) os nutricionistas, que mostra por meio do humor a mediocrização da Nutrição quando reduzida a uma profissão simplesmente “emagrecedora” e que leva em conta somente o papel biológico da comida, esquecendo suas funções culturais, sociais, emocionais e afetivas. 

sábado, 4 de julho de 2015

Transtorno alimentar é “estilo de vida”?

Recentemente, me mandaram a seguinte postagem de Facebook: “Cada portador de TA (transtorno alimentar) tem o direito de decidir se sofre de uma condição psicológica ou se apenas aderiu a um estilo de vida, e há muitas vertentes que consideram o segundo caso como correto”.

É de certa forma comum pacientes com transtorno alimentar – que, vamos deixar bem claro aqui, é SIM uma doença psiquiátrica – em algum momento não internalizarem/aceitarem que de fato estão doentes. Primeiro porque às vezes a doença é tão grave que a pessoa já se identificou com ela, ou seja, o transtorno alimentar já faz parte de sua identidade. Segundo porque o tratamento de um transtorno alimentar é longo, complexo e normalmente caro, já que exige a atuação de vários profissionais especializados (pelo menos nutricionista, psiquiatra e psicólogo). Como se trata, então, de um tratamento difícil e que requer ampla participação e enfrentamento por parte do paciente, muitas vezes pode haver uma resistência em se tratar e uma negação do processo da doença. Nessa linha, um estudo recente publicado no Australian and New Zeland Journal of Psychiatry (veja aqui) demonstrou que crenças positivas em relação à anorexia nervosa estavam associadas a uma maior sintomatologia de transtornos alimentares, tanto em homens quanto em mulheres. Para identificar as tais crenças positivas, os pesquisadores apresentaram aos participantes (universitários) um relato de um homem e uma mulher com sintomas de anorexia nervosa, mas sem explicitar abertamente o diagnóstico aos participantes. Consideraram-se crenças positivas uma admiração dos voluntários em relação ao controle alimentar exercido pelos personagens fictícios, bem como um desejo de ser parecido com eles.  Ou seja: quem acha "bacana" ter transtorno alimentar provavelmente o tem também...

Sendo assim, confesso que foi um pouco chocante ler esta publicação numa rede social, a opinião de um indivíduo que não entende sobre isso amplamente disponível para que qualquer pessoa leia e interprete à sua maneira. Transtorno alimentar  NÃO pode ser estilo de vida na medida em que o indivíduo acometido se torna obsessivo, inflexível e apresenta prejuízos no convívio social e na qualidade de vida. NÃO pode ser estilo de vida quando as pessoas claramente estão sofrendo com isso. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O viés negativo

Hoje acordei com aquela sensação de querer ficar mais na cama. Achando que era só a preguiça falando, levantei, pus a roupa de ginástica e fui para a academia. Minha cabeça a mil, já pensando nas várias coisas que tenho para fazer hoje, não me concentrei nos exercícios que tanto gosto e na minha caminhada na esteira, que é quando assisto meus seriados favoritos. Sensação de não ter aproveitado bem aquele momento de cuidar de mim, e também não consegui aiviar a sensação de cabeça cheia. 

Voltando pra casa, quase tropeço numa pedra e um poodle, aparentemente fofinho, se aproxima de mim com sua dona. Eu sorrio pra ele, mas ele late alto e quase me avança. Um poodle! Daí, aquele pensamento inevitável que quase todo mundo já teve uma vez na vida: “hoje eu deveria ter escutado minha intuição e ter ficado na cama! Tem dias que a gente não deve nem acordar!”.

Foi daí que, graças à minha prática de meditação de atenção plena (mindfulness), consegui perceber o movimento que estava acontecendo dentro de mim. Percebi a onda de negatividade tomando conta... Então, respirei fundo, acolhi o ensinamento sobre a intuição (realmente acredito que poderíamos ouvi-la mais vezes!) mas rejeitei o pensamento sobre não ter acordado. Despertar de manhã é uma dádiva. Agradeci por estar viva e com saúde.

Segundo muitos neurocientistas, dentre eles Rick Hanson, autor dos ótimos livros “Cérebro de Buda” (veja aqui) e “O cérebro e a felicidade” (veja aqui), todos nós temos um “viés negativo”, isto é, uma habilidade para registrarmos e nos apegarmos mais às coisas negativas que nos acontecem que às positivas. Essa tendência é algo evolutivo pois, ao focarmos no negativo, reforçam-se nossas habilidades de sobrevivência, mais do quando focamos nas coisas boas. Como o autor mesmo coloca, "o cérebro é como velcro para experiências ruins e como teflon para as boas - mesmo que a maior parte das experiências seja neutra ou positiva". 

Algo que ajuda muito a neutralizar nosso viés negativo e o cultivo da gratidão, que foi o que eu fiz na história que contei acima. Todos nós, todos os dias, temos algo de bom para agradecer, mesmo que sejam as coisas mais simples: ter saúde para enfrentar os problemas e desafios, um elogio de um colega, um olhar carinhoso de um familiar, uma ligação insperada de um amigo distante, uma surpresa agradável, uma refeição que conforta... Não se trata de ser piegas e “forçar” uma sensação de gratidão, mas sim de observar seu dia com cuidado, aceitar o que aconteceu e conseguir treinar o olhar para as coisas aparentemente irrelevantes que te ajudaram a chegar até  este momento. Com isso, novas conexões (sinapses) vão se formando em nosso cérebro, e o viés negativo vai perdendo sua força. Isso não é misticismo, a ciência comprova isso!

Um exercício bastante agradável para praticar a gratidão é fazer sua própria “jarra de gratidão”, que consiste em anotar situações pelas quais se é grato em um pedaço de papel e jogar dentro de um recipiente, vendo como ele vai se preenchendo aos poucos (veja uma explicação mais detalhada em inglês aqui). Esta é a minha jarra, que comecei a encher no início do ano!




Espero ao final do ano tê-la enchido completamente. Daí, vou sentar e reler todos os papeizinhos, agradecendo e me recordando com carinho de cada um daqueles momentos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Cirurgia bariátrica e diabetes: não é tão simples assim...

Uma das justificativas para o número cada vez maior de cirurgias bariátricas na população com diabetes tipo 2 é a ideia de que o procedimento “curaria” a doença. Mas eu sempre ressalto em minhas aulas sobre diabetes que “o buraco é mais embaixo”.

Sim, muitos pacientes apresentam uma melhora drástica no controle glicêmico nos primeiros dois anos após a cirurgia; porém, o diabetes tipo 2 é uma doença crônica, portanto irreversível, e com diversos processos metabólicos envolvidos, havendo inclusive destruição de células beta (produtoras de insulina). Sendo assim, é bastante comum os pacientes, após esse período inicial de “lua de mel” da cirurgia, voltarem a apresentar descontroles glicêmicos (no jejum e pós-prandial, ou seja, após as refeições) e necessitarem novamente de medicação. Inclusive, um estudo de 2013 (veja aqui) mostrou que após seis anos de cirurgia a taxa de remissão total e parcial do diabetes foi de somente 24 e 26%, respectivamente, mesmo sem reganho significativo de peso. E pasmem: 16% dos pacientes não apresentaram mudança alguma em seu status de doença com o procedimento.

E foi publicado este mês na revista Lancet (séria e confiável revista científica) um estudo no qual 120 pacientes com diabetes tipo 2 foram acompanhados por dois anos: metade fez cirurgia e metade passou por tratamento convencional para a doença. A ocorrência de deficiências nutricionais, fraturas ósseas e infecções foi mais frequente nos indivíduos operados, reforçando ainda mais a necessidade de acompanhamento aos indivíduos com diabetes que optam pela cirurgia (veja estudo aqui).

Então, digo com bastante segurança: não existe ainda cura para o diabetes tipo 2, e o cuidado deve ser constante. Mesmo - ou melhor, especialmente - com a cirurgia bariátrica.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Primum non nocere: um desabafo.



Na minha graduação em Nutrição, tive uma disciplina chamada Bioética. A Bioética é o estudo das implicações morais e éticas que surgem quando se trabalha com a saúde dos seres humanos. Lembro que as aulas costumavam ser polêmicas e por vezes consideradas “chatas”. Costumávamos pensar: “nossa, eu tenho bom senso, eu sei agir com ética, não preciso estudar sobre isso...”

Será que não?

Um dos princípios da bioética é aquele derivado do termo em latim do título ("primum non nocere"), ou do conhecido termo em inglês “first do no harm”: é o princípio da não maleficência. Ele propõe que o profissional não deve inflingir dano intencional ao seu paciente. Ou seja, se não puder fazer o bem, pelo menos não faça mal. Parece óbvio, mas acho que nos perdemos ao longo do caminho.

Quando colegas nutricionistas (nem vou aqui entrar no mérito de blogueiros e perpetuadores da pseudociência) vinculam seu trabalho a esse tipo de imagem acima nas redes sociais, acredito que de certa forma eles estejam infringindo o princípio da não maleficência. É claro o desespero do bonequinho ao se dar conta de que ele estava “quebrando” a dieta, comendo algo “proibido”. Qual a resposta a isso? Cuspir. Essa ilustração, na minha opinião, só incentiva a neurose alimentar em que estamos vivendo e os comportamentos e atitudes transtornados na nossa relação com a comida. 

Tenho pacientes com transtorno alimentar que fazem justamente isso quando querem purgar, ou seja, compensar algo que comeram e que acreditam que não deveriam: eles cospem, vomitam. E sofrem com isso, pois têm uma doença que os leva a agir dessa maneira. E muitas vezes, um dos gatilhos para o surgimento de transtornos alimentares são imagens como essas, que quando publicadas por profissionais de saúde adquirem peso maior.


Nós, profissionais de saúde, temos que nos dar conta do potencial influenciador que temos sobre os indivíduos quando vamos passar uma mensagem. E temos que tomar cuidado para que elas não contenham em si potencial danoso sobre alguns indivíduos potencialmente sugestionáveis. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Em que unidades de medida você descreveria seu corpo?


(Este texto foi a resposta da minha paciente à pergunta do título; para entender melhor, leia aqui o último post que escrevi)


"A primeira resposta foi 'em nuvens'.

Nuvens são lindas, de diferentes formas e fluidas. Formam animais, criaturas que não existem. Daí lembrei que elas são metáfora de leveza. Pensei que não era uma boa unidade de medida, porque se opunha à ideia de peso. E o corpo tem peso.

A segunda resposta foi 'em viagens'.

Fiz também muitas viagens. Internas e externas. Estive em muitos lugares. Gosto de ser andarilha, de observar coisas, aprender gírias, hábitos. Meu corpo está junto.

Entretanto, pensar sobre a resposta fez com que me lembrasse de um episódio bastante triste de viagem, que mudou muito minha relação com meu namorado. Talvez tenha quebrado uma coisa aqui por dentro que nem sei se será possível consertar:

Há bastante tempo, ele queria muito que fôssemos passar uma semana em um resort. De minha parte, tinha pânico profundo desta ideia – ser obrigada a ficar na piscina de biquíni entre turistas deslumbrantes e bronzeadas. Parece bastante ridículo. Entretanto, algumas críticas a meu corpo fora da boa forma, críticas passadas naquela pior forma de recomendação para a saúde, feitas pelo meu namorado tinham me deixado escaldada. Ele começou a namorar comigo na minha fase mais gorda. Mas me conhecia há muitos anos, quando era magra, e por algum motivo isso me encanava demais – achava que ele lembrava de mim naquela época, sabe? E sei que isso o incomodava também. Sempre dava alguns conselhos para fazer exercício, esse tipo de coisa.

Bom, a história é que sei que consegui o dissuadir da ideia de ir a um resort por duas vezes. Mas numa terceira, ouvindo os conselhos de uma amiga do trabalho, decidi aceitar. Se ele gostava tanto daquilo, vamos fazer as vontades. Foram medonhas minhas incursões para comprar biquíni. Os que tinha na gaveta nem me serviam mais, joguei-os fora. Também nas lojas absolutamente nada servia. Não passavam nem no quadril. Sei que gastei uma fortuna em dois modelitos só para dizer que tinha conseguido. Arrumei as malas.

Chegamos à noite. Os dois tinham feito uma viagem extenuante para chegar no resort, cada um vindo de uma cidade diferente. Estava louca de saudades dele, de vontade de transar e de o apertar, mas não rolou assim que chegamos – ainda fomos jantar, bebemos muito, daí rolou. Fiquei meio chateada com isso, com a distância. E estava já bem preocupada com a questão biquíni. Dormi.

Amanheceu. Era dia de praia. O lugar tinha aquela beleza indecente. Azuis no mar que eu nunca tinha visto. Poderia morrer ali de tão bonito. Depois do café da manhã – acordamos tarde  coloquei um dos biquínis e acho que uma canga, nem me lembro. Vesti Havaianas e passei rímel. Tenho 'mixed feelings' sobre usar maquiagem na praia, um pouco brega, mas eu precisava me proteger. Desci. O caminho era longo e tortuoso, com uma vista deslumbrante para o mar. Adoro o mar. Adoro o sol também.

Cheguei na praia. Escolhi uma cadeira. As turistas bronzeadas deslumbrantes estavam lá. Seres imortais e tão bonitas. Sílfides. Era como se eu não encaixasse ali. Bateu um desespero.

Daí vi que havia um bar na praia. Eu tinha uma pulseira de 'tudo incluído'. Pedi um daiquiri. Achei graça. Se eu fosse escolher a mulher mais interessante da praia, escolheria a do daiquiri. Comecei a rir sozinha. Quem não tem siri, caça com daiquiri. Consegui sobreviver aos outros dias quase bem depois do feito.

Nesta viagem ainda, briguei feio com meu namorado sobre padrões de beleza. Consegui explicar exatamente o quanto mal me sentia. Quer dizer, não assim tão bem, porque nem eu sei, mas foi satisfatório. Ele nunca mais disse nada a respeito. Não que as coisas tenham ficado bem, alguma coisa quebrou aqui dentro, mas é uma batalha, sabe? 

Hoje me dei conta do quão machucada ainda sou por essa história. Parece bem boba. Parece uma nota de rodapé. Mas é isso. É você achar que não tem direito a ocupar uma faixa de areia. Não poder entrar numa piscina. Fiquei pensando uma resposta, que meu corpo poderia ser medido em poemas ou em histórias. Daí volta a ser algo muito intelectual. O corpo tem peso.

Lembrei ainda que adorava tomar sol na praia. No quintal. Não tinha a menor vergonha. Talvez hoje tenha que voltar a tomar sol. Daí decidi a medida: poderia medir meu corpo em raios de sol tomados durante a vida.

Tem peso, tem velhice, tem prazer. Talvez seja uma boa unidade de medida.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Carta ao corpo: um exercício transformador


Uma das coisas mais importantes quando queremos melhorar nossa relação com quem quer que seja é estabelecer e incentivar uma comunicação assertiva, certo? Falar aquilo que sentimos, sem no entanto culpabilizar ou agredir o outro... Uma comunicação sincera e ao mesmo tempo gentil, sempre que possível. Por isso, gosto bastante de pedir aos meus pacientes que escrevam uma carta ao próprio corpo, especialmente para aqueles que possuem uma relação difícil com ele e que sofrem com distúrbios de imagem corporal. Esse exercício de escrita é catártico, abre um canal de comunicação direta com o corpo, possibilitando assim uma transformação (mesmo que pequena) da relação entre o indivíduo e si mesmo. Afinal, nós somos o nosso corpo! Não existimos sem ele, estamos integrados!

O texto abaixo foi uma paciente minha que escreveu, e ela me autorizou publicá-lo aqui no blog para a apreciação de vocês (sim, pois é muito poético!).  

“Querido Corpo, Ilustríssimo Corpo,

Qual pronome de tratamento que você prefere? Nossa comunicação é tão rara e fugidia que até decidir o pronome tá difícil. Isso me faz lembrar outra lambança: a pessoa. Sim, porque a gente (ou ao menos eu) estamos acostumados a pensar o corpo em terceira pessoa – aprendi essa sacada com a Marília Coutinho, neste post do Blogueiras Feministas – e pensamos o corpo não em primeira pessoa, como deveria ser. Temos pouquíssima prática em “corpar”, ou seja, ser o próprio corpo. Daí é bastante confuso pensar o você-corpo nas evocações de segunda pessoa (nem vou mencionar o embrólio que o “você” e o “tu” apresentam na variante brasileira da língua).

Sem decidir o pronome de tratamento, digo que minha relação contigo apenas aparece em primeira pessoa em situações bastante específicas: quando faço amor, sexo ou, na mais bonita das hipóteses, os dois juntos. Daí eu sou você tudo junto. Também quando tenho crises de asma e não consigo existir fora de você e respirar. Ainda quando danço, momento em que sinto que tua presença é a minha. Ou ainda quando canto. Embora ande cantando ou dançando pouquíssimo para te visitar. Não é agradável. Por isso, comecei falando de gramática. Pra rodear.

Daí chegamos ao ponto. Às vezes, não te reconheço. Diria que na maior parte dos dias e noites. Você-corpo é um ente abstrato. Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.  Você não se cuida. Os velhos chavões. Praticar exercícios. Emagrecer. Cuidar da saúde. Ao menos, passo filtro solar. E fio dental. E penteio meu cabelo. Cabelo cheio de tintura, porque ainda não tenho cabelos brancos e porque gosto de cabelos tingidos. Cabelo picotado na diversão de cortar o próprio cabelo. Talvez o cabelo seja uma presença tua, você-corpo, que eu sei que é minha.

Reli meus poemas que falam do tema. Habitar o próprio corpo. Encontrei aquela nota melancólica. A dificuldade. O julgamento dum alguém (quem atende por esse outro?). Depois mando os poemas, porque agora estou atrasada. Sim, estou atrasada e decidi escrever logo essa carta que a Carol pediu porque estava me angustiando. Fiz listas. Organizei ideias. Mas agora-aqui-contigo sempre é muito mais complicado.

A verdade é que não sei, não decidi ainda se quero te chamar de você. Muito menos de “eu”. Sabe como geralmente me descrevem? “Uma menina inteligente”. Disso decorrem duas coisas: jura que sou ainda “menina”, se já tenho 35 anos? Gosto que me chamam de “inteligente”, porque assim se reforça a ideia: não preciso ter você-corpo pra existir e ser elogiada. Imagino que nada disso seja agradável de ler, desculpa, mas estamos nessa tentativa de pingos nos is.

Vou pensar mais em tudo, prometo.

Aproveita que você é a pessoa do lado físico e também me escreva.

Com dificuldades e com amor,

Eu-mesma.”

Confesso que fiquei emocionada ao ver o mergulho que essa paciente fez em si mesma. É preciso coragem e disposição. Pois essa é a verdade essencial: para se melhorar a relação com o corpo, é fundamental haver intenção. A pessoa precisa querer sair do ciclo de autoflagelação e ódio ao corpo. É preciso deixar as culpas e mágoas de lado, por mais difícil que seja esse processo. É preciso se tratar com um pouco mais de autocompaixão.

Como reflexão final na consulta, chamei a atenção da autora quanto à parte em que ela coloca como seu corpo é descrito atualmente (“Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.”). Questionei a ela como ela descreveria seu corpo, que unidades de medida usaria... Já que cabe somente a ela definir isso. O resultado foi outra belíssima composição escrita, que publicarei no blog semana que vem.

Bom feriado a todos!


OBS: uma amiga nutricionista, Alessandra Fabbri, também publicou no blog do Genta (Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares) uma carta ao corpo de uma paciente sua. Veja aqui

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?


Esta semana, que antecede a Páscoa, é chamada pelos católicos de Semana Santa, e é para mim um momento de bastante reflexão sobre a necessidade que temos de “renascer” para determinadas situações e circunstâncias de nossa vida. Assim como eu acredito que Jesus Cristo morreu por compaixão a nós e ressuscitou para que tivéssemos uma nova vida, cheia de esperança e amor, também acredito que podemos aproveitar a Páscoa para alimentarmos nossa autocompaixão e a esperança de construir uma nova relação com a comida.

Todos sabemos que, na Páscoa, existe um apelo consumista exagerado em torno do chocolate, um dos alimentos mais vistos pelas pessoas como “proibido” ou “engordativo”. Junte esse apelo comercial com a aura de “proibido” e essa se torna uma época de exagero e culpa para indivíduos com transtornos alimentares ou com uma relação complicada com a comida e o peso. Se esse é o seu caso, reflita sobre o seguinte:

1. Chocolate é só chocolate. Quando você consegue vivenciar a experiência de degustar de verdade um chocolate, envolvendo nisso todos os seus sentidos, sem deixar a cabeça ser levada pela enxurrada de pensamentos negativos, depreciativos e culpa, você aos poucos chega ao entendimento de que chocolate é apenas isso: chocolate. Sim, ele é gostoso e prazeroso. Mas você não consegue comer 200g de uma vez se estiver plenamente conectado com a experiência e não se julgar por estar comendo algo tido como “proibido”.

2. Exerça sua seletividade. Se for mesmo comprar mesmo um ovo de Páscoa (apesar dos preços abusivos!), pense: você realmente prefere comprar um ovo de Páscoa imenso daquela marca comum ou de repente vale a pena comprar um ovo menor de uma marca mais saborosa e gourmet?

3. Aproveite o simbolismo espiritual dessa festa para rever questões importantes sobre sua vida. Autocompaixão é sermos tolerantes com nossos erros e limitações, é a capacidade de nos perdoarmos quando acreditamos que fizemos algo errado. O quanto eu consigo exercer a autocompaixão depois de comer um grande quantidade de chocolate? Como eu consigo cuidar melhor de meu corpo, sem ser por meio de restrições e culpa, e amá-lo um pouco mais?   

E lembre-se:



Boa Páscoa a todos!