São Paulo, uma manhã dessas.
Calor de 29oC já às 9h da manhã. Sentada no metrô, vejo uma moça
obesa entrando, bem bonita inclusive. A senhora ao meu lado comenta: “gorda
desse jeito e ainda usando essa calça colada!”. Finjo que não era comigo e
seguimos viagem.
A fala acima não é incomum.
Aposto que você já ouviu algumas variações dela, e principalmente dirigida a
mulheres:
“Nossa, gente
gorda não tem noção mesmo!” (comentário proferido ao ver uma mulher gorda usando
minissaia, por exemplo)
“As pessoas têm que entender
que certas coisas simplesmente não caem bem em determinados tipo de corpo.”
Antes de mais nada, gostaria
de deixar claro que as frases acima são extremamente preconceituosas e só
reforçam o estigma da obesidade, tema já tratado anteriormente aqui nesse blog.
Uma evidência clara do teor preconceituoso desses comentários é que muito provavelmente
eles não seriam dirigidos a pessoas magras que estivessem usando uma calça
colada, uma minissaia, uma blusa mais curta...
Em relação ao primeiro
exemplo, sobre “falta de noção” dos obesos, a afirmativa pode muitas vezes ser
verdadeira. Explico: diversos estudos, como este e este mostram que pessoas com sobrepeso ou obesidade têm a tendência de subestimar
seu peso e tamanho corporais, ou seja, muitos não se percebem como gordos.
Alguns estudiosos da área sugerem uma explicação para tal fato: o estigma da
obesidade é tão forte e tão presente em nossa sociedade que não enxergar o
corpo como gordo pode trazer um certo “alívio” no convívio diário com si mesmo
e os outros. Seria uma espécie de “mecanismo de defesa” contra o sofrimento que
vem do estigma.
Alguns diriam: “Ah, mas se a
pessoa não se enxerga gorda, como ela vai adotar comportamentos que tragam
benefícios à saúde?”
Em primeiro lugar,
precisamos entender que o peso/tamanho do nosso corpo não é o único motivador
para que pessoas adotem comportamentos saudáveis. E não podemos determinar o
estado de saúde de alguém com base em seu peso, isso seria novamente o estigma
da obesidade em ação. Afinal, existem muitos magros que comem de forma não
saudável e gordos que, por sua vez, o fazem.
Em segundo lugar, será mesmo
que ter uma noção mais clara do tamanho do corpo – o que no caso de obesos implica
provavelmente em sentir-se mais “inadequado” – influencia positivamente na
saúde? Este estudo encontrou que a diferença entre o peso atual e o desejado parece ser um
preditor mais forte de saúde física e mental do que o IMC. Ou seja, muitas
vezes, o sentir-se inadequado em nossos corpos influencia mais no surgimento de
consequências negativas à saúde do que o peso em si. Já esta pesquisa mostrou que pais que identificavam seus filhos como tendo sobrepeso ou
obesidade não estavam mais propensos do que pais que não identificavam
corretamente seus filhos a adotar determinados comportamentos de saúde, como
ofertar mais frutas e legumes, reduzir a oferta de refrigerantes, promover mais
refeições em família... E mais: os pais que caracterizavam seus filhos como
gordos estavam mais propensos a encorajar a prática de dietas, o que por sua
vez já se sabe que promove ganho de peso a longo prazo.
Finalmente, em relação à
segunda frase, sobre pessoas que “não entendem que certas coisas não lhes caem
bem”... Acredito que quem tem que decidir se a roupa cai bem ou não é a própria
pessoa que a veste. Será que precisamos julgar até mesmo a escolha da indumentária
alheia? Que tal exercitar o não julgamento?
Boa semana!

