sábado, 13 de julho de 2013

Participante de reality show é processada por ganhar peso


A americana Tara Costa, ex-participante do reality show "The Biggest Loser", está sendo processada por ter ganhado 20 dos 70kg que ela perdeu em 2009 no programa. Para quem não sabe, neste programa alguns obesos ficam confinados numa casa e passam o dia todo fazendo exercício, comendo pouco e se engajando em mil loucuras para ver quem perde mais peso, precipitando inclusive casos de transtorno alimentar.

A empresa "FC Online Marketing", de quem Tara é garota-propaganda, alega que a moça desrespeitou a cláusula que diz que ela teria que manter seu nível de fitness e condicionamento durante a vigência do contrato.

Existem dois problemas nisso tudo:

1. Ter condicionamento físico e manter um certo grau de fitness independe de peso. Prova disso são os estudos com obesos metabolicamente saudáveis (veja aqui) e a existência de atletas olímpicos gordos (veja aqui).

2. Já é mais do que comprovado pela ciência que perder muito peso, de forma rápida, e sem adotar mudanças de estilo de vida sustentáveis é garantia certa de reganho de peso, graças às mudanças fisiológicas e psicológicas que ocorrem em nosso corpo diante dessas situações: maior liberação dos hormônios de fome, maior salivação, maior síntese de gordura pelas nossas células de armazenamento (adipócitos), pensamentos obsessivos sobre comida... (vejam este estudo super interessante sobre o tema).

Ahh, os americanos e sua "queda" por processos incabíveis...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

“Eu sou uma porca gorda”



“Eu sou uma porca gorda”. “Minha barriga tem tantas dobras que eu poderia esconder criancinhas nelas”. Infelizmente, é comum na minha prática ouvir pacientes (especialmente mulheres) tratando seus corpos com desprezo ou até mesmo de forma pejorativa, usando por exemplo as frases acima. Apesar de fofa a imagem do animalzinho, minhas pacientes em nada se parecem com ele.

Esse tipo de linguajar usado para ofender seu próprio corpo ou o corpo das outras pessoas é chamado em inglês de fat talk, apesar de muitas vezes não se relacionar só com gordura (um paciente homem já disse por exemplo: "estou tão 'frango' que pareço um aidético", referindo-se ao seu descontentamento com o volume de massa muscular em seu corpo). E o fat talk é extremamente perigoso, apesar de parecer para alguns inofensivo ou até mesmo engraçado.

Em primeiro lugar, é perigoso porque quanto mais você se agride, mais aumenta sua insatisfação corporal (isto é comprovado inclusive por estudos). E quanto mais insatisfeito você está consigo mesmo, menor a probabilidade de você se engajar em seu autocuidado (veja aqui). Além disso, fat talk é como um dominó: você começa se denegrindo, a pessoa ao seu lado vai começar a se denegrir também (“você, gorda suja? E a minha barriga então!”) e logo menos vocês estarão “brigando” para ver quem se odeia mais.

Em segundo lugar, é perigoso porque focar-se nos aspectos negativos de seu corpo normalmente funciona como uma distração de outros aspectos de sua vida que não estão te agradando, ou mesmo como uma fuga de sentimentos difíceis. E se você não se focar no que de fato está te incomodando (seu emprego é um saco, você se sente carente, um amigo querido mudou de cidade), você não será capaz de enfrentar a situação e se sentir melhor.

Portanto, aí vai uma sugestão: tente se tratar com mais respeito! Você é muito mais do que sua aparência! Pense no que você diria sobre si mesmo caso fosse proibido falar sobre seu corpo. O que você tem a oferecer de positivo?


Boa semana a todos!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Enfatizar controle de peso em jovens com excesso de peso é prejudicial

Já escrevi aqui que mães de filhos obesos tendem a incentivar mais a prática de dietas, que é um fator de risco independente para transtornos alimentares e que pode levar à obesidade ao longo dos anos. Um estudo recente publicado na revista científica JAMA Pediatrics confirmou este dado: jovens com excesso de peso cujos pais falavam constantemente sobre peso apresentaram maiores prevalências de prática de dietas e comportamentos não saudáveis de controle de peso do que jovens cujos familiares conversavam somente sobre alimentação saudável (53,4% x 40,1% para prática de dietas e 53,2% x 40,6% para comportamentos não saudáveis de controle de peso, como pular refeições, usar diuréticos e laxantes). A amostra consistiu em mais de 2000 adolescentes e mais de 3000 pais, participantes do grande estudo Eating and Activity in Teens 2010 (EAT 2010), coordenado pela renomada pesquisadora Dianne Neumark-Sztainer.

Ou seja: não importa o peso do seu filho, enfatizar controle de peso só aumenta a probabilidade dele fazer dieta (que não é nada bom!) e usar métodos inadequados para controlar seu peso, como vomitar, usar laxantes e fazer jejuns!

Ao invés disso, procure conversar sobre alimentação saudável no sentido amplo do conceito, colocando que todos os alimentos podem ser consumidos com moderação e prazer!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Se você fosse morrer hoje, qual seria sua última refeição?



Brian Wansink, autor do livro “Mindless Eating” (fortemente recomendo!) e de diversas pesquisas curiosas que avaliam as razões inconscientes e automáticas pelas quais escolhemos determinados tipos de alimentos, publicou um estudo muito interessante sobre o conteúdo alimentar da última refeição de presos americanos no corredor da morte. O objetivo foi tentar investigar como as pessoas se relacionam com a comida em situações altamente estressantes do ponto de vista emocional (não imagino nada mais estressante do que saber que em algumas horas estarei morta!). Sabe-se que muitas pessoas em situações financeiras desfavoráveis, por exemplo, tendem a ter o pensamento de “aproveitar o presente, já que o futuro é incerto”. Alguns estudos inclusive apontam que este seria um fator relacionado ao aumento da obesidade em camadas sociais mais pobres.

Os pesquisadores analisaram a última refeição de 193 presos que foram executados entre 2002 e 2006 nos EUA. Eles encontraram que o valor calórico médio das refeições era de 2756kcal, sendo que algumas refeições chegaram a 7200kcal! Além disso, as refeições eram normalmente ricas em proteínas (em especial carnes de maneira geral) e carboidratos (em especial açúcar branco, sacarose, na forma de sobremesas) e pobres em vegetais e frutas. Ainda assim, 26,9% dos presos pediram por “salada” na forma de acompanhamento.

Outra observação curiosa é que dos 66% que pediram sobremesa, a maioria pediu mais de um ítem (torta e sorvete, por exemplo). Chocolate não apareceu nenhuma vez, a não ser como um modificador (exs: bolo de chocolate, leite com chocolate, mas nunca só o chocolate).

Os autores discutem que a escolha de comidas ricas em calorias, carboidratos e açúcares podem refletir a preferência alimentar dos presos mas também a necessidade por conforto e acolhimento numa situação altamente estressante e desoladora. Não foi a toa, por exemplo, que 40% dos indivíduos escolheram alimentos de marcas específicas e conhecidas. Ou seja, seu estudo é mais uma evidência de que ambientes e situações desfavoráveis e emocionalmente desconfortáveis podem levar ao exagero alimentar.

Mas na minha opinião, o que ele coloca de mais importante, é o seguinte questionamento: será que profissionais/campanhas antiobesidade promovem algo de positivo quando “assustam” as pessoas com as consequências negativas da obesidade? Ou será que, assim como nas campanhas de cigarro com aquelas imagens ameaçadoras, isso gera tamanha ansiedade que faz com que as pessoas consumam/comam mais?

Boa reflexão a todos!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Campanhas “antiobesidade” manipulam imagens de crianças

Todos sabemos que as imagens veiculadas pela mídia atualmente estão completamente modificadas por Photoshop. Mas as imagens não são editadas somente para deixar as pessoas mais magras: elas podem se tornar mais gordas também.

Uma agência governamental americana criou uma campanha “antiobesidade” mostrando a imagem de uma criança gorda tomando um pacote de açúcar, alegando que é isso mesmo que acontece quando se toma sucos industrializados e refrigerantes. O espantoso é que eles usaram como base a fotografia de uma criança com peso aparentemente normal, modificando-a com o Photoshop. Como se só as crianças com excesso de peso tomassem sucos e refrigerantes...



Esse tipo de estratégia para chocar os consumidores já foi usado em muitas campanhas “antiobesidade”. Coloco entre aspas pelo seguinte motivo: usar imagens estereotipando os obesos contribui ainda mais com a estigmatização de quem está acima do peso e não ajuda em nada na promoção de mudanças de comportamento (este estudo demonstra isso de forma muito clara). Ou seja: fazer os gordos se sentirem mal, por meio de campanhas retratando de forma negativa pessoas obesas, NÃO fará com que eles adotem comportamentos mais saudáveis. Ponto final.

Se esse tipo de campanha funcionasse (veja mais um exemplo abaixo, de um homem que aparece com a perna “amputada” pelo Photoshop), os índices de obesidade não estariam crescendo...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fotógrafa obesa retrata reações preconceituosas contra si mesma

Já se falou nesse blog sobre o estigma ou preconceito da obesidade, ou seja, a ideia compartilhada por muitas pessoas de que obesos são preguiçosos, menos capazes, não têm vergonha na cara e por isso continuam gordos... (leia aqui, aqui e aqui). Além disso (e muitas vezes por conta disso), é comum as pessoas gordas despertarem olhares e reações negativos e julgadores por parte dos demais. Foi justamente isto que a fotógrafa americana Haley Morris-Cafiero retratou em seu projeto “Wait Watchers”, um trocadilho com “Weight Watchers”, que o grupo de Vigilantes do Peso.

As fotos eram tiradas da seguinte maneira: ela se posicionava em diversos lugares públicos ao redor do mundo – como a Times Square, em Nova Iorque – fazendo atividades cotidianas como amarrar os sapatos, procurar locais em um mapa, mandar mensagens de um celular... Enquanto isso, um assistente ficava próximo e tirava fotos aleatórias enquanto outras pessoas iam passando. Em várias fotos, a fotógrafa identificou pessoas olhando para ela com ar de deboche ou mesmo tirando um sarro enquanto ela não estava vendo.





Claro que muitas pessoas passaram e simplesmente não prestaram atenção, mas o fato de haver fotos comprometedoras, por assim dizer, nos dá um alerta de que o estigma/preconceito da obesidade está internalizado na sociedade. Será que nós mesmos já não olhamos para um obeso da mesma forma que as pessoas retratadas nas fotos?

Bom feriado a todos!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aspectos éticos e sociais podem influenciar comportamento alimentar de universitários


(Tradução: "Qual entrada levanta menos questões éticas?")

Tem sido bastante discutido atualmente que os aspectos médicos e nutricionais da alimentação parecem ser pobres motivadores à mudança de comportamentos alimentares. Ou seja, muitas pessoas já sabem o que “faz bem” e o que “faz mal”, mas as escolhas alimentares permanecem as mesmas. Neste sentido, um estudo interessante publicado em 2010 avaliou a eficácia de um curso focado nos aspectos éticos, sociais, culturais e ambientais da alimentação sobre o comportamento alimentar de jovens universitários.

A pesquisa realizada nos EUA contou com 100 universitários divididos em dois grupos: 28 participaram do curso descrito acima (“Food and Society”) e 72 participaram de outros cursos relacionados com saúde (“Health Psychology”, “Community Health” e “Obesity: Clinical Implications”). O primeiro curso era totalmente voltado às questões sociais, éticas e ambientais relacionadas à alimentação, e o material de estudo e discussão englobava livros e filmes famosos como “O dilema do onívoro”, “Mindless eating”, “Food politics” e “Super size me” (inclusive, leiam e assistam, vale a pena!). Os estudantes preencheram um questionário de frequência alimentar no início e no final do estudo (após três meses de curso).

Os resultados foram interessantíssimos: os alunos do curso “Food and Society” melhoraram significativamente o consumo de vegetais e houve redução quase significativas no consumo de doces e carnes com alto teor de gordura. Já os alunos que assistiram aos demais cursos não apresentaram melhoras e ainda por cima reduziram de forma significativa o consumo de vegetais. Ou seja, esta pesquisa concluiu que aspectos sociais relacionados à alimentação parecem motivar mais o processo de mudança de comportamento alimentar do que questões relacionadas à saúde.