Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de maio de 2016

Feijoada também é #comidadeverdade

Busque o prazer em comer!

Dia desses, chegou uma paciente dizendo que gostaria de aprender a comer sem culpa e que, para isso, esperava que eu lhe passasse um cardápio somente com opções/receitas gostosas porém “saudáveis”, de forma que não “gerassem culpa”. Ou seja, na concepção inicial dela, provavelmente não seria possível comer brigadeiro ou lasanha sem sentir-se mal, já que esses alimentos não são vistos pela maior parte da sociedade como saudáveis...

O fato é que comida e culpa não deveriam andar juntas. A nutricionista americana Evelyn Tribole, que escreveu o livro Intuitive Eating (Comer Intuitivo), contou uma vez em um workshop que, quando sua paciente referiu que sentiu culpa comendo, ela questionou: “culpa por quê? Você havia roubado a comida?!”.  Ela ironizou com o fato de que o que está errado não é a comida, e sim a culpa. Não importa o que e quanto você tenha comido. E sabe por quê?

1. Se você observar pessoas que têm uma boa relação com a comida (seus pais e avós podem ser boas opções) e questionar se elas sentem culpa quando comem, provavelmente a resposta será um belo e grande NÃO;
2. Sentir culpa não muda comportamento alimentar e não faz você comer menos/melhor. Quanto pior você se sente, menor a probabilidade de conseguir mudar sua relação com a comida. Um estudo de 2015, por exemplo (veja aqui) encontrou que indivíduos que associaram um alimento - bolo de chocolate - com culpa apresentaram uma pior relação com a comida, hábitos alimentares menos saudáveis e menores níveis de controle alimentar quando em situações de estresse;
3. Comer com prazer é um componente importante na geração de sinais de saciedade. Geralmente, quando se come com prazer, se come menos. Isso só não tende a acontecer quando estamos muito distraídos – assistindo Netflix, conversando sem parar com os familiares na mesa do almoço de domingo – ou quando uma das únicas fontes de prazer/conforto na vida do indivíduo é a comida. Mas o “problema” nesses casos não é o prazer, e sim a falta de atenção plena ao se alimentar e o comer emocional (vejam este estudo interessantíssimo sobre prazer e comer saudável). 
Muitos blogueiros fit usam a hashtag “#comidadeverdade”, mas se esquecem que comida de verdade não leva suplemento como whey protein na receita e que feijoada também é comida de verdade!
Quer manter uma relação saudável e descomplicada com a comida e seu corpo? Não é necessário aderir a modismos alimentares. Busque  um nutricionista especializado que possa te ajudar a lidar com sua autocrítica excessiva e com a culpa ao comer. E trabalhe a permissão alimentar.
Boa semana a todos!

quarta-feira, 27 de abril de 2016

As principais barreiras para comer melhor - parte 2


Dando continuidade ao texto da semana passada, aqui estão algumas outras barreiras para comer melhor que identifico em meus pacientes:  
1. Viver no piloto automático: é impressionante o número de reações automáticas que podemos apresentar quando estamos diante de um estímulo alimentar. Algumas pessoas vão ao cinema e, sem nem mesmo avaliar se estão com fome ou vontade naquele momento, acabam entrando na fila da pipoca.  Outras vão ao rodízio e, “para fazer o dinheiro valer”, terminam comendo excessivamente, até se sentirem fisicamente desconfortáveis.
Tente se reconectar consigo mesmo quando estiver diante da comida. Preste atenção nas decisões automáticas que surgem e reflita se elas fazem sentido naquele momento. Por que estou comendo? Estou com fome ou vontade? Como estou me sentindo? Estou comendo só porque vi o alimento? Vou me sentir bem se comê-lo neste momento?
2. Comer enquanto a cabeça passeia: muitas vezes enquanto comemos, não estamos de fato presentes na experiência sensorial que a comida nos proporciona. Pensamos no que deixamos de fazer, nos preocupamos com aquilo que ainda precisamos resolver, imaginamos a viagem do próximo final de semana e/ou sentimos culpa por termos decidido comer algo que consideramos “proibido”.
Quando estamos comendo mas não estamos de fato presentes, a experiência alimentar fica incompleta, nos desconectamos de nossos sinais internos e não obtemos o máximo de prazer que poderíamos obter. Com isso, acabamos comendo mais para nos sentirmos saciados e satisfeitos.
3. Tentar se livrar de sensações desconfortáveis por meio da comida: evolutivamente, nós temos a tendência natural de querer nos livrar daquilo que é desagradável e desconfortável, e muitas vezes acabamos usando a comida com essa função. É o chamado comer emocional. E não há nada de errado em se buscar um pouco de conforto no alimento, mas isso se torna problemático quando a comida passa a representar um dos únicos modos de enfrentamento de emoções. Se o dia foi ruim no trabalho, “merecemos” passar no restaurante fast food favorito; se estamos entediados, pegamos um saco de salgadinho e nos sentamos em frente à televisão; se estamos cansados, abrimos uma lata de cerveja.

Tente perceber o quanto seus estados emocionais têm influenciado a quantidade e o momento em que se alimenta.



"Não consigo decidir se preciso de um abraço, de um café grande, de seis doses de vodka ou de duas semanas de sono."
4. Se tratar de forma dura e pouco compassiva. Temos muita dificuldade em lidar com nossas falhas e vulnerabilidades. Isso cria um desconforto que, como descrito acima, pode ser “tamponado” por meio da comida. Além disso, não exercitamos nossa permissão incondicional de comer aquilo que nos dá prazer e, quando comemos, nos sentimos tão culpados que passamos a funcionar no modo “8 ou 80”: agora que comi o que não devia, já era, vou continuar comendo!
Tente reconhecer e aceitar suas fragilidades, não se culpe e não se martirize. Trate-se como trataria um amigo querido que está sofrendo. E, se escolheu comer, procure apreciar e agradecer por estar comendo.  
"Cuide da sua parte frágil."

E vocês, identificam outras barreiras? Têm outras sugestões? Comentem aqui :)
Boa semana!

terça-feira, 19 de abril de 2016

As principais barreiras para comer melhor - parte 1

"Parece sempre impossível, até que é feito"

Muitas pessoas chegam ao consultório e dizem que até sabem o que precisam fazer/mudar na alimentação, mas que de fato não conseguem tirar aquilo do plano das ideias e concretizar mudanças graduais e duradouras de comportamento alimentar.
E por que não conseguem? Bem, essa é a pergunta de um milhão de dólares! Não existe uma resposta absoluta, cada pessoa tem uma história de vida e um padrão único de crenças e comportamentos. Neste post e no próximo, tentarei abordar algumas das principais barreiras para comer melhor que identifico em meus pacientes:
1. Cuidar dos outros e não de si: existem pessoas extremamente cuidadosas, sempre pensando nos outros e colocando os desejos e necessidades dos demais diante dos seus próprios interesses. É o caso de uma paciente, por exemplo, que acorda cedo para servir o café da manhã ao marido e às filhas e, quando se dá conta, já está atrasada para o trabalho e sai sem comer. Ou de um outro paciente que, por sempre fazer hora extra no trabalho (para dar conta de terminar aquilo que os colegas de equipe não conseguiram), nunca consegue chegar cedo em casa para cozinhar algo gostoso, e acaba pedindo delivery. Não há problema em ser solidário e ajudar os outros, mas constantemente abrir mão do seu próprio autocuidado pelo do próximo pode se tornar um problema.
2. Responsabilizar as circunstâncias da vida pelas escolhas alimentares: as situações diárias em nossa rotina são o que são, e muitas vezes não temos como mudá-las. O que podemos é tentar controlar a nossa resposta, nossa escolha diante da realidade atual. Alguns pacientes ficam esperando o “momento ideal” para começar a fazer mudanças na alimentação, mas como o ideal não existe, acabam deixando sempre para depois. A vida é corrida sim, cheia de imprevistos, mas é nesse contexto que podemos sempre buscar uma alternativa. Uma paciente, por exemplo, se programou para fazer salada de quinua com damasco e frango grelhado no jantar. Porém, como as coisas no trabalho não saíram como o previsto e ela saiu muito tarde, acabou se frustrando e ligando o “dane-se”: passou no drive through da lanchonete e comeu um sanduíche com batatas fritas no próprio carro. Almeje progresso, e não perfeição. Tente fazer a melhor escolha diante da situação que se apresenta, mesmo que não seja a escolha “perfeita”.
3. Não ter a comida como prioridade na vida: uma querida amiga nutricionista sempre diz que a comida não é a coisa mais importante da nossa vida, mas que deve ser uma delas. Quando as pessoas dizem que não têm tempo para pensar no que comer, para comprar alimentos in natura, para cozinhar mais em casa, eu sempre me lembro que tempo é questão de prioridade. Fazer mudanças na alimentação requer dedicação e desejo de olhar para a rotina e entender como e por que se está comendo. Cozinhar mais é uma das grandes mudanças que podemos fazer em prol de nossa saúde física e mental. Para quem duvida, sugiro assistir ao documentário “Cooked”, disponível no Netflix.
E você, se identifica com alguma dessas barreiras? Reconhece outras na sua rotina? Deixe seu comentário :)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Livro infantil incentiva imagem corporal positiva


Há um tempo, escrevi aqui no blog sobre um livro infantil americano chamado “Maggie goes on a diet” (“Maggie faz uma dieta”, em tradução livre). Ele fala sobre uma criança que começa a fazer uma dieta para perder peso, e conforme vai obtendo “resultados” é amplamente incentivada e “aplaudida”. A descrição do livro coloca que:

Esse livro é sobre uma garota de 14 anos que entra numa dieta e é transformada de uma garota extremamente insegura e com sobrepeso em uma garota de tamanho normal que se torna a estrela do time de futebol da escola. Por meio de tempo, exercício e trabalho duro, Maggie se torna mais e mais confiante e desenvolve uma autoimagem positiva.”

Basicamente, o livro cai na famosa falácia de que se você perder peso, sua vida vai mudar pra melhor: tchau insegurança, olá realizações, agora eu me amo. Mas é claro que não é tão simples assim. Quem trabalha com questões de alimentação e corpo e as próprias pessoas que sofrem com essas questões sabem que essa afirmação é bastante reducionista.

Além disso, como eu bem escrevi na época, acredito ser maléfico incentivar crianças de 4 a 8 anos (público-alvo do livro) a fazerem dietas, e já existem inúmeros estudos que confirmam que dietas são um fator de risco poderoso para o desenvolvimento de alimentação transtornada, transtornos alimentares, para o ganho de peso e para o desenvolvimento de uma pior autoestima e uma pior imagem corporal (para ler mais sobre esses achados, sugiro as publicações científicas da nutricionista americana Dianne Neumark-Sztainer, que podem ser encontradas no Pubmed).

Em contraponto a este livro, a americana Judith Matz, que trabalha há 25 anos como terapeuta especializada no tratamento de transtornos alimentares, escreveu o livro infantil “Amanda’s big dream” (“O grande sonho de Amanda”, veja aqui). Ele fala sobre uma jovem patinadora que ouve de sua técnica que está muito gorda, e por isso se desanima e para de patinar (pra quem acha que informar o outro sobre seu grau de obesidade pode ser algo positivo e motivador, sinto dizer que o efeito é justamente o contrário). Porém, após um reforço positivo de seus pais e de sua médica, que disseram que o tamanho de seu corpo não era um problema e de que ela poderia alcançar seu sonho de se tornar uma grande patinadora por meio de seu esforço e prática na modalidade, ela voltou aos treinos e viu que o importante era fazer aquilo que de fato amava, independentemente dos resultados.

A obra traz lustrações belíssimas e algumas importantes mensagens para a geração mais nova:

1. Seu corpo não é um impeditivo para que você seja feliz e tenha saúde.

2. A saúde pode vir em todos os tamanhos. O que importa não é o peso, e sim seu estilo de vida e o engajamento em comportamentos que de fato promovem saúde: dormir bem e em quantidade suficiente, comer uma ampla variedade de alimentos e comidas, se alimentar de acordo com seus sinais de fome e parar de comer quando estiver satisfeito, praticar atividade física regular e que traga prazer...

Em resumo: a felicidade não pode ser medida em quilos e seu valor como pessoa não pode ser dependente do tamanho do seu corpo.


Pense nisso!

sábado, 17 de maio de 2014

Lobo em pele de cordeiro: os aspectos doentios dos blogs “de saúde”


Muito se fala sobre o papel negativo da mídia na promoção do atual padrão de beleza e no incentivo à prática de dietas (estas, por sinal, a cada dia mais bizarras!). A maioria das pessoas já concorda que são inadequadas as revistas e livros de dietas da moda, os editoriais fashion que glamourizam a magreza extrema, os sites pró transtornos alimentares... Mas, e quando o lobo se esconde por trás de uma pele de cordeiro?

Um estudo americano analisou o conteúdo das mensagens postadas em 21 blogs “de saúde” que haviam recebido prêmios e que eram visitados por milhares de pessoas diariamente (o menos visitado recebia em média 1100 acessos ao dia). Os pesquisadores verificaram que 5 blogueiras (eram todas mulheres) mencionavam terem se recuperado de um transtorno alimentar e que 6 delas, no período avaliado, foram patrocinadas para fazerem avaliação de produtos de grandes indústrias de dieta/beleza. Além disso, 12 blogueiras apresentavam fotos suas posadas de forma a parecerem mais magras e 12 usavam linguagem pejorativa e estigmatizante ao se referirem a pessoas gordas. O mais alarmante, entretanto, na minha opinião, foi o fato de 11 delas incluírem em seus posts mensagens negativas relacionadas à comida (o estudo chamou de “mensagens indutoras de culpa alimentar”) e mencionarem estar seguindo alguma dieta.

Os autores do estudo concluem que “blogs de saúde contêm mensagens e informações que podem ser potencialmente problemáticas para indivíduos que as leem e que baseiam suas ações em seu conteúdo”.

Além do estudo ter sido muito bem conduzido, resolvi escrever sobre ele pois seus achados são muito relevantes no contexto atual, em que a internet e as mídias sociais estão presentes na vida (e seguramente moldando o comportamento) de bilhões de pessoas. Infelizmente, os resultados não foram nada surpreendentes. Comecei a escrever esse blog em 2010 justamente porque estava cansada e irritada com a variedade de informações doentias veiculadas por sites e blogs que se dizem “de saúde”. Me consolo com a crença de estar ajudando algumas pessoas em sua busca por uma vida fisicamente e psicologicamente mais saudável, mas não deixo de me entristecer ao saber que muitas outras pessoas estão ficando cada vez mais doentes com o que está sendo dito por aí.

Recomendo dois outros textos sobre o tema: um publicado no blog do Genta e outro publicado no blog Não Sou Exposição.

Bom final de semana!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Eu gosto do meu corpo... E agora?


Outro dia ouvi de uma paciente a seguinte frase: “sabe, Carol... Depois de todo esse tempo, eu percebi que até que eu gosto do meu corpo...”

Por trás do alívio e serenidade que esse tipo de percepção traz, muitas vezes fica aquela sensação de dúvida, aquela “pulga atrás da orelha”: e agora?!

Pois é. Por incrível que pareça, algumas pessoas se sentem desconfortáveis estando mais satisfeitas com seu corpo. Isso pode acontecer por alguns motivos:

1. Você estará fugindo da norma.
Todos sabemos que a mídia e a indústria da beleza gastam bilhões tentando nos convencer de que devemos (e, mais cruel de tudo, de que é sempre possível) ser diferentes, nos tornar uma versão “melhorada” daquilo que já somos. Se você admite para si e para os outros que não se incomoda com seu culote, que tipo de mensagem estará passando? Talvez você se sinta arrogante... Afinal, se todo mundo é insatisfeito, que “direito” tenho eu de estar contente com meu corpo?!

2. Você se dará conta de outras insatisfações em sua vida. Quando você tira o corpo da equação e passa a prestar mais atenção em outras áreas da sua vida, isso pode ser extremamente desafiador e doloroso. Talvez você tenha passado muito tempo acreditando que o problema da sua existência resumia-se ao fato de você ter um corpo x ou y. Daí você percebe que o buraco é mais embaixo...

3. Você pode se sentir “negligente”. Como hoje em dia os cuidados com a saúde se confundem muito com o culto ao corpo, se você aceitar que tudo bem ser do jeito que é, parece que está “desistindo” de si mesmo. Mas o fato é que você pode se engajar em cuidados com sua saúde e bem-estar independentemente do corpo que tem ou que venha a ter.

4. Falar mal do corpo é um assunto “quente”. Bombardear nosso corpo e o corpo alheio com as mais duras críticas se tornou um tópico bastante presente em nosso convívio social. Existem amizades baseadas quase que inteiramente nisso! Isso significa que talvez você fique de fora de algumas rodas de conversa, assim como quem não assiste ao Big Brother...

Mas pensando bem, será mesmo que você queria fazer parte desse grupo?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Não existe gordinho saudável"... Será?


A reportagem da revista Veja de 11/12/13, entitulada “Não existe gordinho saudável”, foi categórica: é impossível existir pessoas com sobrepeso e obesidade saudáveis. E ponto final. Além de desconsiderar diversos outros estudos que trouxeram evidências contrárias, alguns já citados no blog (veja aqui e aqui), a revista não trouxe uma análise detalhada e crítica do estudo em que se baseou para fazer tal afirmação.

A reportagem coloca que, segundo a meta-análise em questão, pessoas gordas ou magras que apresentam pressão alta, resistência à insulina e colesterol elevado (ou seja, alterações metabólicas) apresentam maior risco de doenças cardiovasculares. Isso já é sabido e esperado. Mas diz ainda que pessoas gordas sem essas alterações de qualquer modo apresentam maior risco que pessoas magras também sem alterações... Simplesmente por serem gordas! A lógica disso é no mínimo duvidosa. Os autores do estudo justificam que esse maior risco seria pelo fato dos marcadores analisados (pressão sanguínea, colesterol) estarem ligeiramente alterados nas pessoas gordas, mesmo ainda estando dentro dos limites aceitados como normais.

Quando se lê o estudo na íntegra, entretanto, algumas coisas são esclarecidas:

1.Pessoas magras com alterações metabólicas apresentam risco de 3,14 de terem algum problema/evento cardiovascular, ou seja, uma chance 214% maior do que pessoas sem alterações metabólicas. Já pessoas gordas com essas alterações apresentam risco de 2,65. Ou seja, o risco de pessoas gordas com alterações metabólicas foi menor do que o risco de pessoas magras com as mesmas alterações!

2.Pessoas magras ou gordas sem alterações metabólicas: o risco de algum evento cardiovascular entre essas pessoas é bem semelhante, sendo que em pessoas com sobrepeso o risco é 1,21 e em pessoas com obesidade o risco é 1,24. Alguns hão de argumentar: ainda assim, 1,21 é maior que 1, ou seja, o risco é maior! Mas mandar a pessoa fazer dieta, o que provavelmente vai levar ao “efeito sanfona”, pode resultar nas alterações metabólicas que levam ao grande aumento do risco independentemente do peso!!!

Ou seja: o grande problema são as alterações metabólicas, quer a pessoa seja magra ou gorda! Mas os autores do estudo (e a revista nacional) optaram por ressaltar somente uma faceta do estudo...

Não estou dizendo aqui que todo gordo é saudável, mas quero deixar explicitado que nem todo magro também o é, apesar da crença popular. O que quero de fato transmitir é que qualquer pessoa tem o potencial de se tornar saudável independentemente de seu peso, contato que se invista em mudanças de comportamentos e de estilo de vida.

E se mesmo assim algumas pessoas quiserem argumentar que é impossível estar gordo e ser saudável, vamos então tentar eliminar fatores que estão claramente contribuindo para piorar a saúde dos obesos, como por exemplo o estigma da obesidade, inclusive entre profissionais de saúde (este assunto já foi tratado no blog, leia aqui).

Este é o último post do ano! Até janeiro e boas festas!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aspectos éticos e sociais podem influenciar comportamento alimentar de universitários


(Tradução: "Qual entrada levanta menos questões éticas?")

Tem sido bastante discutido atualmente que os aspectos médicos e nutricionais da alimentação parecem ser pobres motivadores à mudança de comportamentos alimentares. Ou seja, muitas pessoas já sabem o que “faz bem” e o que “faz mal”, mas as escolhas alimentares permanecem as mesmas. Neste sentido, um estudo interessante publicado em 2010 avaliou a eficácia de um curso focado nos aspectos éticos, sociais, culturais e ambientais da alimentação sobre o comportamento alimentar de jovens universitários.

A pesquisa realizada nos EUA contou com 100 universitários divididos em dois grupos: 28 participaram do curso descrito acima (“Food and Society”) e 72 participaram de outros cursos relacionados com saúde (“Health Psychology”, “Community Health” e “Obesity: Clinical Implications”). O primeiro curso era totalmente voltado às questões sociais, éticas e ambientais relacionadas à alimentação, e o material de estudo e discussão englobava livros e filmes famosos como “O dilema do onívoro”, “Mindless eating”, “Food politics” e “Super size me” (inclusive, leiam e assistam, vale a pena!). Os estudantes preencheram um questionário de frequência alimentar no início e no final do estudo (após três meses de curso).

Os resultados foram interessantíssimos: os alunos do curso “Food and Society” melhoraram significativamente o consumo de vegetais e houve redução quase significativas no consumo de doces e carnes com alto teor de gordura. Já os alunos que assistiram aos demais cursos não apresentaram melhoras e ainda por cima reduziram de forma significativa o consumo de vegetais. Ou seja, esta pesquisa concluiu que aspectos sociais relacionados à alimentação parecem motivar mais o processo de mudança de comportamento alimentar do que questões relacionadas à saúde.

sábado, 23 de março de 2013

Pacientes confiam menos em profissionais de saúde com excesso de peso



A figura acima ilustra bem o tema de hoje. Já escrevi aqui sobre o preconceito de profissionais de saúde contra pessoas obesas e o impacto negativo que isso gera no cuidado destes pacientes. Entretanto, um estudo fresquinho publicado no “International Journal of Obesity” mostra que o inverso também é verdadeiro: existe preconceito por parte dos pacientes contra profissionais de saúde que estão acima do peso.

O estudo feito com 358 adultos encontrou que os participantes confiavam menos em profissionais com sobrepeso e obesidade, estavam menos propensos a seguirem suas orientações e estavam mais inclinados a mudarem de profissional. O interessante é que o preconceito encontrado foi o mesmo em participantes que também estavam acima do peso. Ou seja, nem quem é gordo quer ser tratado por outro gordo.

Não vou nem entrar no mérito aqui da pressão pela magreza que nós nutricionistas sofremos. Acredito que em nossa classe profissional a exigência pela magreza é bem maior do que na classe de médicos, fisioterapeutas, enfermeiros... Afinal, “como confiar em um nutricionista que é gordo? Se ele é gordo não deve saber o que está fazendo!”

A questão é que a competência profissional de NINGUÉM pode ser medida pelo número que sai na balança. Conheço muitos profissionais excelentes e que são gordos. Inclusive nutricionistas! Hoje em dia já se sabe que emagrecer é muito mais do que simplesmente comer “certo” e se exercitar, a gênese da obesidade é multifatorial e envolve aspectos políticos, sociais, ambientais, psicológicos...

Já ouvi pessoas dizendo que para se acabar com esse tipo de preconceito é “simples”, basta obrigar mesmo os profissionais a emagrecerem. Considero isso um absurdo. Então, para reduzir o preconceito racial vamos “obrigar” as pessoas a trocarem a cor da sua pele?! Vamos “obrigar” os homossexuais a mudarem sua inclinação sexual?! Nunca vi reduzir o preconceito por meio da exclusão. Eu acredito no respeito mútuo e na aceitação. Aceitação de que as pessoas tem a liberdade de decidir individualmente sobre como cuidar de seu corpo e o que fazer com ele.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Cirurgia bariátrica não reduz custos com saúde a longo prazo

É comum hoje em dia você ouvir profissionais de saúde defendendo a cirurgia bariátrica a torto e a direito porque “é o único tratamento realmente eficaz para a obesidade, vai reduzir os custos com saúde que a pessoa vai ter no futuro caso ela não se submeta ao procedimento”. Entretanto, um estudo recente e muito bem conduzido demonstrou que não é bem por aí. A cirurgia bariátrica parece não gerar economia com cuidados de saúde a longo prazo.

Neste estudo, que revisou cerca de 30.000 casos, compararam-se indivíduos obesos que fizeram algum tipo de cirurgia bariátrica com obesos que não realizaram o procedimento. Para o primeiro grupo, os custos com saúde no primeiro ano após a operação foram quase US$ 1.000,00 menores. Entretanto, nos dois anos subsequentes, os custos para os operados foram significativamente mais elevados.

Claro, não podemos esquecer que a cirurgia, quando bem indicada, traz uma série de benefícios à saúde, à qualidade de vida... Mas precisamos estar atentos para não passar adiante uma informação que não corresponde à realidade.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aplicativos de smartphone que podem ajudar no autocuidado

Aproveitando a ociosidade das férias, decidi buscar em meu IPhone alguns aplicativos interessantes (e gratuitos!) que pudessem favorecer o autocuidado e promover ideias saudáveis. Infelizmente, todos os que eu encontrei são em inglês.

1.“Awesome Eats”

É um jogo infantil em que se tem que completar várias missões específicas usando frutas e legumes. Interessante para as crianças se familiarizarem com os diferentes tipos de vegetais e ao mesmo tempo se divertirem e trabalharem agilidade e raciocínio. Traz também dicas gerais de alimentação saudável. Adultos, cuidado: pode ser altamente viciante! (eu mesma fiquei uns vinte minutos jogando!)

2. “RR” (Recovery Record)

Aplicativo desenvolvido inicialmente para pacientes com transtornos alimentares, em parceria com a Universidade de Stanford. Permite que o usuário registre sua alimentação (funcionando como um diário alimentar, onde a pessoa anota o que comeu, o que sentiu e pensou, metas sugeridas pela sua equipe de tratamento), tenha acesso a táticas/frases de enfrentamento (o chamado coping) e troque mensagens de apoio com outros usuários.

3. “Eat, Drink & Be Mindful”

Semelhante ao aplicativo anterior, pode ser usado por pessoas que não tenham transtorno alimentar. Incentiva a prática do mindful eating (veja mais aqui).

4. “Vegman”

Aplicativo que conta com auxílio do GPS para encontrar restaurantes vegetarianos e vegans em diversas localidades do mundo. Interessante para quem quer conhecer novas opções gostosas para comer fora (perto de casa, do serviço...).

5. “101 Revolutionary Ways to Be Healthy”

Traz 101 sugestões sobre como ser saudável. O legal é que as sugestões fogem do básico (“coma mais frutas”) e trazem mensagens inclusive sobre auto-aceitação e foco nas mudanças de estilo de vida, e não no peso corporal em si.

6. “The Now”

Em intervalos aleatórios, o aplicativo envia mensagens positivas sobre como aproveitar melhor o momento presente. Ideal para quem precisa quebrar a rotina por alguns segundos durante o dia e desestressar.

7. “Mindfulness Meditation”

Usando os princípios do mindfulness (veja mais aqui), traz gravações em áudio de meditações guiadas com diferentes durações, bem como técnicas de relaxamento. Este é o único da lista que não é gratuito (mas se não me engano custa menos de 3 dólares).

Aproveitando que este é meu último post do ano, deixo o link de uma postagem antiga (mas muito válida ainda!) sobre como aproveitar as festas

Até ano que vem!

sábado, 27 de outubro de 2012

A guerra contra as fast foods. Reloaded.


Fast food é lixo. Tem um monte de ingredientes estranhos, é cheia de calorias, açúcar e sal e normalmente faz você se sentir mal”. Esse manifesto, bem como a imagem acima (“Coma fast food e morra cedo”), fazem parte de um campanha americana que tem sido amplamente divulgada lá fora chamada Stick It to Fast Food, cujo “simpático” logo é um garfo simbolizando uma mão mostrando o dedo do meio. Já ganhou pontos negativos na minha avaliação só pela grosseria e pelo mau gosto. Como muitos bem sabem, a logomarca representa a essência da mensagem que se quer transmitir com o produto/campanha em questão, e não gosto de nada que vulgariza e negativiza a comida. Mesmo se for uma fast food.

Alguns pontos em defesa da campanha: sim, devemos reduzir o consumo das chamadas comidas rápidas, pois em sua grande maioria elas têm quantidades consideravelmente altas de gorduras, açúcar e sal, que em excesso prejudicam a saúde; sim, devemos prestar mais atenção àquilo que estamos comendo, saber um pouco mais sobre a composição dos alimentos e perceber como de fato nos sentimos quando comemos (não sei vocês, mas eu realmente me sinto um pouco estufada e incomodada fisicamente quando como um Big Mac); sim, devemos nos esforçar para aprender a cozinhar algumas comidas deliciosas e que sejam feitas com ingredientes naturais.

Mas não, não podemos contribuir com a categorização da comida em “saudável” e “não saudável”, pois o que determina uma alimentação saudável é a frequência de consumo dos alimentos, a circunstância, a quantidade e o estilo de vida de cada pessoa. Não podemos contribuir ainda mais com a estigmatização da comida, porque sabemos que isso faz com que as pessoas desenvolvam uma relação ainda mais conturbada com a alimentação. Não podemos assumir que é possível excluir completamente as fast foods do tipo de vida que levamos hoje, pois isso é praticamente impossível e geraria ansiedade e culpa em quem escolhesse comer um Big Mac no final de semana porque sentiu vontade.

Por isso, pode pensar duas vezes antes de comer um Big Mac, se quiser. Mas não morra de culpa se por um acaso decidir comê-lo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Efeito nocebo: o que é isso?


Muita gente está familiarizada com o conceito de “efeito placebo”, isto é, um tipo de tratamento/intervenção que não possui validade científica alguma mas que acaba funcionando para algumas pessoas que acreditam nele.

Na área médica, o efeito placebo é uma evidência da forte conexão que existe entre a mente (aquilo que pensamos, acreditamos, sentimos) e os efeitos factuais sobre a saúde. Ou seja: se eu acredito fortemente que beber água com açúcar é um “calmante natural”, é provável que quando eu estiver nervosa e tomar essa combinação eu de fato me acalme (mesmo não havendo nenhum argumento científico que justifique isso!)

Por outro lado, pouco se conhece e se fala sobre o “efeito nocebo”, que seria justamente o contrário do placebo. Ou seja, o poder que nossas crenças, pensamentos e sentimentos têm de afetar negativamente a nossa saúde, mesmo que baseados em algo que não é um consenso científico.

Muitas vezes, apesar de bem intencionados, nós profissionais de saúde reforçamos algumas crenças em nossos pacientes que podem gerar um efeito nocebo. Por exemplo: quando dizemos aos pacientes que eles necessariamente precisam emagrecer para melhorarem sua saúde; quando reforçamos a ideia de que emagrecer de fato é uma coisa desejada e positiva, necessária para sentir-se bem consigo mesmo (talvez porque nós, como pessoas, ainda acreditemos nisso, e dessa forma acabando transferindo nossas crenças pessoais aos pacientes).

Será que não precisaríamos tentar entender o que está por trás de tudo isso, especialmente quando o paciente nos diz que precisa ou quer muito emagrecer? Será que não seria importante compreender o porquê da auto-estima de uma determinada pessoa depender tanto do peso, exclusivamente, a ponto de ela de fato acreditar que não pode se sentir bem consigo mesma a não ser que perca peso?

Quando trago à tona esse tipo de discussão, muitos dizem que sou a favor da obesidade. Não é isso. Eu não acredito que todo gordo é saudável. Mas acredito sim que todos podem buscar uma melhor saúde e levar uma vida saudável independentemente do peso que possuam. E nesse processo (que envolve mudar comportamentos, fazer as pazes com a comida, se auto-conhecer) pode-se ou não perder peso.

Essa é a diferença daquilo que de fato eu acredito.

sábado, 23 de junho de 2012

É benéfico utilizar “recompensas” para promover mudanças de estilo de vida?



Acabei de ler um artigo um pouco antigo (de 1998) mas muito interessante e relevante para o momento em que estamos vivendo. Momento este em que nós, profissionais de saúde, buscamos cada vez mais estratégias que auxiliem nossos pacientes a implementarem mudanças efetivas em seu estilo de vida, com foco na promoção de saúde.

A ciência comportamental tradicional diz que nossos comportamentos são movidos pelas “recompensas” que obtemos deles, e com o tempo acabam se tornando hábito (mesmo que a “recompensa” não esteja mais presente). Ou seja: se um rato numa gaiola sente cheiro de queijo, ele vai tentar alcançá-lo, pois sabe que vai obter algo bom com esta ação. Se por outro lado ele levar um choque quando pisar perto do queijo, sua busca pelo alimento será inibida.

O problema é que nós, humanos, não somos tão “simplistas” assim (e graças a Deus os bons psicólogos comportamentais já entenderam isso!). O artigo (veja aqui) questiona justamente o benefício do uso reforçadores positivos externos (ou seja, “recompensas”) em programas de promoção de saúde.

Segundo os estudos revisados pelo autor, reforçadores positivos (ou “incentivos externos”) até parecem promover maior adesão a programas de saúde em curto prazo, mas não existem evidências de que mudanças de comportamentos se sustentem a longo prazo com esses reforçadores. E pior: eles podem inclusive gerar problemas adicionais.

Um tipo de problema que pode ser criado é recompensar resultados ao invés de comportamentos. Exemplo típico: incentivar a perda de peso e não as mudanças de hábitos que estão associadas a este objetivo, reforçando a ideia de que “os fins justificam os meios” (basta assistir ao programa televisivo “The Biggest Loser”, em que os concorrentes não medem esforços e fazem de tudo para perder peso, não importando se as estratégias podem trazer inclusive riscos á saúde).

Outro exemplo: suponhamos que uma empresa, como parte de um programa de saúde institucional, resolva dar um bônus aos funcionários que consigam baixar seus níveis de colesterol sanguíneos (notem: o foco da recompensa é o resultado, e não os comportamentos que promoveriam a redução dos níveis de colesterol). Aqueles que não conseguirem alcançar o resultado esperado provavelmente ficarão frustrados e envergonhados, mesmo que estejam se engajando em hábitos saudáveis com este fim. Isto não gera saúde.

Devemos entender que comportamentos não-saudáveis (como fumar, beber em excesso, apresentar exageros alimentares frequentes ou mesmo compulsões alimentares) normalmente atuam como estratégia de enfrentamento ou evitação de problemas, e o uso de recompensas não busca entender quais são de fato os gatilhos e origens desses problemas. Ou seja: não são abordadas as causas reais desses comportamentos! Com isso, eles tendem a se repetir a longo prazo, quando a recompensa ou incentivo perde seu apelo original.

Moral da história: os verdadeiros incentivos são aqueles que vem da nossa motivação interna, que é construída a cada dia por meio do autoconhecimento.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Estigma da obesidade gera mais impactos negativos à saúde do que a obesidade em si



Hoje li um estudo americano de 2008 (veja aqui) muito interessante, que após analisar uma amostra de mais de 170 mil indivíduos adultos chegou à seguinte conclusão: a diferença entre o peso atual do sujeito e seu peso desejado foi um preditor de saúde (mental e física) mais forte do que o IMC em si. Ou seja: o estudo encontrou que o desejo de perder peso é mais impactante à saúde (negativamente falando!) do que a adiposidade propriamente dita. E surpresa: esse efeito foi mais forte em mulheres do que em homens...

Esse resultado é mais uma evidência do quão negativo é o estigma da obesidade em nossa sociedade.

Aproveito para deixar uma dica de livro também:
Fat: the anthropology of an obsession

Bom feriado!