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sábado, 9 de novembro de 2013

Completamente transformado, mas ainda igual


Já são bem divulgados e reconhecidos os efeitos benéficos da cirurgia bariátrica a curto e médio prazo, especialmente para pacientes que de fato possuem indicação para o procedimento e que são bem acompanhados durante todo o processo: perda e manutenção do peso perdido (apesar de que existem estudo que mostram que até 40% dos pacientes não atingem a meta de peso esperada a longo prazo); aumento do bem-estar geral; melhoras na saúde física. Entretanto, aspectos que na minha opinião não são suficientemente abordados com os pacientes antes e após a cirurgia são as dificuldades em lidar com as grandes transformações físicas e psíquicas resultantes do procedimento, principalmente a longo prazo (mais de cinco, dez anos). Citando alguns exemplos:

- muitos pacientes consideram a rápida mudança de imagem corporal algo difícil de se compreender, muitos se sentem vulneráveis e podem enfrentar situações negativas nos relacionamentos com família e amigos
- o reganho de peso, que até certo ponto é normal e esperado, pode ser visto como frustrante, vergonhoso e traumático
- o papel da comida na vida dos pacientes muda muito, e alguns podem sentir falta do conforto emocional que ela proporcionava, buscando então por outras formas inadequadas de lidar com sensações desagradáveis (abuso de álcool e drogas, por exemplo)

Um estudo qualitativo recente, com pacientes noruegueses que passaram pela cirurgia há pelo menos cinco anos, avaliou o significado do procedimento em suas vidas, focando nas transformações de peso, nas relações sociais e nas experiências corporais vivenciadas por eles. Alguns achados são bastante interessantes:

- os pacientes lidavam com o corpo de uma forma ambivalente: ao mesmo tempo que reconheciam todos os benefícios conquistados, percebiam que parte do desconforto com o corpo ainda persistia, apesar do emagrecimento (leia este post que trata sobre isso);
- o conforto de ter uma saciedade precoce, que promoveu aos pacientes uma maior sensação de controle, por vezes dava espaço à uma sensação de perda e vazio: o desejo pela comida e por sentir um pouco mais do sabor, mesmo sabendo não ser possível, impedia uma completa satisfação ao comer;
- a cirurgia foi encarada como “uma segunda chance para viver”, mas o “fantasma” do reganho de peso continuava pairando sobre os entrevistados, que relatavam uma dificuldade cada vez maior em manter o controle dos hábitos alimentares (a fome aumentou com o passar dos anos, as vontades começaram a surgir, e muitos não sabiam com encarar isto);
- alguns pacientes apresentaram após a cirurgia doenças crônicas como câncer e distúrbios cardiovasculares, e sentiram-se assustados pois foram forçados a encarar as limitações de um corpo magro, porém não invencível;
- alguns pacientes, que quando obesos se sentiam invisíveis e imperceptíveis, sentiram dificuldades em lidar com o novo grau de atenção alheia após a cirurgia, bem como com os comentários invasivos sobre sua alimentação e seus corpos.

Claro, o estudo foi realizado na Noruega, uma realidade bem diferente da nossa, e as transformações vivenciadas por cada pessoas são bem diferentes. Acompanho muitos pacientes que se beneficiaram imensamente da cirurgia. Entretanto, também sei que existem pacientes que passam pelas limitações e dificuldades descritas acima, e acho que aqueles que consideram passar pela cirurgia devem estar cientes disto. Nada na vida traz só coisas boas. Acredito que este estudo ilumina muitas questões a serem consideradas na avaliação, preparo e acompanhamento a longo prazo dos pacientes cirúrgicos.

Bom final de semana!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

"Do que eu mais sinto falta de quando eu era gorda"


Bom dia pessoal!

Essa semana resolvi postar uma tradução livre feita por mim de um texto publicado na Marie Claire americana em julho de 2012, escrito pela jornalista Sarah Elizabeth Richards. Ele conta do que ela sentiu falta em seu corpo - e em sua vida - depois que emagreceu quase 20kg. Afinal, emagrecer não é tão simples assim e não necessariamente traz só coisas boas no processo...

Aproveitem!

"Do que eu mais sinto falta de quando era gorda..."

"Eu estava em pé no bar, segurando minha margarita de manga, enquanto minhas duas amigas estavam conversando com dois caras. Senti que estava 'sobrando' e tentei fazer contato visual com um cara muito fofo perto da porta. Ele me ignorou.

'Fique mais um pouco', disse a mim mesma. 'Você só está aqui há uma hora'.

Não foi assim que eu imaginei meu gran debut. Tinha acabado de terminar um relacionamento de longos anos, e minhas amigas insistiram que eu deveria passar a noite com elas num bar cheio de homens desejáveis.

Recentemente eu havia perdido 18 quilos (aumentando meu consumo de vegetais e grãos integrais e reduzindo a ingestão de açúcar, massas e pães). Segui o conselho de minhas amigas de usar roupas que mostrassem mais o meu corpo e lá estava eu no bar, sentindo-me inadequada.

O ar condicionado estava no máximo, e eu senti o ar gelado em cada pedacinho na minha pele exposta – meus braços, minhas pernas, meu decote. Mas ao invés de me sentir sexy, eu me senti pelada.

'Estou realmente cansada', disse a minhas amigas. 'Estou indo'.

Ao chegar em casa, abri meu guarda roupa e achei minhas antigas roupas de quando era gorda. Enterrei meu rosto no que costumava ser minha camiseta preferida e senti o cheiro de um antigo perfume. Eu a vesti, minha ansiedade me dominando. Me senti eu mesma novamente.

De vez em quando, eu sentia falta de ser gorda.

As pessoas vivem falando sobre os benefícios da perda de peso, mas não se fala muito sobre o choque que é emagrecer. Quando você decide emagrecer, você só pensa nas coisas boas: novo corpo, saúde melhorada (e, se você se engaja em pensamentos milagrosos, uma nova vida). Ninguém te alerta sobre o outro lado.

Fisicamente, eu sentia frio o tempo todo, bem como uma dorzinha palpitante do lado esquerdo das minhas costelas – a sensação que sinto sempre que estou vulnerável. Emocionalmente, eu não me sentia preparada para lidar com todas as mudanças, e não podia mais usar a comida para me acolher.

E então veio o desapontamento. Nas minhas fantasias, eu parecia mais confiante e mais bem vestida. Eu tinha mais amigos e namorados. Eu me tornava uma melhor profissional. Quando eu era gorda, essas fantasias ficavam armazenadas em segurança, na ideia de que “um dia” isso se tornaria realidade. Na minha cabeça, eu não cogitava ter que descobrir o limite dos meus talentos, encarar meus medos de intimidade, ou mesmo confrontar o quão esquisita me sinto ao conhecer novas pessoas.

Quando eu perdi peso, eu tomei um banho de realidade. Eu continuava sendo eu mesma, com os mesmos problemas. Eu só estava menor.

E a minha versão menor não necessariamente se tornou uma versão melhor – pelo menos não no início. Eu adorei ver as novas curvas de meu corpo, mas nunca me imaginei nua em frente ao espelho, pegando nas mãos a pele solta debaixo dos meus braços e na parte interna das minhas coxas. Ou que eu veria meus seios ficarem mais flácidos, e meu bumbum ficar ainda mais caído. Eu me sentia uma estranha em meu próprio corpo.

Havia também as questões do dia a dia. Os experts em dieta não te contam o quão desconfortável você se sente no início por não poder mais comer o quanto você comia antes. Ou como quase todas as interações sociais incluem referências sobre seu novo corpo. No começo é legal ouvir “uau, como você está linda!”, mas depois isso se torna angustiante, pressionador. Tinha momentos em que eu simplesmente não queria toda a atenção voltada para mim. Eu só queria o conforto do grupo.

Não estou dizendo que quero de volta minha gordura. Eu trabalhei duro para perder todo o peso extra que ganhei na faculdade porque me afundei em lasanha e comida delivery para conseguir lidar com toda minha carga de trabalho. Hoje, peso 63kg, um peso que tenho mantido há quatro anos. Levei quase sete anos para atingi-lo. Para mim, essa foi a velocidade ideal, pois me permitiu lidar aos poucos com as novas questões que foram surgindo. Além disso, deu tempo para que minha pele (inicialmente flácida) se acomodasse novamente (com ajuda da ioga e do kickboxing, dois exercícios que adoro). Perder os últimos sete quilos levou quase três anos. Parecia que eu não estava mais levando tão a sério meu status de 'quase magra'.

Eu gostaria de dizer que eu aprendi a me sentir melhor com meu corpo naturalmente, por meio de um processo orgânico de celebrar meus pontos fortes e aceitar minhas falhas. Ao invés disso, eu me forcei a me sentir bem, como se estivesse entrando aos poucos em uma piscina gelada.

Eu ainda luto com a sensação de parecer nua às vezes, mas isso não mais me deixa ansiosa. Nas raras ocasiões em que parece que não vou aguentar, eu me enrolo num grande robe de cetim até passar (sim, eu me livrei das minhas roupas de quando era gorda).

Então, eu ponho minhas novas calças de ioga, que abraçam minhas novas curvas.