Mostrando postagens com marcador psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador psicologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A dança das emoções


Assistindo ao novo filme da Pixar “Divertidamente” (“Inside out”), lembrei-me de um antigo dizer que coloca que o contrário de amor não é o ódio, e sim a indiferença. A indiferença pode ser muito mais destrutiva que este último, e acredito que assim seja com nossas emoções. Ignorar aquilo que sentimos, não entrando em contato com as emoções por mais dolorosas que sejam, destrói nossa habilidade de nos conhecermos, de aprendermos algo valioso sobre nós mesmos e de crescermos e florescermos como pessoas plenas e felizes. As emoções são verdadeiras bússolas, guiando nosso entendimento do mundo e nossas atitudes. Ou seja, existe espaço dentro de nós para todas as emoções. Nada é proibido ou vergonhoso de ser sentido. Inclusive, a crença de que devemos ser felizes a todo momento é um dos motivos que nos leva a sermos mais infelizes! Até porque, se não sentíssemos emoções “negativas” (como tristeza), como saberíamos o que é alegria e contentamento?

Entendo que algumas pessoas (vejo isso em vários pacientes) têm uma grande dificuldade em sentir e interpretar suas emoções, reagindo automaticamente a elas e adotando muitas vezes um padrão destrutivo de comportamento, como se engajar com frequência em comer emocional e compulsão alimentar. Cabe ao nutricionista que quer trabalhar essas questões perceber e apontar aos pacientes a maneira como seus sentimentos estão interferindo em sua relação com a comida; e cabe ao psicólogo, valioso parceiro nesse processo, trabalhar essas emoções com os pacientes e ajudá-los a criar um espaço dentro de si mesmos para que essas emoções possam circular e reverberar; e, talvez, quem sabe, dançar.

   

Para saber mais:

http://www.mindful.org/five-things-pixars-inside-out-teaches-us-about-emotions/?utm_source=Mindful+Newsletter&utm_campaign=3092bd9fa4-MF_Weekly_Newsletter_August_48_4_2015&utm_medium=email&utm_term=0_6d03e8c02c-3092bd9fa4-21277385

sábado, 9 de novembro de 2013

Completamente transformado, mas ainda igual


Já são bem divulgados e reconhecidos os efeitos benéficos da cirurgia bariátrica a curto e médio prazo, especialmente para pacientes que de fato possuem indicação para o procedimento e que são bem acompanhados durante todo o processo: perda e manutenção do peso perdido (apesar de que existem estudo que mostram que até 40% dos pacientes não atingem a meta de peso esperada a longo prazo); aumento do bem-estar geral; melhoras na saúde física. Entretanto, aspectos que na minha opinião não são suficientemente abordados com os pacientes antes e após a cirurgia são as dificuldades em lidar com as grandes transformações físicas e psíquicas resultantes do procedimento, principalmente a longo prazo (mais de cinco, dez anos). Citando alguns exemplos:

- muitos pacientes consideram a rápida mudança de imagem corporal algo difícil de se compreender, muitos se sentem vulneráveis e podem enfrentar situações negativas nos relacionamentos com família e amigos
- o reganho de peso, que até certo ponto é normal e esperado, pode ser visto como frustrante, vergonhoso e traumático
- o papel da comida na vida dos pacientes muda muito, e alguns podem sentir falta do conforto emocional que ela proporcionava, buscando então por outras formas inadequadas de lidar com sensações desagradáveis (abuso de álcool e drogas, por exemplo)

Um estudo qualitativo recente, com pacientes noruegueses que passaram pela cirurgia há pelo menos cinco anos, avaliou o significado do procedimento em suas vidas, focando nas transformações de peso, nas relações sociais e nas experiências corporais vivenciadas por eles. Alguns achados são bastante interessantes:

- os pacientes lidavam com o corpo de uma forma ambivalente: ao mesmo tempo que reconheciam todos os benefícios conquistados, percebiam que parte do desconforto com o corpo ainda persistia, apesar do emagrecimento (leia este post que trata sobre isso);
- o conforto de ter uma saciedade precoce, que promoveu aos pacientes uma maior sensação de controle, por vezes dava espaço à uma sensação de perda e vazio: o desejo pela comida e por sentir um pouco mais do sabor, mesmo sabendo não ser possível, impedia uma completa satisfação ao comer;
- a cirurgia foi encarada como “uma segunda chance para viver”, mas o “fantasma” do reganho de peso continuava pairando sobre os entrevistados, que relatavam uma dificuldade cada vez maior em manter o controle dos hábitos alimentares (a fome aumentou com o passar dos anos, as vontades começaram a surgir, e muitos não sabiam com encarar isto);
- alguns pacientes apresentaram após a cirurgia doenças crônicas como câncer e distúrbios cardiovasculares, e sentiram-se assustados pois foram forçados a encarar as limitações de um corpo magro, porém não invencível;
- alguns pacientes, que quando obesos se sentiam invisíveis e imperceptíveis, sentiram dificuldades em lidar com o novo grau de atenção alheia após a cirurgia, bem como com os comentários invasivos sobre sua alimentação e seus corpos.

Claro, o estudo foi realizado na Noruega, uma realidade bem diferente da nossa, e as transformações vivenciadas por cada pessoas são bem diferentes. Acompanho muitos pacientes que se beneficiaram imensamente da cirurgia. Entretanto, também sei que existem pacientes que passam pelas limitações e dificuldades descritas acima, e acho que aqueles que consideram passar pela cirurgia devem estar cientes disto. Nada na vida traz só coisas boas. Acredito que este estudo ilumina muitas questões a serem consideradas na avaliação, preparo e acompanhamento a longo prazo dos pacientes cirúrgicos.

Bom final de semana!