sábado, 4 de julho de 2015

Transtorno alimentar é “estilo de vida”?

Recentemente, me mandaram a seguinte postagem de Facebook: “Cada portador de TA (transtorno alimentar) tem o direito de decidir se sofre de uma condição psicológica ou se apenas aderiu a um estilo de vida, e há muitas vertentes que consideram o segundo caso como correto”.

É de certa forma comum pacientes com transtorno alimentar – que, vamos deixar bem claro aqui, é SIM uma doença psiquiátrica – em algum momento não internalizarem/aceitarem que de fato estão doentes. Primeiro porque às vezes a doença é tão grave que a pessoa já se identificou com ela, ou seja, o transtorno alimentar já faz parte de sua identidade. Segundo porque o tratamento de um transtorno alimentar é longo, complexo e normalmente caro, já que exige a atuação de vários profissionais especializados (pelo menos nutricionista, psiquiatra e psicólogo). Como se trata, então, de um tratamento difícil e que requer ampla participação e enfrentamento por parte do paciente, muitas vezes pode haver uma resistência em se tratar e uma negação do processo da doença. Nessa linha, um estudo recente publicado no Australian and New Zeland Journal of Psychiatry (veja aqui) demonstrou que crenças positivas em relação à anorexia nervosa estavam associadas a uma maior sintomatologia de transtornos alimentares, tanto em homens quanto em mulheres. Para identificar as tais crenças positivas, os pesquisadores apresentaram aos participantes (universitários) um relato de um homem e uma mulher com sintomas de anorexia nervosa, mas sem explicitar abertamente o diagnóstico aos participantes. Consideraram-se crenças positivas uma admiração dos voluntários em relação ao controle alimentar exercido pelos personagens fictícios, bem como um desejo de ser parecido com eles.  Ou seja: quem acha "bacana" ter transtorno alimentar provavelmente o tem também...

Sendo assim, confesso que foi um pouco chocante ler esta publicação numa rede social, a opinião de um indivíduo que não entende sobre isso amplamente disponível para que qualquer pessoa leia e interprete à sua maneira. Transtorno alimentar  NÃO pode ser estilo de vida na medida em que o indivíduo acometido se torna obsessivo, inflexível e apresenta prejuízos no convívio social e na qualidade de vida. NÃO pode ser estilo de vida quando as pessoas claramente estão sofrendo com isso. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O viés negativo

Hoje acordei com aquela sensação de querer ficar mais na cama. Achando que era só a preguiça falando, levantei, pus a roupa de ginástica e fui para a academia. Minha cabeça a mil, já pensando nas várias coisas que tenho para fazer hoje, não me concentrei nos exercícios que tanto gosto e na minha caminhada na esteira, que é quando assisto meus seriados favoritos. Sensação de não ter aproveitado bem aquele momento de cuidar de mim, e também não consegui aiviar a sensação de cabeça cheia. 

Voltando pra casa, quase tropeço numa pedra e um poodle, aparentemente fofinho, se aproxima de mim com sua dona. Eu sorrio pra ele, mas ele late alto e quase me avança. Um poodle! Daí, aquele pensamento inevitável que quase todo mundo já teve uma vez na vida: “hoje eu deveria ter escutado minha intuição e ter ficado na cama! Tem dias que a gente não deve nem acordar!”.

Foi daí que, graças à minha prática de meditação de atenção plena (mindfulness), consegui perceber o movimento que estava acontecendo dentro de mim. Percebi a onda de negatividade tomando conta... Então, respirei fundo, acolhi o ensinamento sobre a intuição (realmente acredito que poderíamos ouvi-la mais vezes!) mas rejeitei o pensamento sobre não ter acordado. Despertar de manhã é uma dádiva. Agradeci por estar viva e com saúde.

Segundo muitos neurocientistas, dentre eles Rick Hanson, autor dos ótimos livros “Cérebro de Buda” (veja aqui) e “O cérebro e a felicidade” (veja aqui), todos nós temos um “viés negativo”, isto é, uma habilidade para registrarmos e nos apegarmos mais às coisas negativas que nos acontecem que às positivas. Essa tendência é algo evolutivo pois, ao focarmos no negativo, reforçam-se nossas habilidades de sobrevivência, mais do quando focamos nas coisas boas. Como o autor mesmo coloca, "o cérebro é como velcro para experiências ruins e como teflon para as boas - mesmo que a maior parte das experiências seja neutra ou positiva". 

Algo que ajuda muito a neutralizar nosso viés negativo e o cultivo da gratidão, que foi o que eu fiz na história que contei acima. Todos nós, todos os dias, temos algo de bom para agradecer, mesmo que sejam as coisas mais simples: ter saúde para enfrentar os problemas e desafios, um elogio de um colega, um olhar carinhoso de um familiar, uma ligação insperada de um amigo distante, uma surpresa agradável, uma refeição que conforta... Não se trata de ser piegas e “forçar” uma sensação de gratidão, mas sim de observar seu dia com cuidado, aceitar o que aconteceu e conseguir treinar o olhar para as coisas aparentemente irrelevantes que te ajudaram a chegar até  este momento. Com isso, novas conexões (sinapses) vão se formando em nosso cérebro, e o viés negativo vai perdendo sua força. Isso não é misticismo, a ciência comprova isso!

Um exercício bastante agradável para praticar a gratidão é fazer sua própria “jarra de gratidão”, que consiste em anotar situações pelas quais se é grato em um pedaço de papel e jogar dentro de um recipiente, vendo como ele vai se preenchendo aos poucos (veja uma explicação mais detalhada em inglês aqui). Esta é a minha jarra, que comecei a encher no início do ano!




Espero ao final do ano tê-la enchido completamente. Daí, vou sentar e reler todos os papeizinhos, agradecendo e me recordando com carinho de cada um daqueles momentos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Cirurgia bariátrica e diabetes: não é tão simples assim...

Uma das justificativas para o número cada vez maior de cirurgias bariátricas na população com diabetes tipo 2 é a ideia de que o procedimento “curaria” a doença. Mas eu sempre ressalto em minhas aulas sobre diabetes que “o buraco é mais embaixo”.

Sim, muitos pacientes apresentam uma melhora drástica no controle glicêmico nos primeiros dois anos após a cirurgia; porém, o diabetes tipo 2 é uma doença crônica, portanto irreversível, e com diversos processos metabólicos envolvidos, havendo inclusive destruição de células beta (produtoras de insulina). Sendo assim, é bastante comum os pacientes, após esse período inicial de “lua de mel” da cirurgia, voltarem a apresentar descontroles glicêmicos (no jejum e pós-prandial, ou seja, após as refeições) e necessitarem novamente de medicação. Inclusive, um estudo de 2013 (veja aqui) mostrou que após seis anos de cirurgia a taxa de remissão total e parcial do diabetes foi de somente 24 e 26%, respectivamente, mesmo sem reganho significativo de peso. E pasmem: 16% dos pacientes não apresentaram mudança alguma em seu status de doença com o procedimento.

E foi publicado este mês na revista Lancet (séria e confiável revista científica) um estudo no qual 120 pacientes com diabetes tipo 2 foram acompanhados por dois anos: metade fez cirurgia e metade passou por tratamento convencional para a doença. A ocorrência de deficiências nutricionais, fraturas ósseas e infecções foi mais frequente nos indivíduos operados, reforçando ainda mais a necessidade de acompanhamento aos indivíduos com diabetes que optam pela cirurgia (veja estudo aqui).

Então, digo com bastante segurança: não existe ainda cura para o diabetes tipo 2, e o cuidado deve ser constante. Mesmo - ou melhor, especialmente - com a cirurgia bariátrica.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Primum non nocere: um desabafo.



Na minha graduação em Nutrição, tive uma disciplina chamada Bioética. A Bioética é o estudo das implicações morais e éticas que surgem quando se trabalha com a saúde dos seres humanos. Lembro que as aulas costumavam ser polêmicas e por vezes consideradas “chatas”. Costumávamos pensar: “nossa, eu tenho bom senso, eu sei agir com ética, não preciso estudar sobre isso...”

Será que não?

Um dos princípios da bioética é aquele derivado do termo em latim do título ("primum non nocere"), ou do conhecido termo em inglês “first do no harm”: é o princípio da não maleficência. Ele propõe que o profissional não deve inflingir dano intencional ao seu paciente. Ou seja, se não puder fazer o bem, pelo menos não faça mal. Parece óbvio, mas acho que nos perdemos ao longo do caminho.

Quando colegas nutricionistas (nem vou aqui entrar no mérito de blogueiros e perpetuadores da pseudociência) vinculam seu trabalho a esse tipo de imagem acima nas redes sociais, acredito que de certa forma eles estejam infringindo o princípio da não maleficência. É claro o desespero do bonequinho ao se dar conta de que ele estava “quebrando” a dieta, comendo algo “proibido”. Qual a resposta a isso? Cuspir. Essa ilustração, na minha opinião, só incentiva a neurose alimentar em que estamos vivendo e os comportamentos e atitudes transtornados na nossa relação com a comida. 

Tenho pacientes com transtorno alimentar que fazem justamente isso quando querem purgar, ou seja, compensar algo que comeram e que acreditam que não deveriam: eles cospem, vomitam. E sofrem com isso, pois têm uma doença que os leva a agir dessa maneira. E muitas vezes, um dos gatilhos para o surgimento de transtornos alimentares são imagens como essas, que quando publicadas por profissionais de saúde adquirem peso maior.


Nós, profissionais de saúde, temos que nos dar conta do potencial influenciador que temos sobre os indivíduos quando vamos passar uma mensagem. E temos que tomar cuidado para que elas não contenham em si potencial danoso sobre alguns indivíduos potencialmente sugestionáveis. 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Em que unidades de medida você descreveria seu corpo?


(Este texto foi a resposta da minha paciente à pergunta do título; para entender melhor, leia aqui o último post que escrevi)


"A primeira resposta foi 'em nuvens'.

Nuvens são lindas, de diferentes formas e fluidas. Formam animais, criaturas que não existem. Daí lembrei que elas são metáfora de leveza. Pensei que não era uma boa unidade de medida, porque se opunha à ideia de peso. E o corpo tem peso.

A segunda resposta foi 'em viagens'.

Fiz também muitas viagens. Internas e externas. Estive em muitos lugares. Gosto de ser andarilha, de observar coisas, aprender gírias, hábitos. Meu corpo está junto.

Entretanto, pensar sobre a resposta fez com que me lembrasse de um episódio bastante triste de viagem, que mudou muito minha relação com meu namorado. Talvez tenha quebrado uma coisa aqui por dentro que nem sei se será possível consertar:

Há bastante tempo, ele queria muito que fôssemos passar uma semana em um resort. De minha parte, tinha pânico profundo desta ideia – ser obrigada a ficar na piscina de biquíni entre turistas deslumbrantes e bronzeadas. Parece bastante ridículo. Entretanto, algumas críticas a meu corpo fora da boa forma, críticas passadas naquela pior forma de recomendação para a saúde, feitas pelo meu namorado tinham me deixado escaldada. Ele começou a namorar comigo na minha fase mais gorda. Mas me conhecia há muitos anos, quando era magra, e por algum motivo isso me encanava demais – achava que ele lembrava de mim naquela época, sabe? E sei que isso o incomodava também. Sempre dava alguns conselhos para fazer exercício, esse tipo de coisa.

Bom, a história é que sei que consegui o dissuadir da ideia de ir a um resort por duas vezes. Mas numa terceira, ouvindo os conselhos de uma amiga do trabalho, decidi aceitar. Se ele gostava tanto daquilo, vamos fazer as vontades. Foram medonhas minhas incursões para comprar biquíni. Os que tinha na gaveta nem me serviam mais, joguei-os fora. Também nas lojas absolutamente nada servia. Não passavam nem no quadril. Sei que gastei uma fortuna em dois modelitos só para dizer que tinha conseguido. Arrumei as malas.

Chegamos à noite. Os dois tinham feito uma viagem extenuante para chegar no resort, cada um vindo de uma cidade diferente. Estava louca de saudades dele, de vontade de transar e de o apertar, mas não rolou assim que chegamos – ainda fomos jantar, bebemos muito, daí rolou. Fiquei meio chateada com isso, com a distância. E estava já bem preocupada com a questão biquíni. Dormi.

Amanheceu. Era dia de praia. O lugar tinha aquela beleza indecente. Azuis no mar que eu nunca tinha visto. Poderia morrer ali de tão bonito. Depois do café da manhã – acordamos tarde  coloquei um dos biquínis e acho que uma canga, nem me lembro. Vesti Havaianas e passei rímel. Tenho 'mixed feelings' sobre usar maquiagem na praia, um pouco brega, mas eu precisava me proteger. Desci. O caminho era longo e tortuoso, com uma vista deslumbrante para o mar. Adoro o mar. Adoro o sol também.

Cheguei na praia. Escolhi uma cadeira. As turistas bronzeadas deslumbrantes estavam lá. Seres imortais e tão bonitas. Sílfides. Era como se eu não encaixasse ali. Bateu um desespero.

Daí vi que havia um bar na praia. Eu tinha uma pulseira de 'tudo incluído'. Pedi um daiquiri. Achei graça. Se eu fosse escolher a mulher mais interessante da praia, escolheria a do daiquiri. Comecei a rir sozinha. Quem não tem siri, caça com daiquiri. Consegui sobreviver aos outros dias quase bem depois do feito.

Nesta viagem ainda, briguei feio com meu namorado sobre padrões de beleza. Consegui explicar exatamente o quanto mal me sentia. Quer dizer, não assim tão bem, porque nem eu sei, mas foi satisfatório. Ele nunca mais disse nada a respeito. Não que as coisas tenham ficado bem, alguma coisa quebrou aqui dentro, mas é uma batalha, sabe? 

Hoje me dei conta do quão machucada ainda sou por essa história. Parece bem boba. Parece uma nota de rodapé. Mas é isso. É você achar que não tem direito a ocupar uma faixa de areia. Não poder entrar numa piscina. Fiquei pensando uma resposta, que meu corpo poderia ser medido em poemas ou em histórias. Daí volta a ser algo muito intelectual. O corpo tem peso.

Lembrei ainda que adorava tomar sol na praia. No quintal. Não tinha a menor vergonha. Talvez hoje tenha que voltar a tomar sol. Daí decidi a medida: poderia medir meu corpo em raios de sol tomados durante a vida.

Tem peso, tem velhice, tem prazer. Talvez seja uma boa unidade de medida.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Carta ao corpo: um exercício transformador


Uma das coisas mais importantes quando queremos melhorar nossa relação com quem quer que seja é estabelecer e incentivar uma comunicação assertiva, certo? Falar aquilo que sentimos, sem no entanto culpabilizar ou agredir o outro... Uma comunicação sincera e ao mesmo tempo gentil, sempre que possível. Por isso, gosto bastante de pedir aos meus pacientes que escrevam uma carta ao próprio corpo, especialmente para aqueles que possuem uma relação difícil com ele e que sofrem com distúrbios de imagem corporal. Esse exercício de escrita é catártico, abre um canal de comunicação direta com o corpo, possibilitando assim uma transformação (mesmo que pequena) da relação entre o indivíduo e si mesmo. Afinal, nós somos o nosso corpo! Não existimos sem ele, estamos integrados!

O texto abaixo foi uma paciente minha que escreveu, e ela me autorizou publicá-lo aqui no blog para a apreciação de vocês (sim, pois é muito poético!).  

“Querido Corpo, Ilustríssimo Corpo,

Qual pronome de tratamento que você prefere? Nossa comunicação é tão rara e fugidia que até decidir o pronome tá difícil. Isso me faz lembrar outra lambança: a pessoa. Sim, porque a gente (ou ao menos eu) estamos acostumados a pensar o corpo em terceira pessoa – aprendi essa sacada com a Marília Coutinho, neste post do Blogueiras Feministas – e pensamos o corpo não em primeira pessoa, como deveria ser. Temos pouquíssima prática em “corpar”, ou seja, ser o próprio corpo. Daí é bastante confuso pensar o você-corpo nas evocações de segunda pessoa (nem vou mencionar o embrólio que o “você” e o “tu” apresentam na variante brasileira da língua).

Sem decidir o pronome de tratamento, digo que minha relação contigo apenas aparece em primeira pessoa em situações bastante específicas: quando faço amor, sexo ou, na mais bonita das hipóteses, os dois juntos. Daí eu sou você tudo junto. Também quando tenho crises de asma e não consigo existir fora de você e respirar. Ainda quando danço, momento em que sinto que tua presença é a minha. Ou ainda quando canto. Embora ande cantando ou dançando pouquíssimo para te visitar. Não é agradável. Por isso, comecei falando de gramática. Pra rodear.

Daí chegamos ao ponto. Às vezes, não te reconheço. Diria que na maior parte dos dias e noites. Você-corpo é um ente abstrato. Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.  Você não se cuida. Os velhos chavões. Praticar exercícios. Emagrecer. Cuidar da saúde. Ao menos, passo filtro solar. E fio dental. E penteio meu cabelo. Cabelo cheio de tintura, porque ainda não tenho cabelos brancos e porque gosto de cabelos tingidos. Cabelo picotado na diversão de cortar o próprio cabelo. Talvez o cabelo seja uma presença tua, você-corpo, que eu sei que é minha.

Reli meus poemas que falam do tema. Habitar o próprio corpo. Encontrei aquela nota melancólica. A dificuldade. O julgamento dum alguém (quem atende por esse outro?). Depois mando os poemas, porque agora estou atrasada. Sim, estou atrasada e decidi escrever logo essa carta que a Carol pediu porque estava me angustiando. Fiz listas. Organizei ideias. Mas agora-aqui-contigo sempre é muito mais complicado.

A verdade é que não sei, não decidi ainda se quero te chamar de você. Muito menos de “eu”. Sabe como geralmente me descrevem? “Uma menina inteligente”. Disso decorrem duas coisas: jura que sou ainda “menina”, se já tenho 35 anos? Gosto que me chamam de “inteligente”, porque assim se reforça a ideia: não preciso ter você-corpo pra existir e ser elogiada. Imagino que nada disso seja agradável de ler, desculpa, mas estamos nessa tentativa de pingos nos is.

Vou pensar mais em tudo, prometo.

Aproveita que você é a pessoa do lado físico e também me escreva.

Com dificuldades e com amor,

Eu-mesma.”

Confesso que fiquei emocionada ao ver o mergulho que essa paciente fez em si mesma. É preciso coragem e disposição. Pois essa é a verdade essencial: para se melhorar a relação com o corpo, é fundamental haver intenção. A pessoa precisa querer sair do ciclo de autoflagelação e ódio ao corpo. É preciso deixar as culpas e mágoas de lado, por mais difícil que seja esse processo. É preciso se tratar com um pouco mais de autocompaixão.

Como reflexão final na consulta, chamei a atenção da autora quanto à parte em que ela coloca como seu corpo é descrito atualmente (“Descrito em números, 54, 69, 70. Descrito em taxas de colesterol, açúcar e triglicérides. Descrito em ordens do rádio, os olhares no ponto de ônibus, nas broncas da minha mãe.”). Questionei a ela como ela descreveria seu corpo, que unidades de medida usaria... Já que cabe somente a ela definir isso. O resultado foi outra belíssima composição escrita, que publicarei no blog semana que vem.

Bom feriado a todos!


OBS: uma amiga nutricionista, Alessandra Fabbri, também publicou no blog do Genta (Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares) uma carta ao corpo de uma paciente sua. Veja aqui

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Coelhinho da Páscoa, que trazes pra mim?


Esta semana, que antecede a Páscoa, é chamada pelos católicos de Semana Santa, e é para mim um momento de bastante reflexão sobre a necessidade que temos de “renascer” para determinadas situações e circunstâncias de nossa vida. Assim como eu acredito que Jesus Cristo morreu por compaixão a nós e ressuscitou para que tivéssemos uma nova vida, cheia de esperança e amor, também acredito que podemos aproveitar a Páscoa para alimentarmos nossa autocompaixão e a esperança de construir uma nova relação com a comida.

Todos sabemos que, na Páscoa, existe um apelo consumista exagerado em torno do chocolate, um dos alimentos mais vistos pelas pessoas como “proibido” ou “engordativo”. Junte esse apelo comercial com a aura de “proibido” e essa se torna uma época de exagero e culpa para indivíduos com transtornos alimentares ou com uma relação complicada com a comida e o peso. Se esse é o seu caso, reflita sobre o seguinte:

1. Chocolate é só chocolate. Quando você consegue vivenciar a experiência de degustar de verdade um chocolate, envolvendo nisso todos os seus sentidos, sem deixar a cabeça ser levada pela enxurrada de pensamentos negativos, depreciativos e culpa, você aos poucos chega ao entendimento de que chocolate é apenas isso: chocolate. Sim, ele é gostoso e prazeroso. Mas você não consegue comer 200g de uma vez se estiver plenamente conectado com a experiência e não se julgar por estar comendo algo tido como “proibido”.

2. Exerça sua seletividade. Se for mesmo comprar mesmo um ovo de Páscoa (apesar dos preços abusivos!), pense: você realmente prefere comprar um ovo de Páscoa imenso daquela marca comum ou de repente vale a pena comprar um ovo menor de uma marca mais saborosa e gourmet?

3. Aproveite o simbolismo espiritual dessa festa para rever questões importantes sobre sua vida. Autocompaixão é sermos tolerantes com nossos erros e limitações, é a capacidade de nos perdoarmos quando acreditamos que fizemos algo errado. O quanto eu consigo exercer a autocompaixão depois de comer um grande quantidade de chocolate? Como eu consigo cuidar melhor de meu corpo, sem ser por meio de restrições e culpa, e amá-lo um pouco mais?   

E lembre-se:



Boa Páscoa a todos!