terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os tipos de restrição alimentar



Todos os nutricionistas que trabalham com transtornos alimentares – e também aqueles que usam a abordagem defendida pela NutriçãoComportamental – têm como fato a premissa de que dietas levam à compulsão alimentar, comer emocional e/ou comer na ausência de fome. Por “dieta” me refiro aqui a  qualquer tipo de restrição alimentar com a finalidade de perda de peso, que não siga os sinais internos do corpo como fome, apetite e saciedade para determinar o que e quanto comer. Dietas forçam o indivíduo a seguir regras externas para determinar sua escolha alimentar, que inevitavelmente levam à transgressão e à culpa em comer. Dietas não fazem bem e não são inofensivas: dietas fazem mal.

A restrição alimentar mais óbvia é a restrição quantitativa, ou seja, a pessoa diminui a quantidade de comida que come a fim de reduzir a ingestão calórica, o que teoricamente levaria ao emagrecimento. Porém, muitos pacientes que têm uma relação ruim com a comida me dizem em algum ponto do tratamento: “Carol, eu não estou mais fazendo restrição, estou comendo todas as refeições e em quantidades adequadas... Então por que ainda estou tendo compulsão?”

“Porque você está fazendo outros tipos de restrição”, é a minha resposta. 

O segundo tipo de restrição é a qualitativa, isto é, o indivíduo come em quantidades razoáveis mas nunca (ou quase nunca) se permite comer os alimentos que gosta, somente aqueles que considera “corretos”. Isso ainda faz parte da mentalidade de dieta, que dicotomiza os alimentos entre “permitidos” e “proibidos”. Se a pessoa ainda faz dieta, ela ainda tem compulsão.

O terceiro e último tipo, que por ser mais sutil pode correr o risco de passar batido, é o que eu chamo de restrição cognitiva. É quando a pessoa até come o delicioso brigadeiro que tanto queria... Mas com a sensação de que não deveria. A certeza de estar quebrando uma regra leva automaticamente à culpa e ao pensamento de “8 ou 80”: “já que comi um brigadeiro, já que já meti o pé na jaca, melhor comer logo 10...”

Daí a importância suprema da permissão incondicional em comer, defendida pelo modelo do Intuitive Eating, que está explicado em detalhes em nosso livro Nutrição Comportamental (pode ser comprado aqui). Claro, quando toco nesse assunto, os pacientes logo demonstram o medo de passar a comer somente comidas muito gostosas e calóricas caso se permitam; e, de fato, isso pode acontecer no início. Mas se o indivíduo resistir e não adotar a mentalidade de dieta novamente, essa fase passa. Experimente comer sua comida predileta todos os dias por um mês, e veja se ao final deste você ainda tem desejo de continuar comendo a delícia escolhida com a mesma frequência e intensidade...

E então, já se permitiu hoje?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A dança das emoções


Assistindo ao novo filme da Pixar “Divertidamente” (“Inside out”), lembrei-me de um antigo dizer que coloca que o contrário de amor não é o ódio, e sim a indiferença. A indiferença pode ser muito mais destrutiva que este último, e acredito que assim seja com nossas emoções. Ignorar aquilo que sentimos, não entrando em contato com as emoções por mais dolorosas que sejam, destrói nossa habilidade de nos conhecermos, de aprendermos algo valioso sobre nós mesmos e de crescermos e florescermos como pessoas plenas e felizes. As emoções são verdadeiras bússolas, guiando nosso entendimento do mundo e nossas atitudes. Ou seja, existe espaço dentro de nós para todas as emoções. Nada é proibido ou vergonhoso de ser sentido. Inclusive, a crença de que devemos ser felizes a todo momento é um dos motivos que nos leva a sermos mais infelizes! Até porque, se não sentíssemos emoções “negativas” (como tristeza), como saberíamos o que é alegria e contentamento?

Entendo que algumas pessoas (vejo isso em vários pacientes) têm uma grande dificuldade em sentir e interpretar suas emoções, reagindo automaticamente a elas e adotando muitas vezes um padrão destrutivo de comportamento, como se engajar com frequência em comer emocional e compulsão alimentar. Cabe ao nutricionista que quer trabalhar essas questões perceber e apontar aos pacientes a maneira como seus sentimentos estão interferindo em sua relação com a comida; e cabe ao psicólogo, valioso parceiro nesse processo, trabalhar essas emoções com os pacientes e ajudá-los a criar um espaço dentro de si mesmos para que essas emoções possam circular e reverberar; e, talvez, quem sabe, dançar.

   

Para saber mais:

http://www.mindful.org/five-things-pixars-inside-out-teaches-us-about-emotions/?utm_source=Mindful+Newsletter&utm_campaign=3092bd9fa4-MF_Weekly_Newsletter_August_48_4_2015&utm_medium=email&utm_term=0_6d03e8c02c-3092bd9fa4-21277385

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Doses homeopáticas de inspiração

Hoje trago neste post alguns vídeos bastante informativos e inspiradores, que promovem uma reflexão crítica acerca dos temas corpo, padrões de beleza, saúde e comida. São vídeos curtos, de no máximo 15 minutos, vale a pena assistir! Alguns possuem legendas em português, outros infelizmente não (mas o Youtube oferece a opção de legendas em inglês). Aproveitem e reflitam!

Cultivando o equilíbrio mental e emocional; por Alan Wallace


Alan Wallace é um grande estudioso e um dos maiores tradutores/intérpretes do Budismo tibetano no mundo ocidental. Nesse vídeo, ele fala sobre os benefícios do mindfulness (atenção plena) no cultivo do equilíbrio mental e emocional e de estados mentais positivos.

Emoções positivas expandem nossa mente; por Barbara Fredrickson


Barbara Fredrickson é um dos grandes nomes na área da Psicologia Positiva, e neste vídeo ela aborda como o cultivo de emoções positivas nos torna mais conscientes do mundo à nossa volta e nos torna mais compassivos. Para quem tiver interesse, ela ministra um ótimo curso online de Psicologia Positiva no portal Coursera, e é grátis. Veja aqui

Aparência não é tudo. Acreditem, sou modelo; por Cameron Russell


A modelo Cameron Russell, que admite ter ganhado uma “loteria genética” promove um debate sobre os padrões de beleza vigente e sobre a glamourização do culto ao corpo e à imagem.

Doug na balança; episódio do desenho animado Doug Funnie


Quem, como eu, se divertia muito com esse desenho animado na infância vai gostar desse vídeo, que mostra a obsessão que a prática de dietas promove e o quanto o estigma da obesidade nos afasta daquilo que realmente importa: a conexão entre seres humanos e o desejo comum a todos de sermos felizes!

De repente, meu corpo; por Eve Ensler


A ativista feminista Eve Ensler, autora da famosa peça “Monólogos da vagina” (encenada mundialmente), conta nesse vídeo sobre como esteve desconectada de seu corpo por muitos anos e de que forma ocorreu sua “volta para casa”. Ela fala sobre a mudança de paradigma que o respeito ao próprio corpo pode trazer às nossas vidas.  

Porque é OK ser gordo; por Golda Poretsky


A ativista do movimento Health at Every Size explica porque as dietas não funcionam e porque ser gordo não é em si um problema. Ela traz referências de estudos que comprovam que as pessoas podem ser saudáveis em qualquer tamanho, a depender de seu estilo de vida e dos comportamentos de saúde adotados.

Nutricionista; por Porta dos Fundos




Finalmente, dois vídeos sobre (e para) os nutricionistas, que mostra por meio do humor a mediocrização da Nutrição quando reduzida a uma profissão simplesmente “emagrecedora” e que leva em conta somente o papel biológico da comida, esquecendo suas funções culturais, sociais, emocionais e afetivas. 

sábado, 4 de julho de 2015

Transtorno alimentar é “estilo de vida”?

Recentemente, me mandaram a seguinte postagem de Facebook: “Cada portador de TA (transtorno alimentar) tem o direito de decidir se sofre de uma condição psicológica ou se apenas aderiu a um estilo de vida, e há muitas vertentes que consideram o segundo caso como correto”.

É de certa forma comum pacientes com transtorno alimentar – que, vamos deixar bem claro aqui, é SIM uma doença psiquiátrica – em algum momento não internalizarem/aceitarem que de fato estão doentes. Primeiro porque às vezes a doença é tão grave que a pessoa já se identificou com ela, ou seja, o transtorno alimentar já faz parte de sua identidade. Segundo porque o tratamento de um transtorno alimentar é longo, complexo e normalmente caro, já que exige a atuação de vários profissionais especializados (pelo menos nutricionista, psiquiatra e psicólogo). Como se trata, então, de um tratamento difícil e que requer ampla participação e enfrentamento por parte do paciente, muitas vezes pode haver uma resistência em se tratar e uma negação do processo da doença. Nessa linha, um estudo recente publicado no Australian and New Zeland Journal of Psychiatry (veja aqui) demonstrou que crenças positivas em relação à anorexia nervosa estavam associadas a uma maior sintomatologia de transtornos alimentares, tanto em homens quanto em mulheres. Para identificar as tais crenças positivas, os pesquisadores apresentaram aos participantes (universitários) um relato de um homem e uma mulher com sintomas de anorexia nervosa, mas sem explicitar abertamente o diagnóstico aos participantes. Consideraram-se crenças positivas uma admiração dos voluntários em relação ao controle alimentar exercido pelos personagens fictícios, bem como um desejo de ser parecido com eles.  Ou seja: quem acha "bacana" ter transtorno alimentar provavelmente o tem também...

Sendo assim, confesso que foi um pouco chocante ler esta publicação numa rede social, a opinião de um indivíduo que não entende sobre isso amplamente disponível para que qualquer pessoa leia e interprete à sua maneira. Transtorno alimentar  NÃO pode ser estilo de vida na medida em que o indivíduo acometido se torna obsessivo, inflexível e apresenta prejuízos no convívio social e na qualidade de vida. NÃO pode ser estilo de vida quando as pessoas claramente estão sofrendo com isso. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O viés negativo

Hoje acordei com aquela sensação de querer ficar mais na cama. Achando que era só a preguiça falando, levantei, pus a roupa de ginástica e fui para a academia. Minha cabeça a mil, já pensando nas várias coisas que tenho para fazer hoje, não me concentrei nos exercícios que tanto gosto e na minha caminhada na esteira, que é quando assisto meus seriados favoritos. Sensação de não ter aproveitado bem aquele momento de cuidar de mim, e também não consegui aiviar a sensação de cabeça cheia. 

Voltando pra casa, quase tropeço numa pedra e um poodle, aparentemente fofinho, se aproxima de mim com sua dona. Eu sorrio pra ele, mas ele late alto e quase me avança. Um poodle! Daí, aquele pensamento inevitável que quase todo mundo já teve uma vez na vida: “hoje eu deveria ter escutado minha intuição e ter ficado na cama! Tem dias que a gente não deve nem acordar!”.

Foi daí que, graças à minha prática de meditação de atenção plena (mindfulness), consegui perceber o movimento que estava acontecendo dentro de mim. Percebi a onda de negatividade tomando conta... Então, respirei fundo, acolhi o ensinamento sobre a intuição (realmente acredito que poderíamos ouvi-la mais vezes!) mas rejeitei o pensamento sobre não ter acordado. Despertar de manhã é uma dádiva. Agradeci por estar viva e com saúde.

Segundo muitos neurocientistas, dentre eles Rick Hanson, autor dos ótimos livros “Cérebro de Buda” (veja aqui) e “O cérebro e a felicidade” (veja aqui), todos nós temos um “viés negativo”, isto é, uma habilidade para registrarmos e nos apegarmos mais às coisas negativas que nos acontecem que às positivas. Essa tendência é algo evolutivo pois, ao focarmos no negativo, reforçam-se nossas habilidades de sobrevivência, mais do quando focamos nas coisas boas. Como o autor mesmo coloca, "o cérebro é como velcro para experiências ruins e como teflon para as boas - mesmo que a maior parte das experiências seja neutra ou positiva". 

Algo que ajuda muito a neutralizar nosso viés negativo e o cultivo da gratidão, que foi o que eu fiz na história que contei acima. Todos nós, todos os dias, temos algo de bom para agradecer, mesmo que sejam as coisas mais simples: ter saúde para enfrentar os problemas e desafios, um elogio de um colega, um olhar carinhoso de um familiar, uma ligação insperada de um amigo distante, uma surpresa agradável, uma refeição que conforta... Não se trata de ser piegas e “forçar” uma sensação de gratidão, mas sim de observar seu dia com cuidado, aceitar o que aconteceu e conseguir treinar o olhar para as coisas aparentemente irrelevantes que te ajudaram a chegar até  este momento. Com isso, novas conexões (sinapses) vão se formando em nosso cérebro, e o viés negativo vai perdendo sua força. Isso não é misticismo, a ciência comprova isso!

Um exercício bastante agradável para praticar a gratidão é fazer sua própria “jarra de gratidão”, que consiste em anotar situações pelas quais se é grato em um pedaço de papel e jogar dentro de um recipiente, vendo como ele vai se preenchendo aos poucos (veja uma explicação mais detalhada em inglês aqui). Esta é a minha jarra, que comecei a encher no início do ano!




Espero ao final do ano tê-la enchido completamente. Daí, vou sentar e reler todos os papeizinhos, agradecendo e me recordando com carinho de cada um daqueles momentos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Cirurgia bariátrica e diabetes: não é tão simples assim...

Uma das justificativas para o número cada vez maior de cirurgias bariátricas na população com diabetes tipo 2 é a ideia de que o procedimento “curaria” a doença. Mas eu sempre ressalto em minhas aulas sobre diabetes que “o buraco é mais embaixo”.

Sim, muitos pacientes apresentam uma melhora drástica no controle glicêmico nos primeiros dois anos após a cirurgia; porém, o diabetes tipo 2 é uma doença crônica, portanto irreversível, e com diversos processos metabólicos envolvidos, havendo inclusive destruição de células beta (produtoras de insulina). Sendo assim, é bastante comum os pacientes, após esse período inicial de “lua de mel” da cirurgia, voltarem a apresentar descontroles glicêmicos (no jejum e pós-prandial, ou seja, após as refeições) e necessitarem novamente de medicação. Inclusive, um estudo de 2013 (veja aqui) mostrou que após seis anos de cirurgia a taxa de remissão total e parcial do diabetes foi de somente 24 e 26%, respectivamente, mesmo sem reganho significativo de peso. E pasmem: 16% dos pacientes não apresentaram mudança alguma em seu status de doença com o procedimento.

E foi publicado este mês na revista Lancet (séria e confiável revista científica) um estudo no qual 120 pacientes com diabetes tipo 2 foram acompanhados por dois anos: metade fez cirurgia e metade passou por tratamento convencional para a doença. A ocorrência de deficiências nutricionais, fraturas ósseas e infecções foi mais frequente nos indivíduos operados, reforçando ainda mais a necessidade de acompanhamento aos indivíduos com diabetes que optam pela cirurgia (veja estudo aqui).

Então, digo com bastante segurança: não existe ainda cura para o diabetes tipo 2, e o cuidado deve ser constante. Mesmo - ou melhor, especialmente - com a cirurgia bariátrica.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Primum non nocere: um desabafo.



Na minha graduação em Nutrição, tive uma disciplina chamada Bioética. A Bioética é o estudo das implicações morais e éticas que surgem quando se trabalha com a saúde dos seres humanos. Lembro que as aulas costumavam ser polêmicas e por vezes consideradas “chatas”. Costumávamos pensar: “nossa, eu tenho bom senso, eu sei agir com ética, não preciso estudar sobre isso...”

Será que não?

Um dos princípios da bioética é aquele derivado do termo em latim do título ("primum non nocere"), ou do conhecido termo em inglês “first do no harm”: é o princípio da não maleficência. Ele propõe que o profissional não deve inflingir dano intencional ao seu paciente. Ou seja, se não puder fazer o bem, pelo menos não faça mal. Parece óbvio, mas acho que nos perdemos ao longo do caminho.

Quando colegas nutricionistas (nem vou aqui entrar no mérito de blogueiros e perpetuadores da pseudociência) vinculam seu trabalho a esse tipo de imagem acima nas redes sociais, acredito que de certa forma eles estejam infringindo o princípio da não maleficência. É claro o desespero do bonequinho ao se dar conta de que ele estava “quebrando” a dieta, comendo algo “proibido”. Qual a resposta a isso? Cuspir. Essa ilustração, na minha opinião, só incentiva a neurose alimentar em que estamos vivendo e os comportamentos e atitudes transtornados na nossa relação com a comida. 

Tenho pacientes com transtorno alimentar que fazem justamente isso quando querem purgar, ou seja, compensar algo que comeram e que acreditam que não deveriam: eles cospem, vomitam. E sofrem com isso, pois têm uma doença que os leva a agir dessa maneira. E muitas vezes, um dos gatilhos para o surgimento de transtornos alimentares são imagens como essas, que quando publicadas por profissionais de saúde adquirem peso maior.


Nós, profissionais de saúde, temos que nos dar conta do potencial influenciador que temos sobre os indivíduos quando vamos passar uma mensagem. E temos que tomar cuidado para que elas não contenham em si potencial danoso sobre alguns indivíduos potencialmente sugestionáveis.